"Questão agora é como lidar com uma Coreia do Norte nuclear"

Diretor adjunto do Anuário Janus, Luís Tomé coordena o doutoramento em Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa. Especialista em Ásia-Pacífico, falou ao DN sobre as crescentes tensões que envolvem a Coreia do Norte e os Estados Unidos e por extensão a China, o Japão e a Coreia do Sul.

Apesar da troca de agressões verbais entre Donald Trump e Kim Jong-un, acha provável uma guerra nuclear a envolver os Estados Unidos e a Coreia do Norte?

A questão está bem colocada, porque não é se pode haver. Poder, pode. Se acho provável? Não, porque ninguém tem interesse. Nem a Coreia do Norte, nem a Coreia do Sul, nem o Japão, nem os EUA, apesar de Trump ter usado como estratégia inicial pôr-se ao mesmo nível da retórica, fazendo uma escalada com o homólogo norte-coreano. Os EUA não têm nenhum interesse nessa guerra, nem só sob pena de perderem apoio dos aliados Coreia do Sul e Japão, que seriam as vítimas imediatas, mas também não esquecendo que os EUA têm 28 mil soldados na Coreia do Sul e mais de cem mil civis, portanto qualquer guerra seria trágica.

Pode dizer-se que o regime norte-coreano está a procurar algum tipo de paridade nuclear para sobreviver?

A paridade é impossível, porque é impossível chegar ao patamar da Rússia e dos EUA, mas estão a tentar ter capacidade míssil que transporte ogivas nucleares que podem atingir o território continental dos EUA.

Paridade não, mas dissuasão sim?

Dissuasão sim. Eles estiveram tentados a seguir o modelo de Muammar Kadhafi em 2003, quando o líder líbio abandonou o programa nuclear no sentido de se envolver mais na comunidade global. Oito anos depois, Kadhafi foi morto na sequência dos acontecimentos da Primavera Árabe e isso serve de lição ao regime norte-coreano. O problema não está em desistir das armas nucleares, está em ter armas para evitar que ao regime aconteça o que aconteceu no Médio Oriente. A questão já não é não ter, já não é sequer desarmar, porque não me parece possível levar os norte-coreanos a esse ponto. Questão agora é lidar com uma Coreia do Norte nuclear e nesse sentido temos de debater a estratégia da dissuasão nuclear.

Partindo do princípio de que é irreversível uma Coreia do Norte nuclear, isso significa que os argumentos militaristas do Japão, não só a revisão da Constituição pacifista e o aumento da despesa militar, mas em último caso o caminhar para o nuclear, ganham força?

Acho que sim, porque se olharmos para os players regionais, todos eles estão numa posição bastante desconfortável e impossível, exceto o Japão, cuja agenda do primeiro-ministro Shinzo Abe de normalizar o país do ponto de vista estratégico, com a crise da Coreia do Norte ganha mais argumentos não só para fazer a revisão da Constituição, mas quiçá avançar, ultrapassando o limite de 1% para a defesa. E se porventura a crise se agravar, começaremos a ver no Japão um debate sobre a própria nuclearização do país, a par da Coreia do Sul.

A China tem um aliado incómodo, que é a Coreia do Norte, e tem um rival potencial que é o Japão. Portanto, a China não tem interesse em que a Coreia do Norte continue nessa escalada verbal com os EUA?

Se não passar da escalada verbal a China consegue gerir isso. Agora, a China não tem interesse na instabilidade porque beneficia muito da relativa estabilidade e paz, não só do ponto de vista económico mas do seu soft power na região e no mundo. A China é uma grande vencedora nos últimos anos em termos de balança de poder, mas não tem interesse nem no colapso da Coreia do Norte nem numa guerra na península coreana, pelos efeitos imediatos. Desde logo, pode haver consequências do ponto de vista do uso de armas nucleares para a própria China. Por outro lado, imagine-se os milhões de refugiados com que a China teria de conviver. E além disso teria um rival não no Japão mas nos EUA, com tropas muito mais próximas da China na península coreana. A China tem um problema hoje que não tinha no passado, quando tinha grande influência em Pyongyang e conseguia usar isso numa agenda muito ampla com os EUA. Hoje ainda é o único país com alguma influência, mas é apenas alguma. Não é determinante, nem a voz da China é suficiente para levar Pyongyang a fazer o que os chineses querem. Desse ponto de vista, a China também tem uma posição mais dificultada quer vis-à-vis com os EUA, Japão e Coreia do Sul, quer no próprio relacionamento com Pyongyang.

À China interessa estabilidade mas ao mesmo tempo não deixa de defender os seus interesses, nomeadamente no mar da China Meridional. Isso significa que pode surgir uma coligação anti? Ou seja, Índia e e Austrália podem juntar-se ao Japão numa espécie de frente antichinesa?

Esse é o receio que a China tem e é legítimo. O receio de que haja um novo containment na Guerra Fria - que seja agora anti-China. Obviamente que no centro desse containment estão os EUA e os aliados e parceiros regionais, a começar pelo Japão, Coreia do Sul, pelo grupo ASEAN, sobretudo países-chave como as Filipinas e a Indonésia, a Austrália e até parceiros como a Índia, a Mongólia e no futuro, quem sabe, a Rússia. A China vive há séculos com o complexo de cerco e nas últimas décadas com essa possibilidade de um sistema de contenção anti-China. E é evidente que a China reivindica território no mar da China Meridional invocando a legitimidade histórica sobre essas ilhas, mas fala com algum tato para evitar verdadeira contenção anti-China.

Acha, por outro lado, que há risco de conflito entre a China e Taiwan mesmo se a atual presidente da ilha, Tsai Ing-wen, mantiver o statu quo, ou seja, não proclamar a independência?

Essa é a linha vermelha. Há muito tempo que a China sinalizou que pode esperar os anos que forem necessários desde que Taiwan não avance resolutamente para a independência. Sempre que em Taiwan, fruto da democracia, o DPP está no poder, as coisas tornam-se um bocadinho mais tensas, porque os verdadeiros taiwaneses não se reveem na lógica de uma China única nem na identidade chinesa. Assumem terem uma identidade taiwanesa e querem uma Taiwan separada da China. Quando é o Kuomintang no poder, as coisas tornam-se menos agrestes porque os nacionalistas reveem-se na ideia de uma única China. Assim, se os taiwaneses não avançarem para a independência, a China tolera a existência de Taiwan. Não sabemos quanto tempo, porque daqui a alguns anos, quando a China estiver mais forte e com condições para fazer aquilo que estrategicamente anuncia, que é o antiacesso dos EUA ao teatro de operações, pode haver a tentação de resolver o problema por via da força. Para já não me parece provável.

Nos próximos cinco anos, ou seja ainda na era Xi Jinping, é possível a China chegar a ser uma potência à altura dos EUA? Ou seja, poder competir com os EUA por uma dominação global?

Nos próximos cinco anos creio que não, mas neste momento a China é a segunda grande potência logo a seguir aos EUA. Pode vir a ser a primeira em termos económicos, em termos estratégicos, com capacidade de projeção de poder e força, mas não creio que possa rivalizar de igual para igual com os EUA no prazo de cinco anos. No entanto, em vários domínios já o faz, obrigando os EUA a articular com a China antes de articular com os outros, e na Ásia-Pacífico é assim claramente. Por exemplo, a China é o maior parceiro comercial de vários aliados dos EUA na região, tem o maior exército do mundo, tem o segundo maior orçamento militar a seguir aos EUA e tem imenso soft power quer na Ásia-Pacífico quer no resto do globo, muita capacidade política e de influência diplomática. Portanto, a China tem todo o potencial para poder rivalizar com os EUA em vários domínios. Já hoje a política asiática dos EUA é fortemente condicionada pelo seu relacionamento e perceção com a China, a sua agenda global está muito condicionada também pela articulação ou perceção da China. Estamos num percurso em que gradualmente os EUA e a China tenderão a ficar mais próximos um do outro, e o mundo no futuro será mais construído por americanos e chineses do que nas décadas passadas, entre americanos e europeus.

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