"Putin é um homem do KGB mas também santifica Nicolau II"

Entrevista ao historiador Robert Service, que está em Lisboa para apresentar O Último dos Czares - Nicolau II e a Revolução Russa (Desassossego).

Biógrafo de Lenine, de Trotski e de Estaline e autor de História da Rússia no Século XX, o britânico Robert Service escolheu o último czar como tema do mais recente livro. Conversou com o DN em Lisboa, onde está para apresentar O Último dos Czares - Nicolau II e a Revolução Russa (Desassossego).

Já escreveu sobre Lenine e Estaline. Foi diferente biografar o último czar?

Exigiu-me uma dedicação especial porque nunca tinha escrito sobre alguém da realeza. E os hábitos da realeza são diferentes dos das outras pessoas, certamente diferentes dos hábitos dos secretários-gerais de um partido comunista. É preciso entender como geria a sua vida, como organizava as pessoas à sua volta, como lidava com a sociedade. E, porém, quanto mais eu estudava a personagem mais chegava à conclusão de que Nicolau II tinha uma atitude autoritária condescendente para com o povo muito semelhante à que Lenine tinha e Estaline também. E provavelmente o mesmo é verdade para Vladimir Putin. Assim, tornou-se mais fácil biografá-lo.

Existe aqui uma marca russa, mesmo que Estaline seja georgiano? Há muito em comum em todos estes líderes, do czar Nicolau II ao presidente Putin?

Todos estes líderes do século XX e agora do século XXI baseiam o seu poder na premissa de que o povo russo é maleável, que precisa e pode ser moldado, mas também o temem. Um dos erros ao analisar o regime comunista é os líderes serem sempre autoconfiantes. É só verdade pela metade. A outra metade da história é que mesmo Estaline temia o povo russo. A Rússia era para Estaline um país difícil de governar. E antes foi difícil para Nicolau II como para Lenine. E continua difícil de governar para Putin.

No livro nota que Nicolau II foi o primeiro czar a visitar a Sibéria, que é metade da Rússia. Quando diz que os líderes temem os russos e a Rússia é por causa do tamanho e da sua natureza euro-asiática não só em termos de geografia mas também de cultura?

O imenso tamanho do território, o facto de a população estar tão dispersa e a administração ter dificuldade em penetrar fundo significa que por vezes a população, como em 1905, 1917, 1921, 1953, 1962, 1989, diz "basta". E sai à rua. Em todos estes casos os governantes foram apanhados de surpresa. Assim, todos os governantes russos sabem que um dia podem sair às ruas junto ao Kremlin e depararem com uma multidão enfurecida. E isso é um facto da vida.

No caso de Nicolau II, que teve de enfrentar a revolta de 1905, não foi capaz de aprender a lição e evitar a revolução de 1917. Excesso de confiança?

Foi mais um excesso de certezas autocráticas. Nicolau II ascendeu ao trono cheio de convicções sobre como governar a Rússia, o que deve o czar ao povo russo e o que deve o povo russo ao czar. Como autocrata que era lamentou mesmo ter feito concessões em 1905 e desrespeitou-as, acabando por pagar, não só perdendo o poder como destruindo a dinastia Romanov. Interpretou desastrosamente a situação e quando caiu praticamente ninguém saiu em sua defesa. E isso é notável. Quando há uma revolução, costuma haver de imediato a contrarrevolução, oficiais que se mobilizam. Na Rússia isso não aconteceu.

Os exércitos russos brancos não foram essa contrarrevolução?

Os russos brancos conseguiram organizar-se contra os comunistas, mas não em defesa de Nicolau II. Não queriam o regresso ao czarismo. Nicolau II foi aconselhado por todos os embaixadores ocidentais a fazer concessões se quisesse sobreviver e ignorou-os.

Nicolau II é muitas vezes apresentado como um demónio, a encarnação de todos os pecados autocráticos. É justa esta sua imagem? Tem um lado bom?

É justo dizer que era também um homem de família muito decente, um marido e pai carinhoso. E até foi um alívio para ele quando foi afastado do trono, pois embora fosse um autocrata por natureza sentia dramas psicológicos sobre o governar. Ao mesmo tempo era um virulento antissemita, culpava os judeus por todos os males da Rússia.

Como se dava com os ministros? Sei que afastou o modernizador Stolipine por não suportar opiniões diferentes.

Stolipine era um conservador modernizador. Nicolau II ficou com suspeitas dele, de que o conservadorismo modernizador, colaborando com o Parlamento, poderia levar ao fim da autocracia na Rússia. Depois de Stolipine ser assassinado, Nicolau II fechou-se ainda mais no seu pensamento autocrático e não era capaz de lidar com questões quentes como o que fazer para melhorar a situação dos camponeses.

Tinha ideia das condições de vida de um camponês? Ou idealizava-o?

Nicolau II tinha uma atitude irrealista em relação ao povo russo. Imaginava-o como alguém belo e decente. E entendia que se a Rússia se revoltava era por causa de forças negras, inspiradas pelo estrangeiro. Forças irreligiosas que nada tinham que ver com a atitude dos russos. Ele tinha uma ideia fantasista do russo médio e do país. E foi já quando estava preso na Sibéria, nos últimos meses de vida, que pela primeira vez leu Guerra e Paz. Leu perto da hora da morte coisas que deveria ter lido antes.

Que importância dá ao monge Rasputine na corte do último czar?

Penso que Rasputine tem sido demasiado culpado pelos males da monarquia. E o mesmo se pode dizer sobre Alexandra, a czarina. Quem é de culpar é Nicolau II. Não fez nada no seu reinado que não quisesse fazer. É mito que Rasputine o controlasse. Rasputine aconselhava-o, mas não queria a Rússia na I Guerra Mundial e mesmo assim ela entrou.

Como veem hoje os russos este último czar? Há uma visão romantizada?

As livrarias de Moscovo sempre tiveram uma grande secção de livros de história russa. E este ano fiquei surpreendido como as prateleiras estão cheias de obras sobre Estaline. Nicolau II vem logo a seguir. Há um interesse fenomenal em Nicolau II e quase sempre os autores destacam a tragédia pessoal, mas sem considerar que em parte foi autoinfligida. É compreensível, porque Nicolau II morreu de forma brutal, junto com a mulher, os filhos, os criados, até os seus cães num quarto na casa onde estava preso em Ecaterimburgo. Mas não se pode esquecer que este foi um homem com sangue nas mãos, que era conhecido pelos revolucionários como Nicolau, o sanguinário.

Olhando para hoje, para Putin, vê-o mais ligado ao legado de Estaline ou mais próximo desta herança czarista?

Essa é quase a mais velha das questões. Muitos comentadores dizem que Putin é um homem do KGB, um homem que pertenceu ao Partido Comunista, logo deve ser um sucessor de Estaline nas suas atitudes. E há verdade nisso...

Mas...

...Mas a Rússia é um fenómeno complicado. E para governá-la não se pode ser simplista e Putin sabe-o muito bem. A pior coisa que podia acontecer ao seu regime era o reacender da ideia de que as revoluções são boas. O que aconteceria se houvesse outra revolução? Onde estaria Putin? Putin é esperto e diz: "Não deve haver mais revoluções. Olhem para a queda do czar e como conduziu à tragédia." Assim, junta-se à santificação de Nicolau II e soma a isso a ideia popular de que a maior tragédia para a Rússia foi a destruição da União Soviética. Complicado? Sim, mas não é uma contradição, é uma mistura necessária que Putin faz, que dissemina pelos russos e que funciona. Ele é o homem mais popular do país, com taxas de aprovação de 80%. Governa há 17 anos, quase tanto como Brejnev, embora menos do que Estaline.

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