Os Tories não o quiseram para líder, mas agora Raab está no comando do Reino Unido

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, delegou no antigo advogado de 46 anos a tarefa de o substituir enquanto estiver nos cuidados intensivos. O chefe da diplomacia tem que tomar decisões ouvindo o governo.

Quando Theresa May deixou o cargo de primeira-ministra no ano passado, Dominic Raab, seu ministro do Brexit durante quatro meses, candidatou-se à sucessão. Caiu logo na segunda ronda de votação entre os deputados conservadores. Agora, menos de um ano depois e em plena crise do coronavírus, foi chamado a ficar aos comandos do Reino Unido pelo primeiro-ministro Boris Johnson, cuja luta contra o covid-19 é pessoal.

Com Johnson nos cuidados intensivos do hospital St. Thomas, o chefe da diplomacia foi chamado a substituí-lo quando necessário. Isto porque Raab também tem o cargo de primeiro secretário de Estado, sendo o número dois de um governo onde não há vice-primeiro-ministro e onde, na prática, não há nada na lei que diga quem deve assumir a liderança do país em caso de incapacidade do primeiro-ministro.

"Se eu sei algo sobre o primeiro-ministro é que ele é um lutador" e "voltará a guiar-nos nesta crise em pouco tempo", disse Raab na conferência de imprensa de terça-feira. Johnson foi hospitalizado no domingo, dez dias depois de confirmar que tinha covid-19, numa altura em que os sintomas (febre e tosse) eram persistentes. Na segunda-feira, foi transferido para os cuidados intensivos, necessitando de oxigénio.

Johnson não é o primeiro chefe de governo britânico a passar pelo hospital durante a sua estadia no número 10 de Downing Street. Winston Churchill (um dos heróis de Johnson, que escreveu uma biografia do ex-primeiro-ministro) teve um enfarte em junho de 1953, tendo a doença sido mantida em segredo (alguns ministros nunca souberam). Recuperou e voltou ao trabalho dois meses depois.

Já Tony Blair teve de ser operado em duas ocasiões ao coração, tendo aliviado a sua agenda mas voltado ao trabalho pouco depois. Na altura indicou-se que, no caso de o primeiro-ministro ficar incapacitado, seria substituído pelo seu número dois, John Prescott (que era precisamente primeiro secretário de Estado, como Raab), até que um novo líder pudesse ser eleito.

O chefe da diplomacia já fez o teste ao novo coronavírus, depois de ter tido tosse, tendo o resultado sido negativo. O Reino Unido já tem mais de 55 mil infetados e quase 6200 mortes.

Do Direito à Política

Raab, de 46 anos, cresceu em Buckinghamshire com a mãe, seguindo a religião anglicana, tendo perdido o pai, vítima de cancro, quando tinha 12 anos. O pai era judeu e tinha nascido na Checoslováquia, tendo a sua família fugido do nazismo e chegado ao Reino Unido em 1938, quando ele tinha apenas 6 anos.

Formado em Direito na Universidade de Oxford, Raab fez um mestrado em Cambridge e venceu o Prémio Clive Parry para o Direito Internacional, antes de iniciar uma carreira como advogado numa sociedade ligada às finanças. É ainda praticante de pugilismo e de karaté.

Trabalhou também para a organização de direitos humanos Liberty, em Bruxelas, sobretudo em legislação da União Europeia e da Organização Mundial do Comércio. Foi ainda jurista no Ministério dos Negócios Estrangeiros, tendo passado pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, onde atuou em processos contra criminosos de guerra.

Em 2006 entrou para a política, trabalhando com o deputado David Davis e depois com Dominic Grieve. Em 2010, foi ele próprio eleito deputado por Esher and Walton, uma circunscrição considerada de vitória fácil para os conservadores, a 40 quilómetros a sudoeste de Londres. É lá que vive com a mulher -- a brasileira Erika Rey -- e os dois filhos. No Parlamento destacou-se rapidamente, tendo ganho em 2011 o prémio de "Novato do Ano" da revista Spectator.

Nesse mesmo ano de 2011, Raab irritou a então ministra do Interior, Theresa May, ao alegar que algumas feministas eram "fanáticas detestáveis" e que os homens não estavam a receber "um tratamento justo". May acusou-o de fomentar uma "guerra de géneros", mas seria ela a dar-lhe um cargo de ministro.

A sua primeira oportunidade na linha da frente veio contudo ainda com David Cameron nas rédeas do Partido Conservador e do país, como subsecretário de Estado em maio de 2015. Durante o referendo ao Brexit, em 2016, Raab tomou, no entanto, uma posição contrária à do primeiro-ministro, defendendo a saída do Reino Unido da União Europeia.

Raab viria a ser nomeado ministro do Brexit por May, em julho de 2018 (após a saída de David Davis) tendo antes disso passado pela secretaria de Estado da Justiça e a da Habitação,. Demitiu-se contudo quatro meses depois, em desacordo com a primeira-ministra por causa do acordo de saída da União Europeia.

Corrida à sucessão de May

Quando a primeira-ministra renunciou ao cargo, por não conseguir aprovar o seu acordo de Brexit, Raab foi um dos candidatos à sua sucessão. Caiu na segunda ronda de votações, apoiando em seguida Boris Johnson, que o recompensou ao torná-lo chefe da diplomacia e primeiro secretário de Estado.

Nas eleições de dezembro, quando os conservadores tiveram uma vitória esmagadora, Raab quase perdia na sua circunscrição de Esther and Walton, ficando a apenas 2743 votos do adversário dos liberais-democratas.

Agora, o homem que os deputados conservadores não consideraram ter capacidade para chegar às rondas finais da corrida à liderança do partido e que os próprios eleitores quase afastaram do Parlamento é o homem que lidera a luta contra o coronavírus, enquanto o primeiro-ministro estiver no hospital.

O que muitos já disseram não ser tarefa fácil, num governo onde há outros nomes de peso, como Michael Gove (que chegou mais longe na corrida à liderança dos conservadores, só caindo na quinta ronda).

Na ausência de Johnson, o governo tem lembrado que as decisões se tomam de forma coletiva, entre todos os ministros. Isto porque em breve o executivo terá que avaliar se já deve ou não levantar as restrições que vigoram no Reino Unido, nomeadamente no que diz respeito ao confinamento e ao distanciamento social.

E se é verdade que é o executivo no conjunto que toma decisões, e que o governo tem indicações claras da parte de Boris Johnson sobre o caminho a seguir, a verdade é que o primeiro-ministro é considerado "primus inter pares", o que em latim significa o primeiro entre os seus pares, lembra a Reuters. A agência cita o ex-chefe da diplomacia, Malcom Rifkin, a dizer que Raab não goza dessa mesma autoridade.

Ao contrário de Boris Johnson, um comunicador nato apesar do seu estilo inusitado, Raab tem tendência a parecer nervoso e inseguro, tendo ficado famoso por um discurso quando era ministro do Brexit em que suava profusamente.O Daily Mail escreveu então: "O suado ministro do Brexit sente o calor." O que não transparece a calma necessária num momento de crise.

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