ONU está "preparada para o pior" na Síria face a retirada de apoio dos EUA a curdos

As forças de segurança norte-americanas começaram este domingo a retirar-se de áreas ao longo da fronteira turca no norte da Síria, na iminência de uma ofensiva turca, de acordo com fontes curdas e uma organização não-governamental (ONG).

A ONU admitiu esta segunda-feira que "está preparada para o pior" no norte da Síria, depois de os Estados Unidos terem anunciado que não se irão opor a uma ofensiva turca contra as milícias curdas.

"Não sabemos o que se vai passar (...). Estamos preparados para o pior", afirmou o coordenador da operação humanitária da ONU na Síria, Panos Moumtzis, numa conferência de imprensa realizada em Genebra, na Suíça.

Segundo acrescentou, a ONU está "em contacto com todas as partes" no terreno, mas não foi informada da decisão de Washington de "abandonar os seus antigos aliados" curdos na luta contra os jihadistas do Estado Islâmico na Síria.

Panos Moumtzis adiantou que, neste momento, as prioridades da ONU são assegurar que uma ofensiva turca não provoca nova onda de refugiados e que o acesso humanitário não seja impedido na região.

A ONU tem um plano de contingência para responder ao novo sofrimento civil, mas "espera que não tenha de ser usado", avançou Moumtzis.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse esta segunda-feira que uma ofensiva turca pode ser lançada a qualquer momento no nordeste da Síria para, segundo explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros, "limpar" a região de "terroristas" que ameaçam a sua segurança.

A retirada das forças norte-americanas de posições-chave em Ras al-Ain e Tal Abyad já foi confirmada pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

O porta-voz da presidência turca, Ibrahim Kalin, escreveu, na rede social Twitter, que "a Turquia vai continuar a lutar contra o Daesh" (sigla em árabe do grupo autoproclamado Estado Islâmico) e prometeu não deixar este grupo renascer "de uma forma ou de outra".

Estados Unidos retiram-se do norte da Síria

Estas declarações surgem após o anúncio dos Estados Unidos, no domingo, de que não se envolveriam nesta operação de Ancara contra as milícias curdas e de que as suas tropas seriam retiradas de certas zonas na Síria para permitir a operação turca.

O objetivo da operação é eliminar a principal milícia curdo-síria, as Unidades de Proteção do Povo (YPG), e o seu braço político, o Partido da União Democrática (PYD) no território sírio a leste do rio Eufrates.

Devido à sua relação com o Partido Trabalhista do Curdistão (PKK), a guerrilha curda ativa na Turquia, Ancara considera terroristas tanto as YPG como o PYD.

Enquanto o PKK é classificado como organização terrorista, não apenas por Ancara, mas também pelos Estados Unidos e pela União Europeia, os dois últimos não consideram terroristas nem as YPG nem o PYD.

Pelo contrário, as milícias curdas foram aliadas dos Estados Unidos na luta contra o grupo jihadista Estado Islâmico.

A Turquia tem pressionado os Estados Unidos para criarem uma zona de segurança na Síria, uma faixa de 30 quilómetros ao longo da fronteira, onde planeia reinstalar refugiados sírios.

Desde 2016, a Turquia conduziu duas grandes operações militares no noroeste da Síria para limpar a região do Estado Islâmico e das YPG.

Ancara afirma que a presença das YPG e do PYD no leste do Eufrates é uma ameaça à sua segurança nacional e tem acusado os Estados Unidos de os armar e treinar.

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