Forças dos EUA retiram-se do norte da Síria em apoio a operação turca contra milícias curdas

As forças de segurança norte-americanas começaram este domingo a retirar-se de áreas ao longo da fronteira turca no norte da Síria, na iminência de uma ofensiva turca, de acordo com fontes curdas e uma organização não-governamental (ONG).

As Forças Democráticas da Síria (SDF), uma aliança de combatentes curdos e árabes e um dos principais aliados dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico (EI), informaram num comunicado que "as forças norte-americanas estão a retirar-se das áreas de fronteira com a Turquia".

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) confirmou a retirada das forças norte-americanas de posições-chave em Ras al-Ain e Tal Abyad.

Por outro lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlüt Cavusoglu, declarou hoje que a Turquia está determinada a "limpar" o norte da Síria de "terroristas" que ameaçam a sua segurança.

Estas declarações surgem após o anúncio dos Estados Unidos, no domingo, de que não se envolveriam e nem apoiariam esta operação de Ancara contra as milícias curdas e de que as suas tropas seriam retiradas de certas zonas na Síria para permitir a operação turca.

"Desde o início da guerra na Síria, apoiamos a integridade territorial da Síria e continuaremos a fazê-lo", declarou o ministro turco.

"Estamos determinados a proteger a nossa (...) segurança ao limpar esta área de terroristas", afirmou Mevlüt Cavusoglu.

O objetivo da operação é eliminar a principal milícia curdo-síria, Unidades de Proteção do Povo (YPG), e o seu braço político, o Partido da União Democrática (PYD) no território sírio a leste do rio Eufrates.

Devido à sua relação com o Partido Trabalhista do Curdistão (PKK), a guerrilha curda ativa na Turquia, Ancara considera terroristas tanto as YPG como o PYD.

Enquanto o PKK é classificado como organização terrorista, não apenas por Ancara, mas também pelos Estados Unidos e pela União Europeia, os dois últimos não consideram terroristas nem as YPG nem o PYD.

Pelo contrário, as milícias curdas são aliadas dos Estados Unidos na luta contra o grupo 'jihadista' Estado Islâmico.

A Turquia vem pressionando os Estados Unidos para criarem uma zona de segurança na Síria, uma faixa de 30 quilómetros ao longo da fronteira, onde planeia reinstalar refugiados sírios.

Desde 2016, a Turquia conduziu duas grandes operações militares no noroeste da Síria para limpar a região do Estado Islâmico e das YPG, de modo que a concretizar-se esta operação será a terceira.

Ancara afirma que a presença das YPG e do PYD no leste do Eufrates é uma ameaça à sua segurança nacional e acusa os Estados Unidos de os armar e treinar.

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