Comandantes dos EUA recomendam deixar armas aos curdos

A decisão de Donald Trump em retirar da Síria deixou os curdos alarmados com a possível invasão turca, a ponto de pedirem a intervenção de Damasco. Enquanto russos e turcos discutem o xadrez, militares norte-americanos propõem deixar armamento aos curdos.

Os comandantes que planeiam a retirada das tropas dos Estados Unidos da Síria estão a recomendar que os combatentes curdos que lutam contra o Estado Islâmico sejam autorizados a manter armas fornecidas pelos EUA, disseram quatro oficiais à Reuters. Caso seja aprovada, esta medida iria ser recebida com protestos por parte da Turquia.

Três dos oficiais disseram que as recomendações fazem parte das discussões sobre um plano pelo exército dos EUA, embora não se saiba o que o Pentágono acabará por recomendar à Casa Branca. As discussões ainda estão numa fase inicial no Pentágono e ainda não foi tomada qualquer decisão, porém há indicações de que o plano será apresentado ao presidente Donald Trump nos próximos dias, o qual tomará a decisão final.

"O planeamento está em curso e focado na execução de uma retirada deliberada e controlada das forças, tomando todas as medidas possíveis para garantir a segurança das nossas tropas", disse o comandante Sean Robertson, porta-voz do Pentágono.

Na semana passada, Trump ordenou a retirada total das tropas dos EUA da Síria, o que levou à demissão do secretário de Defesa Jim Mattis e a críticas internas. O presidente russo, Vladimir Putin, elogiou a decisão.

A decisão de Trump é vista como uma traição à milícia curda YPG, que liderou a luta contra o Estado Islâmico no nordeste da Síria.
Só que a Turquia não vê com bons olhos o YPG. Ancara mobilizou tropas para a fronteira, junto a Manbij e ameaça lançar uma ofensiva contra o YPG, suscitando receios de um novo foco de guerra que poderia atingir centenas de milhares de civis, entre curdos, cristãos e outras minorias.

Os Estados Unidos disseram ao YPG que seriam armados por Washington até que a luta contra o Estado Islâmico fosse concluída, disse uma das autoridades americanas. "A luta ainda não acabou. Não podemos simplesmente começar a pedir as armas de volta", disse o oficial.
A proposta de deixar as armas fornecidas pelos EUA com o YPG, que poderia incluir mísseis anti-tanque, veículos blindados e morteiros, tranquilizaria os aliados curdos.

Mas a Turquia quer que os Estados Unidos levem as armas de volta, por isso a recomendação dos comandantes, se confirmada, pode complicar o plano de Trump em permitir que a Turquia entre na Síria.

O debate sobre as armas coincide com a visita do conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton, à Turquia e Israel, na próxima semana, para conversações sobre a Síria.

Em maio de 2017, os Estados Unidos começaram a distribuir armas e equipamentos para o YPG para uma ofensiva contra Raqqa, a cidade mais importante do autodeclarado Estado Islâmico. A Turquia disse que as armas fornecidas ao YPG no passado acabaram nas mãos de seus separatistas curdos, e alega que qualquer arma dada aos curdos é uma ameaça à segurança da Turquia.

Um telefonema entre Trump e Recep Tayyip Erdogan levou à decisão de retirar todas as forças dos EUA da Síria. Na chamada esperava-se que Trump enviasse um aviso ao presidente turco sobre seu plano de lançar um ataque transfronteiriço contra as forças curdas apoiadas pelos EUA no nordeste da Síria. Em vez disso, Trump abandonou um aliado e um quarto do território sírio, entregando-o à Turquia, com o álibi de exterminar com as bolsas do Estado Islâmico na Síria.

Exército de Assad regressa a pedido dos curdos

Russos e turcos reuniram funcionários de topo da diplomacia, defesa e serviços secretos, em Moscovo, com o objetivo de"coordenar" as ações no terreno na Síria no contexto da retirada norte-americana.

Ameaçados pela Turquia, os curdos apelaram ao exército de Bashar al-Assad, que entrou na região de Manbij na sexta-feira, em resposta. É a primeira vez em seis anos que as forças sírias regressam a Manbij.

A Turquia denunciou o destacamento destas tropas, com o argumento que as forças curdas não tinham "direito" de invocá-las. O Kremlin, por seu lado, considerou-o "positivo" na sexta-feira, considerando que o avanço das tropas de Damasco contribuiu para uma "estabilização da situação". Este avanço do regime provocou a ira de Ancara e foi neste contexto que a delegação turca se deslocou à capital russa.

"Concordámos que os representantes militares russos e turcos no terreno continuarão a coordenar as suas acções neste novo contexto com o objectivo de erradicar a ameaça terrorista na Síria", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov.

"Temos um desejo comum de limpar o território sírio de qualquer organização terrorista", disse por sua vez. o homólogo turco, Mevlüt Cavusoglu, A Turquia considera o YPG uma organização terrorista.

Partido holandês quer enviar tropas

A União Cristã, partido que faz parte da coligação do governo holandês, defende a formação de uma "coligação de vontades", que inclua o envio de tropas holandesas para o terreno, com o objetivo de evitar a invasão turca.

"Segundo Trump, a Turquia pode assumir a luta contra o Estado Islâmico. Mas isso é uma ilusão, já que a Turquia era a base para o EI", disse o deputado Joel Voordewind ao jornal Trouw. "Se os curdos tiverem de usar todo o seu poder militar para lutar contra uma invasão turca", advertiu o deputado, "os remanescentes do EI podem reagrupar-se".

A ideia é vista com ceticismo pelos restantes partidos governamentais, mas tem o apoio do SGP, Partido Político Reformado, na oposição. "Apoio a intenção de ajudar a área curda. Também porque muitos cristãos vivem lá, sinto uma responsabilidade extra", disse o deputado Chris Stoffer ao mesmo jornal.

Calcula-se que vivam mais de 100 mil curdos no nordeste da Síria.

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