O violoncelista e melhor amigo de Putin que o ajudou a esconder a fortuna

A gigante fuga de informação dos chamados Papéis do Panamá permitiu descobrir uma rede de contas offshore que levava ao presidente russo

Sergei Roldugin é o melhor amigo do presidente russo, Vladimir Putin. Os dois conhecem-se desde os anos 1970 e Roldugin, violoncelista e reitor do Conservatório de São Petersburgo, é mesmo padrinho de uma das filhas de Putin, Maria. Mas o perfil discreto e humilde de Roldugin foi abalado este domingo com a revelação de informação contida em milhares de documentos, conhecidos agora como os Panama Papers, que liga Roldugin a uma rede de contas offshore e empresas alegadamente fictícias que serviria, segundo o jornal britânico The Guardian, para esconder uma fortuna de mais de dois mil milhões de dólares pertencentes a Putin.

Como escreve o The Guardian, enquanto outros membros do círculo de amigos próximos de Putin enriqueciam, o violoncelista Roldugin mantinha-se modesto e garantia que não era nenhum empresário nem tinha fortunas. Os Papéis do Panamá, documentos pirateados de uma firma de advogados panamiana especializada na criação de empresas (muitas alegadamente fictícias) em paraísos fiscais, vêm agora ligar Roldugin a vários investimentos milionários, incluindo na agência publicitária russa Video International, e a pelo menos cinco empresas offshore. E um estudo atento das movimentações de fundos entre estas e outras contas e empresas criadas pela firma de advogados panamiana Mossack Fonseca levou os jornalistas ligados ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação até Vladimir Putin.

Bancos ligados a Putin faziam empréstimos a empresas offshore

As cinco empresas offshore ligadas a Roldugin eram todas geridas por uma empresa de advogados suíços, empresa essa que agia em nome do Banco Rossiya. Esse banco russo, fundado em 1990, esteve ligado a Putin desde a sua criação, tendo mesmo financiado um documentário lisonjeador acerca da vida de Putin em 1992. Além disso, um amigo de Putin, Yuri Kovalchuk, é o maior acionista desse banco, e o próprio Roldugin, que sempre se autorrepresentou como um modesto violoncelista, já deteve 3,9% das ações deste banco.

Outro banco ligado ao caso é o Banco Comercial Russo, no Chipre, que é subsidiário do banco estatal russo VTB, e que foi descrito por uma fonte citada pelo Guardian como um banco que serve de "bolso privado" para os políticos no poder, especialmente para Vladimir Putin.

Os Papéis do Panamá permitiram aos jornalistas descobrir registos de empréstimos feitos pelo Banco Comercial Russo às empresas offshore ligadas ao amigo de Putin, Roldugin e ao Banco Rossiya, controlado pelo amigo de Putin, Kovalchuk. Alguns dos empréstimos eram de tal forma suspeitos que mesmo a Mossack Fonseca ficava nervosa - um e-mail citado pelo Guardian e assinado pelo cofundador da firma, Jürgen Mossack, descreve a situação como "delicada" e acaba por pedir satisfações ao Banco Comercial Russo.

As empresas offshore ligadas a Roldugin e ao Banco Rossiya recebiam empréstimos do Banco Comercial Russo e emprestavam esse dinheiro a juros mais altos a outras empresas offshore, permitindo a lavagem do dinheiro. Um caso flagrante identificado no estudo dos Papéis do Panamá mostra como uma empresa offshore chamada Sandalwood recebeu um empréstimo do Banco Comercial Russo a 4% de juros, o emprestou a outra offshore a 5% de juros, e essa offshore emprestou-o a uma empresa pertencente à Gazprom, que gere a produção energética na Rússia, a 8,4% de juros. Cada empresa lucrava o suficiente com os empréstimos sucessivos para pagar o que devia e ainda ficar com milhões.

Próximos de Putin enriqueciam e beneficiavam-no

O nome de Putin não aparece em nenhum dos documentos da Mossack Fonseca, mas o rasto do dinheiro investido e emprestado acaba por levar sempre ao seu círculo próximo de amigos, sendo mesmo investido por eles para o beneficiar e aos seus interesses. É o caso, por exemplo, de milhões de dólares emprestados pela Sandalwood a uma outra empresa offshore que pertence a Kovalchuk e que detém uma estância de esqui onde, poucos meses depois do empréstimo, uma das filhas de Putin festejava o seu casamento.

As empresas offshore também emprestavam dinheiro diretamente aos amigos de Putin, com taxas de juro absurdamente baixas de até 1%, e sem muita segurança. O Guardian sublinha que não existem provas de que estes empréstimos tenham sido pagos de volta a essas empresas.

Questionado pelos jornalistas ligados ao Consórcio Internacional dos Jornalistas de Investigação, o violoncelista Roldugin não quis pronunciar-se sobre a sua ligação às empresas offshore. Os jornalistas sugerem mesmo que o próprio possa nem saber de todas as operações que se realizam sob o seu nome. "Não estou preparado para comentar", afirmou. "São questões delicadas".

Kremlin fala em "Putinofobia" por detrás das acusações contra Putin

A presidência russa afirmou hoje que a investigação jornalística que visa Putin assenta em invenções e falsificações e visa desestabilizar a Rússia. "Embora o presidente Putin não figure de facto [na investigação], é claro que o alvo principal é Putin, a Rússia, o nosso país, a nossa estabilidade e as próximas eleições. Trata-se de desestabilizar o país", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

O porta-voz afirmou que não há "nada de concreto ou de novo" sobre o presidente russo, Vladimir Putin, atribuindo as referências ao seu nome como consequência de uma "Putinofobia": "O nível de Putinofobia chegou a um nível tal que é impossível dizer qualquer coisa positiva sobre a Rússia 'a priori'", disse.

Peskov disse ainda que a investigação foi realizada por ex-membros da CIA ou do Departamento de Estado norte-americano: "Conhecemos esta denominada comunidade jornalística", disse, referindo-se ao Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação, que divulgou os Papéis do Panamá. "Há muitos jornalistas cuja profissão principal é improvável que seja o jornalismo, muitos antigos membros do Departamento de Estado, da CIA e de outros serviços especiais".

Com Lusa

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