O trauma ajudará Itália a travar a segunda vaga?

Enquanto países como França, Espanha e Reino Unido lidam com o aumento das infeções por covid-19, o país europeu mais massacrado no início da pandemia vai conseguindo suster a curva

Se dúvidas houvesse que a Itália está empenhada em regressar à normalidade depois de ter sido o país europeu mais massacrado pela covid-19, o regresso às aulas, ao trabalho, o comércio e até a realização de eleições regionais e um referendo (este domingo e segunda-feira) provam que o país quer ultrapassar o trauma do início da pandemia. Conseguirão os italianos travar uma segunda vaga do novo coronavírus, quando outros estados europeus como a Espanha, a França e o Reino Unido assistem a um novo crescimento da curva de novos casos e mortes? Conseguirão os italianos manter os números das últimas semanas, quando os outros países já estão a implementar novas restrições depois da abertura?

As imagens dramáticas de filas de camiões do Exército que carregavam caixões em Bergamo - uma das regiões mais atingidas pela covid - chocaram o mundo. Ninguém quer voltar a vê-las, muito menos os italianos. Será que o país aprendeu com os erros? Os números que chegam de Itália apontam para uma média de menos de dois mil casos diários - neste domingo foram 1587 e 15 mortes. A Espanha e a França estão a registar mais de uma dezena de milhar por dia.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou para uma segunda vaga "preocupante" e os números estão a mostrar isso mesmo. Segundo o diretor regional da OMS para a Europa, o número de novos casos dobrou em mais da metade dos Estados-membros. "Temos uma situação muito séria diante de nós", afirmou Hans Kluge.

Em Portugal registaram-se nas últimas 24 horas 552 novas infeções e 13 vítimas mortais, mas o Presidente da República e o primeiro-ministro alertaram que pode chegar aos mil diários.

Perante o que se passa na Europa, a Itália parece estar, senão a travar, pelo menos a adiar a tão temida segunda vaga. "Na Itália, não voltámos aos níveis de contágio de março como em outros países europeus, mas temos que ter cuidado e não baixar a guarda", disse Walter Ricciardi, um dos especialistas do Ministério da Saúde, citado pelo Telegraph.

O distanciamento social, máscaras e grupos de controlo têm sido fundamentais, bem como o incentivo às vacinas contra a gripe e o uso da aplicação de rastreamento de contactos, que em Itália se chama "Immuni", sustentou.

Nas últimas duas semanas, a Itália ocupou o 14ª lugar na lista dos países da União Europeia em casos por 100 mil habitantes, enquanto a Espanha e a França estão no topo da tabela - de acordo com o Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças.

Quarentena de 14 dias e testes alargados

O que pode explicar a evolução da curva italiana? O comportamento dos próprios italianos, um povo que gosta de questionar antes de obedecer? O medo que o cenário vivido entre março e maio se repita? Do ponto de vista das medidas sanitárias, Itália manteve a quarentena de 14 dias - há países que a encurtaram para sete e para 10 dias. Portugal é um dos países que está a estudar a diminuição do isolamento de 14 para dez dias - uma das razões avançadas pelos especialistas é que já se sabe que o período médio de incubação do vírus é de 5/6 dias.

Mas sobretudo Itália aprendeu com a tragédia e aplica a sabedoria adquirida, nomeadamente na realização dos testes. "Hoje, a estratégia de vigilância ativa que adotamos em Veneto está a ser usada em todo o país. Cada vez que temos um caso positivo, mesmo assintomático, testamos todos que fazem parte das várias redes familiares, sociais e de trabalho dessa pessoa", explicou Andrea Crisanti, parasitologista molecular do Imperial College destacado para a Universidade de Pádua, ao Telegraph.

Apesar do rombo brutal na economia que a ausência massiva de turistas representou, o governo italiano foi mais cauteloso na abertura de fronteiras. No início de julho, apesar da recomendação do Conselho Europeu para que se abrisse as fronteiras a 15 países, a Itália preferiu manter restrições aos viajantes provenientes de países que não integram a União Europeia.

A seguir à China - o vírus surgiu no final de dezembro na província de Wuhan - a Itália foi o segundo país do mundo a sofrer fortemente as agruras trazidas pelo novo coronavírus. No início da pandemia não só foi o país europeu a registar mais mortes - agora é o Reino Unido com mais de 41 mil - como foi o primeiro a decidir isolar completamente cidades e a fechar os seus cidadãos em casa como forma de combater a propagação do vírus.

27 de março, o dia mais negro

As imagens que vinham do país eram chocantes: reportagens mostravam o desespero dos profissionais de saúde perante uma pandemia que fez colapsar o sistema; reportagens mostraram a coluna camiões que transportavam caixões com as vítimas do vírus que apanhou desprevenida a comunidade científica.

A 27 de março, os italianos choraram a morte de quase mil entes queridos. O dia seguinte foi igualmente negro, mas os óbitos desceram de 969 para 887 e mantiveram-se acima, ou próximos, dos 700 até 4 de abril. A 28 de maio, depois dos números trágicos dos últimos meses, pela primeira vez desde 10 de março (dia do confinamento total do país), registam-se menos de cem vítimas mortais. Os números estão longe destas cifras e têm vindo a descer - este domingo houve 15 mortes a lamentar, mas no sábado foram 35.

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