"O PSDB não tem interesse em entrar de carona num governo"

Entrevista a Aécio Neves, presidente do Partido da Social Democracia Brasileira

Defende que por muito traumático que o processo de impeachment possa ser, o trauma maior será manter a presidente Dilma Rousseff no poder. Porquê?

Porque o Brasil paralisou. O Brasil está num processo agudo de crescimento do desemprego. Nos últimos 12 meses tivemos 1,7 milhões de desempregados a mais, ultrapassámos os dez milhões. É praticamente a população de Portugal desempregada. Hoje ninguém investe no Brasil, nem os brasileiros nem os estrangeiros por causa deste impasse político. A nossa dívida pública avança de forma vertiginosa, os nossos indicadores económicos, na área da inflação, por exemplo, são muito graves. E não há, com a presidente Dilma, perspetiva de que isso se estanque. Se houvesse, talvez fosse o melhor caminho. Ela perdeu as condições de liderar o Brasil na saída da crise. Por isso eu digo, mesmo que traumático, o impeachment, que está previsto na Constituição, pode permitir a redução de tensões nas relações no Brasil para que a gente possa contribuir.

De que forma?

Eu não defendo que o PSDB participe de um governo de transição com cargos, porque eu renego essa lógica de distribuição de nacos de poder como faz o PT, de entregar empresas públicas e ministérios para agentes políticos. Acho que nesse momento o Brasil está preparado para um governo de notáveis, formado pelas melhores figuras do país. O PSDB tem uma agenda discutida com a sociedade brasileira e está disposto a dar o seu apoio e usar da sua credibilidade junto da sociedade para implementá-la. Mas sem participar ativamente no governo. Vamos disputar o poder pelo voto. O PSDB tem um projeto para o Brasil e em 2018 vamos apresentá-lo.

Eu renego essa lógica de distribuição de nacos de poder como faz o PT

Acha que Michel Temer pode liderar esse governo de notáveis?

É o que diz a Constituição. O vice-presidente assume a presidência se o lugar ficar vago. Ele certamente terá dificuldades. Mas vejo que tem as mínimas condições para levar para um futuro diferente. Acho que, simplesmente com a expectativa de um novo governo, poderá já haver uma redução das taxas de juro de médio e longo prazo. O PSDB não tem interesse em entrar de carona num governo. Temos um projeto, que quase foi vitorioso na última eleição, e vamos renovar o nosso projeto para 2018. Mas também não vamos ajudar a tirar a presidente e virar as costas para o país.

Como assim?

Este é o momento de uma agenda de transição, de uma reforma política que possibilite, por exemplo, reduzir o número de partidos. Defendemos a necessidade de discutir a partir da eleição do próximo presidente, em 2018, a implementação do parlamentarismo no Brasil, que poderia ser votado no Congresso e submetido depois a um referendo. Não acredito em nenhuma mudança estrutural na política imediata, tem de haver uma período de carência. Por isso acho que a discussão do parlamentarismo deve-se dar a partir de 2018 comandada, se for eleito um presidente do PSDB, por esse presidente para o mandato imediatamente seguinte.

Em relação à Lava-Jato e à corrupção, estamos a falar de um problema que abarca todos os partidos. É também uma crise de política...

É verdade. Há uma crise no financiamento da política que precisa ser enfrentada. Em primeiro lugar, ao contrário do PT, que se defende da Lava-Jato atacando as instituições, a justiça, os juízes, a polícia federal, nós defendemos investigações em profundidade. Todas as citações que existem, e foram feitas várias à oposição, incluindo a mim próprio, são feitas por pessoas do PT que, obviamente, querem transformar isso num jogo político. Nenhuma garantia maior do que o aprofundamento das investigações vai separar o trigo do joio, mostrar o que é real do que não é real.

E a questão do ex-presidente Lula, ora é ministro ora não é...

É um impasse que precisará ser enfrentado. Mas uma coisa está ficando clara no Brasil: ninguém está acima da lei. Todos têm de prestar contas à lei, responder, o que a presidente não tem feito, às acusações que lhes são feitas. Qualquer homem ou mulher pública tem essa responsabilidade. E não é diferente para o presidente Lula. O que não é bom é que ele responda atacando, desafiando as instituições e radicalizando o discurso. Quando eles se fragilizam muito eles partem para a divisão do Brasil entre nós e eles, como se houvesse uma elite de um lado e os pobres que eles defendem do outro. Mas a verdade nua e crua é que são os mais pobres que hoje pagam o preço do desemprego, da inflação, do endividamento e da falta de perspetivas. Eu acho que no final de tudo isto vamos ter um Brasil melhor, mais consistente do ponto de vista da democracia e em melhores condições para enfrentar as desigualdades sociais.

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