Espanha regista mais 769 mortes em 24 horas. Milhares de infetados podem estar fora da estatística

Casos muito prováveis da doença não vão ser testados e, por isso, não vão fazer parte da estatística oficial. Cientistas espanhóis dizem que não haverá perto de 65 mil infetados no país (números desta sexta-feira), mas cerca de meio milhão.

Espanha tem quase 65 mil infetados com covid-19 e Madrid, que representa mais de trinta por cento dos casos confirmados da doença, vai mudar a forma de confirmação de casos positivos. Os espanhóis vão perder menos tempo com testes e gastar menos recursos, mas os números vão deixar de refletir a realidade, escreve o El País esta sexta-feira.

O último balanço oficial - desta sexta-feira de manhã - aponta para um total de 4.858 mortes por covid-19 no país. Espanha teve mais 769 novas mortes causadas pelo novo coronavírus e o total de casos confirmados sobe para 64.059, com mais 7871 novas infeções registadas.

O número total de casos recuperados já ascende, no entanto, a 9.357. Nos cuidados intensivos estão internadas 4.165 pessoas, informam as autoridades de saúde espanholas.

Em Madrid, pacientes com "sintomas muito típicos", como a a pneumonia bilateral, a consequência mais grave da doença, não vão ser testados e, por isso, não vão entrar nas estatísticas, uma vez que estas só refletem os casos que acusaram positivo no teste.

O diagnóstico será feito por "critérios clínicos e radiológicos" e todos estes serão considerados "um caso possível".

A nota do Ministério da Saúde espanhol, a que o El País teve acesso, confirma que está a ser solicitado às unidades de saúde apenas os casos confirmados com testes, mas a circular pede que sejam registados os possíveis casos, ou seja, aqueles que provavelmente estarão infetados, mas que não foram testados.

"Gostaríamos de poder colocá-los como um caso possível para não distorcer as estatísticas, mas não temos essa opção na aplicação. Estamos a avaliar se devemos confirmar o diagnóstico clínico ", disse uma fonte médica ao jornal.

"Vai parecer que os números estão a estabilizar ou a cair, e isso não será assim"

Outra fonte do Ministério da Saúde garante que este método irá "subestimar os números". Na falta de teste a casos aparentemente óbvios, "os números ficarão estagnados e o número de casos possíveis aumentará. Embora sejam principalmente casos de coronavírus, não contarão oficialmente como tal. Vai parecer que os números estão a estabilizar ou a cair, e isso não será assim ", referiu.

Esta nova diretiva pode estar relacionada com a falta de capacidade dos laboratórios que processam a reação de PCR (os testes mais fiáveis) e que exigem várias horas para detetar a presença do vírus, considera o especialista do comité técnico que lida com a crise da covid-19 em Espanha.

O mesmo aconteceu na China durante a epidemia. Houve uma altura em que os critérios para se considerar um paciente como positivo para covid-19 também mudaram. Quem acusava na TAC a doença, e apesar de estar à espera da confirmação pelo teste de sangue, entrava na estatística oficial como caso positivo. Foi um boom de "novos" casos da noite para o dia.

A circular do Ministério da Saúde diz isso mesmo: os critérios podem ser alterados a qualquer momento. A decisão atual foi tomada tendo em conta "a evolução dos casos" em Madrid e "o conhecimento sobre o coronavírus ", o que significa que existem padrões que podem ser "claramente identificados durante a avaliação nos serviços de emergência ", como a pneumonia bilateral.

Assim, "pacientes sem critérios de admissão ou atendimento hospitalar de urgência podem receber alta para acompanhamento e isolamento em casa ou em hotel médico, dependendo de suas condições" e também "serão considerados como um caso possível", escreve o El País.

O teste PCR - considerado o mais fiável - será realizado em doentes com sintomas de pneumonia atípica, mas cujos padrões não coincidem inicialmente com os do Covid-19; em doentes imunodeprimidos, em pacientes oncológicos com infeções respiratórias, em doentes internados em hospitais em alas onde não não há casos da doença, em grávidas e profissionais de saúde.

Quando o pico da doença passar, alerta o especialista ouvido pelo El País, o ideal será fazer testes em grande escala para avaliar a imunidade da população ao novo coronavírus. O mesmo disse a diretora-geral da saúde portuguesa, Graça Freitas, na quinta-feira.

"Os dados estão errados. Não são 56.188, mas perto de meio milhão"

Javier Sampedro, investigador em genética e biologia molecular, e jornalista de ciência no El País, olhou para os últimos números oficiais (de quinta-feira) e declarou, num título que alarma, e faz depois refletir: "Os dados estão errados. Não são 56.188, mas perto de meio milhão", escreve Sampedro, esta sexta-feira, no diário espanhol.

No seu artigo, o jornalista diz que "a análise matemática, para servir qualquer propósito, deve ser alimentada com dados confiáveis", e explica que Espanha não os tem. Fez as contas: se o país tinha, na quinta-feira, 4.145 mortos e 56.188 infetados, então a doença, em Espanha, teria uma taxa de mortalidade de 7%, "o que é uma taxa absurda", afirma.

"A letalidade deste coronavírus é inferior a 2%, provavelmente mais próxima de 1%", esclarece - o mesmo disse a portuguesa Graça Freitas, a letalidade do vírus, em Portugal, é de pouco mais de um por cento.

O que pode explicar esta divergência na taxa de mortalidade são os números poderem estar errados.

"O coronavírus não mata tanto quanto pensamos, mas espalha-se muito mais do que dizemos. Os números oficiais são enganadores", sublinha o jornalista, citando Antonio Durán Guardeño, professor de Análise Matemática da Universidade de Sevilha, que tem trabalhado com as estimativas da covid-19. Os dados do matemático estão desde segunda-feira expressos no seu blogue.

O que as técnicas estatísticas "mais apropriadas" dizem é que o número de infetados em Espanha não são os 56.188 oficiais (esta sexta-feira foram atualizados e são 64.059), mas sim meio milhão, lê-se no artigo.

Na terça-feira, a Andaluzia deixou de registar os contágios e mortes por faixa etária, lembra o jornalista. São os resultados por faixa etária que têm o maior valor estatístico para calcular o número total de infetados, é explicado. Madrid também não fornece dados sobre faixas etárias. E esses dados também não estão a ser veiculados pelo Ministério da Saúde espanhol.

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