Cerco ao Vaticano: número 3 condenado por abuso sexual, número 2 suspeito de encobrimento

O cardeal australiano George Pell, terceira figura do Vaticano, foi condenado, em segredo, por abuso sexual. Também o número dois é suspeito de encobrimento, mas o Vaticano invocou imunidade diplomática para o furtar ao testemunho no julgamento de um cardeal francês.

Acusado de molestar sexualmente dois rapazes na Austrália, o cardeal George Pell, a terceira figura do governo do Vaticano, foi condenado por todos os crimes de que era suspeito, praticados no final da década de 90, noticia esta quinta-feira o The Washington Post.

Pell, 77 anos, é o mais importante membro da hierarquia da Igreja Católica a ser julgado -- e condenado -- por este tipo de crime.

Esta notícia surge um dia depois de ter sido anunciado que o Papa Francisco afastou do Conselho de Cardeais, o chamado C9, nomeado em 2013 para o ajudar a reformar a Cúria, dois cardeais envolvidos em escândalos de abusos sexuais; um deles precisamente George Pell, que tinha a pasta da economia do Vaticano (criada em 2014) e estava com "uma licença" concedida pelo pontífice desde o verão de 2017, quando foi conhecida a acusação.

O outro cardeal afastado é Francisco Javier Errázuriz, 85 anos, acusado por vítimas de abusos sexuais cometidos por membros da igreja Católica chilena de as desacreditar e de não investigar os casos denunciados. Recorde-se que a Igreja Católica chilena está a ser alvo de uma investigação judicial que implicou, em agosto, rusgas na Conferência Episcopal e noutras instituições católicas e que o papa, após visitar o país no início do ano e ser confrontado com a indignação e revolta dos chilenos, chamou todos os 34 bispos do país a Roma, tendo-os acusado, de acordo com o que transpirou nos media, de se terem abstido de investigar abusos reportados e destruído provas. Os bispos apresentaram a demissão em bloco, mas só cinco das resignações foram aceites.

Numa carta encontrada pelas autoridades francesas, o atual número dois do Vaticano dizia ao cardeal Barbarin, que vai ser julgado em janeiro por encobrimento, para agir disciplinarmente contra um padre acusado de abuso sexual mas "evitar escândalo público".

Também o número dois do Vaticano, o cardeal espanhol Francisco Ladaria Ferrer, de 74 anos, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé desde 2017, está envolvido em suspeitas relacionadas com encobrimento de abuso sexual. Ferrer, que como prefeito da CDF dirige as investigações no Vaticano sobre abuso sexual (o papa João Paulo II entregou essa matéria ao CDF quando este era dirigido pelo cardeal Ratzinger, que viria a suceder-lhe como Bento XVI), deveria ser inquirido no processo do cardeal francês Philippe Barbarin, cujo julgamento por encobrimento decorrerá em janeiro de 2019.

Mas o Vaticano fez saber no final de outubro que Ferrer não comparecerá perante o tribunal de Lyon, invocando a imunidade diplomática do cardeal. Em causa no testemunho de Ferrer estaria uma carta para Barbarin por ele assinada, encontrada pela polícia aquando das buscas relacionadas com o caso, e na qual o prefeito da CDF diz ao bispo para agir disciplinarmente contra um padre acusado de vários abusos sexuais entre 1986 e 1991 mas "evitar escândalo público". Os advogados das vítimas queriam saber se essa ordem implicava evitar reportar o caso às autoridades.

Condenação era segredo

O facto de o anúncio do afastamento de Pell do Conselho de Cardeais -- sobre a manutenção do título nada foi dito até agora -- ter precedido o da sua condenação prende-se com a proibição, decretada pelo tribunal, de notícias sobre o caso. Estará em causa na proibição o facto de Pell ter outro julgamento marcado, em 2019, por acusações semelhantes. "Censurado", lê-se em letras maiúsculas na capa do tabloide australiano Herald Sun. "O mundo está a ler uma notícia muito importante para os naturais de Victoria. O Herald Sun está impedido de publicar detalhes desta notícia importante. Mas, confiem em nós, é uma notícia que merecem ler".

Enquanto arcebispo de Melbourne, entre 1996 e 2001, Pell criou "A Resposta de Melbourne", um protolo diocesano para investigar e lidar com casos de abuso sexual na arquidiocese, primeiro do género no mundo. Aquando da investigação nacional sobre abuso sexual que decorreu entre 2013 e 2017, e cujo relatório revela que, entre 1950 e 2010, 7% dos sacerdotes da IC foram acusados de abuso sexual, Pell foi ouvido três vezes sobre a Resposta de Melbourne, tendo sido também chamado a testemunhar numa investigação do governo do Estado de Victoria. Nas audições, Pell condenou o falhanço da Igreja Católica na investigação e combate aos abusos mas defendeu a sua ação enquanto arcebispo.

Enquanto arcebispo de Melbourne, entre 1996 e 2001, Pell criou "A Resposta de Melbourne", um protolo diocesano para investigar e lidar com casos de abuso sexual na arquidiocese, primeiro do género no mundo.

Outro alto prelado australiano, o arcebispo Phillip Wilson, tinha resignado em julho após ser condenado, em maio, a um ano de prisão domiciliária por nunca ter reportado às autoridades o repetido abuso sexual de dois rapazes por um padre, nos anos 1970. Wilson, que recorreu da sentença e resistiu a pedir a demissão, sendo a isso obrigado pelo clamor público e a pressão do governo australiano, era até agora o mais alto membro da hierarquia católica a ser condenado por crimes relacionados com abuso sexual -- no caso, encobrimento.

Em setembro, após o escândalo da revelação do relatório da Pensilvânia, o papa convocou os presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo para um encontro no Vaticano, de 21 a 24 de fevereiro de 2019, dedicado ao tema da "proteção dos menores", ou seja, do abuso sexual na Igreja Católica. A proposta do encontro, foi dito na altura, partiu do conselho consultivo de cardeais, o chamado "C9" -- aquele do qual faziam parte, até esta quarta-feira, Pell e Errázuriz. "O Conselho refletiu amplamente com o Santo Padre sobre o tema dos abusos", assinalava a nota oficial do anúncio.

Última chance para o papa?

A 27 de novembro, Marie Collins, uma das duas vítimas de abuso sexual por membros da hierarquia da Igreja Católica que foi convidada pelo papa para fazer parte da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, criada em 2013, e que em 2017 bateu com a porta por considerar que "às declarações públicas do Vaticano sobre a sua preocupação com o abuso sexual correspondem ações contrárias dentro de casa", deu uma entrevista na qual avisa o papa de que o encontro pode ser "a sua última hipótese". "Se este encontro em 2019 acaba sem mais que palavras entusiásticas sobre os debates que tiveram lugar e com promessas para o futuro, será o fim para muitos que esperaram muitos anos por ações concretas por parte da Igreja Católica."

"Se este encontro em 2019 acaba sem mais que palavras entusiásticas sobre os debates que tiveram lugar e com promessas para o futuro, será o fim para muitos que esperaram muitos anos por ações concretas por parte da Igreja Católica."

Marie Collins, que foi abusada por um padre aos 13, tinha várias vezes, enquanto membro da comissão, chamado a atenção para a falta de financiamento, de pessoal (não podem contratar fora da Igreja) e de poder da mesma. Aquando da sua saída, lamentou nunca ter tido a oportunidade de falar com o Papa e assegurou já não ter esperança de que as coisas mudem.

A gota de água que a levou a abandonar a comissão, revelou, foi dar-se conta de o Vaticano não estar a cumprir a norma de que toda a correspondência enviada por vítimas e sobreviventes tinha de ter resposta. "Considero impossível continuar a ouvir declarações públicas sobre a preocupação profunda que a igreja sente em relação aos cujas vidas foram destruídas pelo abuso e em privado perceber que no Vaticano nem sequer se dão ao trabalho de tomar conhecimento das suas cartas. É muito esclarecedor sobre a forma como toda esta crise na Igreja tem sido tratada."

Presidida pelo bispo de Boston, Sean O'Malley, a principal proposta da comissão - de que na CDF funcione um tribunal para julgar altos prelados suspeitos de encobrimento e outros crimes relacionados com abuso sexual - nunca avançou, apesar de ter sido publicamente aceite pelo Papa e anunciada em 2015.

"Não quero participar num mero exercício de relações públicas. Não vejo nada a mexer, não vejo ação nenhuma num assunto em que devia estar toda a gente furiosa."

Já antes da saída de Collins a comissão havia perdido, em 2016, o outro representante das vítimas, Peter Saunders. Foi dispensado pelo Vaticano, supõe-se que devido aos sinais públicos de impaciência que dava. Em declarações posteriores aos jornalistas, disse ter tornado claro que não estava disposto a participar "num mero exercício de relações públicas. (...) Não vejo nada a mexer, não vejo ação nenhuma num assunto em que devia estar toda a gente furiosa".

Saunders, abusado por dois padres quando adolescente, revelou também que tinha chegado à comissão notícia de um caso recente em que dois padres italianos haviam denunciado um colega ao bispo por abuso sexual de menores e o prelado lhes dissera para ficarem calados. "Isto parte-me o coração, e tristemente continua a acontecer no mundo inteiro."