"Já houve relatórios sobre abusos sexuais na Igreja. Mas nunca nesta escala"

Ao longo de sete décadas, 301 padres católicos de seis das oito dioceses da Pensilvânia abusaram sexualmente de mais de mil crianças. Os abusos são revelados agora num relatório de 1400 páginas

Um padre violou uma rapariga de sete anos quando a visitou no hospital depois de ela tirar as amígdalas. Outro padre obrigou um rapaz de nove anos a fazer-lhe sexo oral e depois limpou-lhe a boca com água benta para o purificar. Outro padre demitiu-se após anos de denúncias de abusos sexuais, mas pediu e recebeu uma carta de referência para o seu próximo emprego - na Walt Disney World.

Estes são apenas alguns dos casos que um grande júri no estado da Pensilvânia, nos EUA, recolheu ao longo de dois anos de investigação, que agora conta num relatório de 1400 páginas. No total, ao longo de sete décadas, foram 301 os padres católicos envolvidos em abusos sexuais de menores, com o número de vítimas a chegar aos mil. Em causa seis das oito dioceses deste estado (nas outras já tinha havido investigações), que representam 1,7 milhões de católicos.

"Nós, os membros deste grande júri, precisamos que oiçam isto. Sabemos que alguns de vocês já ouviram algumas coisas antes. Já houve outros relatórios sobre abusos sexuais dentro da Igreja Católica. Mas nunca nesta escala. Para muitos de nós, essas outras histórias aconteceram noutro local, longe. Agora, sabemos a verdade: aconteceu em todos os lugares", começa o relatório, revelado pelo procurador-geral da Pensilvânia, Josh Sapiro, na terça-feira à noite.

Um grande júri (grand jury) tem o poder de investigar potenciais atos criminosos e determinar se deve ou não haver uma acusação. Normalmente composto por 16 a 23 cidadãos escolhidos por sorteio (face aos 12 de um júri tradicional num tribunal criminal), um grande júri oferece aos procuradores a capacidade de convocar testemunhas sem a presença de advogados, além do poder de exigir a produção de documentos de prova.

Dos 301 padres envolvidos nos abusos (" e achamos que não os apanhámos a todos"), muitos já morreram e na maioria dos casos os crimes já prescreveram. O grande júri só vai conseguir acusar dois. Um deles que ejaculou na boca de uma criança de sete anos. Outro atacou dois rapazes diferentes, todos os meses, num período de anos que só acabou em 2010. O grande júri acredita que haverá mais casos e vítimas recentes, dizendo esperar que o seu relatório sirva para encorajar outras a falar.

Vários casos

Num dos casos, um rapaz de sete anos foi abusado sexualmente por um padre, que depois lhe disse que tinha que confessar os seus pecados - ao próprio abusador. Noutro, uma criança que tinha sido abusada questionou o próprio agressor, com ele a dizer que era "ok" fazer o que fazia porque ele era "um instrumento de Deus".

Outro rapaz, foi obrigado a posar nu como Jesus na cruz, enquanto padres o fotografavam. Nesta paróquia, um padre dava cruzes de ouro às suas vítimas. Isso servia para os marcar como seus "favoritos", mas também para indicar aos outros padres que aquele menor já estava "preparado" para ser abusado.

Noutro caso, contado no relatório, cinco raparigas da mesma família foram abusadas pelo mesmo padre. Num dos casos, os abusos começaram quando ela tinha 18 meses, contou Shapiro na apresentação do relatório, rodeado de 20 vítimas de abusos e respetivas famílias.

"É bom que o público saiba disto, mas onde está a justiça? O que vamos fazer com isto? Porque é que estas pessoas não estão na prisão?", disse ao The New York Times Frances Samber, cujo irmão Michael se suicidou em 2010 após ter sido vítima de abuso por parte de um padre.

Encobrimento por parte da igreja

A maior parte da informação presente no relatório parte dos documentos da própria igreja, que ao longo de anos procurou esconder estes casos, mantendo "arquivos secretos" das denúncias. Segundo o grande júri, havia uma espécie de livro de regras sobre o que fazer: por exemplo, nunca era usada a palavra "violação", mas antes as expressões "contacto inapropriado" ou "problemas de limites".

Além disso, a investigação não devia ser genuína (nem o caso relatado à polícia) e os padres eram enviados para centros de tratamento ligados à igreja. Quando os padres precisavam mesmo de ser removidos da paróquia, então os paroquianos (quando eram informados) achavam que estavam de "baixa" ou a sofrer de "exaustão nervosa". Caso a paróquia descobrisse que o padre era um abusador, ele deveria ser transferido para outra paróquia.

"Os padres estavam a violar meninos e meninas e os homens de Deus que eram responsáveis por eles não só não fizeram nada, como esconderam tudo. Durante décadas. Monsenhores, bispos auxiliares, bispos, arcebispos, cardeais foram principalmente protegidos; muitos, incluindo alguns nomeados neste relatório, foram promovidos. Até isso mudar, achamos que é muito cedo para fechar o livro dos escândalos sexuais na Igreja Católica", lê-se na introdução do relatório.

O desdém pelas vítimas é patente em vários casos. "Um padre violou uma rapariga, engravidou-a e arranjou para que fizesse um aborto. O bispo expressou os seus sentimentos numa carta: 'Este é um momento muito difícil na tua vida e percebo que possas estar chateado. Também partilho a tua dor'. Mas a carta não era para a rapariga. Estava endereçada ao violador", lê-se no relatório.

"Mesmo se não servir para mais nada, esperamos que este relatório remova toda a dúvida existente de que o fracasso em prevenir o abuso era um fracasso sistémico, um fracasso institucional. Há coisas que o governo pode fazer para ajudar. Mas esperamos que exista autorreflexão dentro da igreja, e um compromisso profundo na criação de um ambiente seguro para as suas crianças", lê-se.

O grande júri reconhece que muito mudou nos últimos 15 anos. "Parece que a igreja está agora a recorrer à aplicação da lei em relatórios de abuso mais rapidamente. Processos internos de revisão foram estabelecidos. As vítimas já não são tão invisíveis", indicam, admitindo contudo que "o abuso sexual de crianças na Igreja ainda não desapareceu".

Ainda não houve da parte do Papa Francisco ou do qualquer reação ao relatório. Mas os bispos católicos da Pensilvânia apelaram a orações para as vítimas e para a igreja, prometendo maior abertura e lembrando que as medidas criadas nos últimos anos já estão a tornar a igreja mais segura. Mas pelo menos um, o bispo Davi Zubik, rejeitou a ideia de que houve encobrimento, dizendo em conferência de imprensa que nos últimos 30 anos a igreja tem sido "transparente" em relação a todos estes factos.

Alterações às leis

O grande júri faz ainda uma série de recomendações, nomeadamente no que diz respeito a mudanças na lei. "Passámos 24 meses a esquadrinhar o comportamento mais depravado, apenas para descobrir que as leis protegem a maioria dos agressores e deixam as vítimas com nada. Dizemos que as leis que o fazem precisam de mudar", indicam.

Uma recente alteração na lei permite que as vítimas até 50 anos possam denunciar os casos (antes era até 30 anos). Mas o grande júri lembra que ouviu vítimas mais velhas (uma tinha 83 anos). "Queremos que os futuros predadores de crianças saibam que devem sempre olhar sobre os seus ombros - não importa quanto tempo vivem."

Pedem ainda que seja possível que as vítimas mais velhas possam processar as dioceses por danos e que seja revista a legislação em relação aos acordos de confidencialidade. Muitos casos foram resolvidos dentro da igreja com a assinatura deste tipo de acordo, no qual o silêncio das vítimas era comprado. O grande júri quer que os acordos de confidencialidade não possam ser usados em casos criminais (só em processos civis).

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).