"Namoro" entre Putin e Erdogan lança desafio ao Ocidente

A reaproximação entre Moscovo e Ancara não se limita ao teatro da Síria. Este novo tipo de relação assume aspetos alarmantes para o Ocidente quando a Turquia sublinha os desencontros com a NATO e a sua desilusão com a UE

A cumplicidade entre a Rússia e a Turquia no Médio Oriente alterou já completamente os dados do conflito da Síria e as promessas de cooperação económica, energética e militar entre Moscovo e Ancara assumem proporções de um repto à União Europeia e à NATO. E num momento de tensão nas relações entre o Ocidente e os regimes de Moscovo e de Ancara.

Russos e turcos partem de objetivos em confronto aberto no conflito da Síria - a Turquia apoiou política e militarmente a oposição a Assad - e estiveram à beira do confronto quando, em novembro de 2015 caças turcos abateram um avião russo sobre a fronteira sírio-turca. Moscovo retaliou com uma série de medidas que atingiram duramente a economia turca.

Em outubro do ano passado, e após meses de tensão, um pedido de desculpas de Ancara e um contacto entre Putin e Erdogan operaram um espetacular volte-face. Moscovo e Ancara mostravam-se subitamente dispostos a um relançamento dos laços económicos e mesmo a uma intensificação dos contactos militares e de intelligence. Uma reaproximação ditada no fundamental pela evolução da conjuntura síria apesar do choque entre os objetivos estratégicos de russos e turcos.

A Turquia lançara meses antes uma operação no Norte da Síria. A ofensiva turca visava a cidade de al-Bab, acima de Alepo, ocupada pelo Estado Islâmico desde o início de 2014, mas o objetivo último das forças de Ancara era travar o passo ao avanço sobre a cidade dos curdos do SDF e das milícias YPG, com ligações ao PKK curdo turco. Tratava-se em suma de garantir uma zona tampão no Norte da Síria de modo a impedir a ligação de dois enclaves controlados pelos curdos na área num território contínuo.

O assalto a al-Bab acabaria por gerar um acordo tácito entre as tropas turcas e as forças fiéis a Bashar al-Assad com o apoio da Rússia. Em troca da redução do apoio aos rebeldes anti-Assad, ou seja, da "anuência turca" à tomada de Alepo pelas forças de Damasco, Assad e a Rússia deixava espaço livre à Turquia para o assalto a al- Bab. O entendimento assumiria mesmo a forma de uma cooperação militar direta - a partir de janeiro turcos e russos coordenavam os ataques aéreos contra o bastião islâmico de al-Bab.

No final do ano passado russos e turcos juntavam esforços para conseguir um cessar-fogo em Alepo. A Rússia e a Turquia, juntamente com o Irão, patrocinaram as negociações em curso em Genebra entre o regime de Bashar al-Assad e três grupos de oposição, e Ancara juntou-se a Moscovo no lançamento das negociações no Cazaquistão sobre aspetos militares do conflito.

As relações entre Moscovo e Ancara sobreviveram depois incólumes a provas que, noutras circunstâncias, poderiam gerar incidentes graves entre os dois países. Em dezembro último o embaixador russo em Ancara foi alvejado e morto por um polícia turco e, no início de Fevereiro deste ano, um caça russo atingiu por engano uma posição turca na cidade de al-Bab, no Norte da Síria, matando quatro soldados turcos.

Os desenvolvimentos em torno de al-Bab prometem ainda complicar a situação noutra frente - o projetado assalto a Raqqa, no Leste, a capital do Estado Islâmico na Síria. Washington acaba de anunciar o envio de uma força de marines e de rangers para reforçar o dispositivo americano no país e preparar o assalto a Raqqa. A Turquia deu já sinal do seu empenho em participar no assalto ao bastião islâmico, e a situação é tanto mais complicada quanto os Estados Unidos apostam nos curdos do SDF como o seu principal aliado na ofensiva contra Raqqa. O cerco ao bastião islâmico ameaça assim colocar em concorrência direta os grandes protagonistas do conflito, das forças de Assad a russos, turcos, americanos, curdos e vários grupos rebeldes.

A aproximação entre Moscovo e Ancara não se limita porém ao teatro da Síria. As novas medidas de cooperação anunciadas em Moscovo - intensificação das trocas comerciais, relançamento de projetos como o gasoduto Turkish Stream e a construção da central nuclear de Akkuyuna e mesmo aspetos de cooperação militar como a possível aquisição pela Turquia do sistema russo de defesa antiaéreas S-400 - ameaçam sérias dores de cabeça nas capitais da NATO.

A reaproximação russo-turca assumiu desde logo aspetos alarmantes para o Ocidente quando, numa entrevista a uma revista russa em outubro do ano passado, o ministro dos Estrangeiros de Ancara, Mevlut Cavusoglu, sublinhou os desencontros políticos com a NATO e da desilusão turca com a União Europeia e admitiu um estreitamento da cooperação militar com a Rússia. A Turquia tem uma importância crucial no flanco sul da NATO e reaproximação entre Moscovo e Ancara lança uma nova dinâmica em toda a área do Médio Oriente. As já complexas relações entre a Turquia e a União Europeia agravaram-se notoriamente desde a tentativa falhada de golpe na Turquia em julho de 2016. A vaga de repressão desencadeada na Turquia à sombra do golpe gerou fortes críticas e várias capitais europeias denunciaram a "deriva autoritária" do presidente Erdogan.

As relações entre Ancara e Berlim vivem dias críticos desde a recente detenção pelas autoridades turcas de um jornalista turco-alemão Deniz Yücel pelas autoridades de Ancara. Várias cidades alemãs e de outros países europeus proibiram a realização de comícios entre a população de origem turca para apoiar o referendo convocado por Erdogan para 16 de Abril para reforçar os seus poderes com a participação de políticos turcos de topo, entre eles o ministro dos estrangeiros Mevlut Cavusoglu.

O próprio acordo entre a Turquia e a União Europeia para o complexo do fluxo de refugiados em direção à Europa acabou por se tornar mais um fator de tensão, com Ancara a deixar pairar a "ameaça" de "abrir os portões" caso a UE não atenda as exigências de Ancara a matérias como a isenção de vistos para a entrada de cidadãos turcos em território europeu ou a aceleração das negociações para a adesão turca à UE reclamadas por Ancara.

O namoro entre Moscovo e Ancara representa, nesta perspetiva, um trunfo importante para os dois lados, permitindo a Vladimir Putin e Recep Erdogan disporem de alternativas estratégicas.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG