Livro refere que Albert Camus foi assassinado pela KGB

Novo livro relata descobertas de arquivos reveladas em 2011 e que sugerem que o estado francês terá sido favorável ao acidente de viação que vitimou em 1960 o Nobel da Literatura

Quase 60 anos depois de Albert Camus, Nobel da Literatura de 1957, ter morrido num acidente de viação, um novo livro apresenta a tese de que o escritor terá sido assassinado por espiões da KGB, organização de serviços secretos da União Soviética, por retaliação à retórica antissoviética presente nas obras do francês.

O autor italiano Giovanni Catelli divulgou essa teoria pela primeira vez em 2011, tendo escrito no jornal italiano Corriere della Sera que havia passagens no diálogo do poeta e tradutor checo Jan Zábrana que sugeriam que a morte de Camus não tinha sido um acidente. Agora, Catelli aprofundou a sua investigação num livro intitulado "A Morte de Camus".

Albert Camus morreu a 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, quando o seu editor, Michel Gallimard, perdeu o controlo do carro e embateu numa árvore. Três anos antes, tinha ganhado o prémio Nobel da Literatura.

"O acidente parecia ter sido causado por uma explosão. Os especialistas ficaram intrigados com o facto de ter acontecido numa longa reta com 30 metros de largura e numa estrada sem trânsito", escreveu Herbert Lottman em 1978 na biografia do autor. Catelli acredita que Zábrana explica o motivo da colisão: "Equiparam um pneu com uma ferramenta que o terá perfurado quando o carro seguia em alta velocidade."

Essa ordem terá sido dada por Dmitri Shepilov, ministro dos assuntos internos da então União Soviética, em retaliação a um artigo de Camus no jornal francês Franc-Tireur publicado em março de 1957. "Os serviços de inteligência levaram três anos para executar a ordem. E conseguiram-no fazer de tal maneira que, até hoje, toda a gente pensava que Camus tinha morrido por causa de um acidente de viação comum. O homem que me o contou recusou dizer-me a sua fonte, mas afirmou que era totalmente confiável", relata o diário de Zábrana.

Catelli, que passou vários anos a procurar validar as afirmações de Zábrana, acredita que o acidente foi planeado pela KGB mas que contou "com o aval" do Estado francês, porque os artigos de Camus estavam a interferir nas relações franco-soviéticas, pelo que ambos os governos terão beneficiado com o silenciar do autor.

Ainda assim, esta tese tem gerado reticências. Alison Finch, professora de literatura francesa em Cambridge, não ficou convencida. "Os defensores da teoria do assassinato incluem um escritor criativo e um diretor de cinema [Paul Auster], um escritor e tradutor checo cuja família foi perseguida pelo regime comunista e que tinha razões fortes para odiar o comunismo [Jan Zábrana] e o altamente controverso advogado Jacques Vergès. Esse assassinato teria de ter sido aprovado ao mais alto nível e, presumivelmente, por De Gaulle [ex-chefe de Estado francês], um escritor talentoso, que tinha grande respeito pelos intelectuais franceses, incluindo aqueles dos quais ele discordava", frisa.

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