Khashoggi: tudo o que se sabe acerca da morte do jornalista saudita

"Cometeram um erro quando mataram Jamal Khashoggi", admitiu este domingo um ministro saudita. Aliados exigem uma "investigação transparente" e fundamentada com factos

A última vez que Jamal Khashoggi foi visto com vida estava a entrar no consulado do seu país em Istambul onde tinha ido tratar de documentos necessários para o seu casamento. A autoridades turcas acreditam que o conhecido jornalista, muito crítico do governo saudita, foi assassinado por uma equipa de agentes da Arábia Saudita ainda no interior do consulado. Dizem ter provas, como áudios, que a BBC descreve como "horríveis", e que alegadamente mostram como o jornalista foi torturado antes de ser assassinado.

A ABC News avançou que um oficial saudita disse que o jornalista morreu estrangulado, quando estava a ser agarrado em "posição de estrangulamento", para impedir que fugisse da embaixada saudita e pedisse ajuda.

Assim que foi tornado público o desaparecimento de Khashoggi, a Arábia Saudita afirmou que o jornalista saíra do consulado, mas duas semanas depois - e após ter sido avançado que o saudita estaria morto - confirmou a morte e avançou que este morreu na consequência de uma luta "que correu mal" e avança que não sabe onde está o corpo.

A morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi foi uma "operação desonesta" que o príncipe herdeiro desconhecia, garantiu o ministro dos Negócios Estrangeiros saudita. Em entrevista à Fox News, Adel al-Jubeir, negou que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman tivesse conhecimento prévio de uma operação que resultou na morte do jornalista no consulado saudita em Istambul., no passado dia 2 de outubro.

Ainda este domingo, um senador republicano disse este domingo que o príncipe herdeiro é o responsável pela morte do jornalista, algo que os serviços secretos norte-americanos consideram "altamente provável". O senador Bob Corker do Tennessee disse que Mohammed bin Salma "ultrapassou os limites" e de que tem de existir "um castigo e um preço a pagar". Algo que a chanceler alemã, Angela Merkel, já começou a fazer, quando anunciou, também este domingo, que a exportação de armas para a Arábia Saudita está suspensa, até que sejam esclarecidas as circunstâncias da morte de Khashogg.

Arábia Saudita pressionada: exige-se "investigação transparente"

"Esta foi uma operação em que os indivíduos acabaram por se exceder na autoridade e responsabilidade que tinham. Cometeram um erro quando mataram Jamal Khashoggi", disse o ministro.

A declaração surge no meio de vários pedidos internacionais para que seja realizada uma investigação "transparente" à morte de Khashoggi. A procuradoria da Arábia Saudita reconheceu esta sexta-feira que o jornalista saudita residente nos EUA Jamal Khashoggi morreu no consulado do país em Istambul (Turquia) na sequência de uma luta. A informação foi avançada pela televisão estatal saudita, segundo a qual 18 cidadãos da Arábia Saudita foram detidos como suspeitos, numa investigação que está ainda em curso.

Esta foi a primeira vez que a Arábia Saudita admitiu a morte de Jamal Khashoggi, colunista do jornal americano Washington Post e ativista pelos direitos humanos no seu país natal.

Jamal Khashoggi era um jornalista prestigiado que cobriu grandes histórias, incluindo a invasão soviética do Afeganistão e a ascensão de Osama Bin Laden. Trabalhou para várias agências oficiosas sauditas. Foi próximo da família real saudita durante várias décadas e também serviu como conselheiro do governo. Acabou por cair em desgraça e, o ano passado, exilou-se voluntariamente exílio nos EUA. Foi na mesma altura em que começou a escrever uma coluna mensal para o Washington Post. Nos textos, criticava abertamente as políticas do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Deixou contactos à noiva: podia não regressar da visita à embaixada na Turquia

A 28 de setembro esteve no consulado saudita pela primeira vez, para pedir um documento comprovativo do seu divórcio, uma vez que se iria casar com uma mulher turca. Lá, informaram-no que teria de voltar mais tarde e o jornalista marcou a viagem para o dia 2 de outubro. Hatice Cengiz, a noiva do jornalista, contou ao Washington Post que este nunca pensou que algo lhe acontecesse em território turco.

As câmaras da embaixada turca em Istambul mostram Khashoggi a chegar ao prédio às 13:14 - tinha marcação para as 14:30. Contara aos amigos que tinha sido muito bem tratado da primeira vez, mas deu dois contactos à noiva e disse-lhe que deveria ligar caso ele não regressasse. Um deles era o assessor do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Hatice Cengiz esperou durante 10 horas no exterior do consulado: Khashoggi não apareceu e ela ligou.

Autoridades turcas disseram que Khashoggi foi torturado e morto no local por uma equipe de agentes sauditas e que o seu corpo foi levado do interior da embaixada. Nas gravações que dizem ter ouve-se a voz do jornalista e as vozes de outros homens que falam em árabe, disse uma fonte ao Washington Post, que adianta que Khashoggi foi "interrogado, torturado e depois assassinado".

O jornal turco pró-governo Yeni Safak disse que na gravação se ouve a voz do cônsul geral saudita Mohammed al-Otaibi a alertar os alegados agentes sauditas: "Façam isso no exterior. Vou ter problemas", terá dito.

Outra fonte disse ao The New York Times que houve uma operação complexa na qual Khashoggi foi morto duas horas após a sua chegada à embaixada e que o seu corpo foi desmembrado e levado em vários sacos para o exterior. Segundo o jornal turco Sabah, funcionários turcos que trabalhavam na residência do embaixador também foram "precipitadamente" mandados para casa no dia em que Khashoggi desapareceu,

Entre os 15 ou 18 agentes dos quais a Turquia e a Arábia Saudita falam está Maher Mutreb, que serviu como coronel dos serviços secretos sauditas e trabalhou na embaixada do país em Londres.

Quatro deles têm ligações ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita e outro é uma figura importante no ministério do interior do país. As autoridades turcas acreditam que os homens são oficiais sauditas e oficiais de serviços de informações, uma alegação que parece ser apoiada por informações de código aberto que estão disponíveis gratuitamente. O grupo terá trazido uma serra de ossos para a Turquia e um dos membros da equipa era um médico-legista.

Os agentes chegaram, dizem as autoridades turcas, em jatos particulares e em voos particulares que partiram de Riad, a capital saudita, no dia 2 de outubro - data em que Khashoggii entrou na embaixada. O grupo fez o check-in em dois hotéis próximos ao prédio da embaixada. Há imagens que mostram grupos de homens sauditas a dirigirem-se em carrinhas pretas até à embaixada uma hora antes do encontro que o jornalista marcou para ir levantar os documentos que pedira. Duas horas depois de ter entrado, os homens saíram e deixaram o país nos dois jatos particulares que voaram para a Arábia Saudita via Cairo e Dubai, de acordo com os investigadores.

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