Jihadistas garantem ter abatido avião russo por vingança. Moscovo diz que não

As duas caixas negras do A321 da Metrojet já foram encontradas. França, Alemanha e Rússia vão enviar para o local equipas técnicas

Eram 224 as pessoas que seguiam a bordo do Airbus A321 da Metrojet, pertencente à companhia aérea russa Kogalymavia. A maior parte delas eram turistas russos que estavam de regresso a casa, depois de umas férias na estância balnear egípcia de Sharm el-Sheikh. Ontem, 22 minutos depois de partir com destino a São Petersburgo, quando estava quase a atingir a altitude de cruzeiro e pouco depois de perder contacto com os radares, o avião despenhou-se numa zona montanhosa da Península do Sinai, no Egito. Segundo a embaixada da Rússia no Cairo, não há sobreviventes.

Um grupo terrorista ligado ao Estado Islâmico no Egito, o Província Sinai, afirmou - num comunicado divulgado pelo site Aamaq, que funciona como uma agência de notícias oficiosa do Estado Islâmico - que tinham abatido o avião "em resposta aos ataques aéreos da Rússia que mataram centenas de muçulmanos na Síria". "Os combatentes do Estado Islâmico conseguiram abater um avião russo sobre a província do Sinai que levava mais de 220 cruzados russos. Foram todos mortos, graças a Deus", referia a mesma mensagem. A península do Sinai é palco de uma insurreição protagonizada por militantes próximos do Estado Islâmico, que nos últimos meses matou centenas de polícias e soldados egípcios, bem como atacado alvos ocidentais.

Uma alegação que, para o ministro dos Transportes da Rússia, "não pode ser considerada verdadeira". "Agora em vários media corre a informação de que o avião de passageiros russo foi alegadamente abatido por um míssil antiaéreo, disparado por terroristas. Esta infor- -mação não pode ser considerada verdadeira", declarou Maxim Sokolov à agência Interfax. A Rússia, um dos aliados do presidente Bashar al-Assad, começou uma operação de ataques aéreos contra grupos opositores na Síria, incluindo o Estado Islâmico, a 30 de setembro.

Vários especialistas militares afirmam que o rebeldes afiliados ao Estado Islâmico, que tem o bastião no norte da península do Sinai, não dispõem de mísseis capazes de atingir um avião a 9 mil metros de altitude, mas não excluem a hipótese de uma bomba a bordo, ou que tenha sido atingido por míssil quando descia na sequência de falhas técnicas.

Lufthansa suspende voos

O voo 7K-9268 tinha partido do aeroporto de Sharm el-Sheikh, a famosa estância balnear egípcia do mar Vermelho, e tinha como destino a cidade russa de São Petersburgo. A viagem tinha uma duração prevista de cerca de cinco horas, mas 22 minutos depois da descolagem o A321, quando seguia a uma altitude de 9450 metros, desapareceu dos radares. Os destroços foram encontrados por aviões militares egípcios na zona montanhosa de Hasana, 35 km a sul da cidade costeira de el-Arish no Mediterrâneo .

Vídeo que alegadamente mostra o avião a ser abatido carregado na Internet

Uma fonte das autoridades da Península do Sinai avançou que a avaliação inicial indicava que o acidente teria sido causado por uma falha técnica, mas que ainda era muito cedo para tirar conclusões. O avião, disse, caiu "de forma vertical", contribuindo para o nível de devastação no local.

"Estou a olhar para uma tragédia", contou à Reuters um elemento das forças de segurança egípcias. "Estão muitos mortos no chão e muitos morreram presos aos seus lugares", acrescentou. "O avião partiu-se em dois, uma pequena parte da cauda que ardeu e outra parte, maior, que embateu nos rochedos. Retirámos pelo menos 100 corpos e o resto ainda está lá dentro", adiantou outra fonte. A bordo seguiam 224 pessoas - sete tripulantes e 217 passageiros, 214 dos quais russos e três ucranianos. Muitos deles viajavam em família e regressavam a casa após um período de férias na estância balnear egípcia. O presidente Vladimir Putin decretou para hoje um dia de luto nacional.

O primeiro--ministro egípcio declarou ontem ser impossível determinar a causa do acidente até as duas caixas negras, que já foram encontradas, serem examinadas. Mas adiantou não se acreditar que existam atividades "irregulares" por trás da tragédia. Sherif Ismail disse ainda que estão a preparar-se para a chegada das famílias das vítimas e que já tinham sido recuperados 129 corpos.

Horas antes, a companhia aérea Kogalymavia disse não existirem fundamentos para falar em erro humano e que o piloto tinha 12 mil horas de voo. Segundo a Airbus, o A321 envolvido na tragédia foi fabricado em 1997 e tinha cerca de 56 mil horas de voo, distribuídas por cerca de 21 mil voos. Desde 2012 estava ao serviço da empresa russa.

A agência de segurança de aviação civil francesa (BEA) vai enviar dois investigadores para o Egito, que serão acompanhados por seis conselheiros técnicos da Airbus. A estes juntar-se-ão dois investigadores do Gabinete Federal de Investigação de Acidentes Aéreos da Alemanha e quatro da sua homóloga russa, acrescentou a BEA em comunicado.

O Comité de Investigação da Rússia disse ontem estar a verificar amostras de combustível do último reabastecimento da aeronave, bem como a interrogar pessoas envolvidas na preparação da aeronave e da sua tripulação. Foram ainda feitas buscas no aeroporto de Domodevo, a base da Kogalymavia.

A Lufthansa e a Air France-KLM, duas das maiores companhias aéreas europeias, anunciaram a suspensão temporária dos voos sobre a Península do Sinai. Já a British Airways e a easyJet garantiram que vão continuar a efetuar voos para Sharm el-Sheikh.

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