Violações e fome. A vida das mulheres soldado no exército da Coreia do Norte

Lee So Yeon esteve mais de uma década no exército. Água fria com cobras e sapos, malnutrição e abusos fazem parte do quotidiano das soldados norte-coreanas

Lee So Yeon tem 41 anos e cresceu na Coreia do Norte antes de desertar. Quando tinha 17 alistou-se voluntariamente no exército: filha de um professor universitário, foi atraída pela promessa de pelo menos uma boa refeição diária. Mas acabou a dormir numa cama com colchão de palha de arroz, que absorvia todos os odores e largava um cheiro insuportável na camarata que partilhava com mais duas dúzias de mulheres. As condições para se lavar também não eram ideais: não havia água quente e a solução era recorrer a uma mangueira ligada diretamente a um curso de água que corria da montanha, que muitas vezes despejava cobras e sapos.

A história de Lee So Yeon não é única, mas a norte-coreana, que deixou o exército aos 28 anos e, em 2008, tentou pela primeira vez desertar da Coreia do Norte - na primeira tentativa foi apanhada, mas foi bem-sucedida à segunda - falou à BBC sobre as condições em que vivem as mulheres soldado de Pyongyang. Vinda de uma família em que a maioria dos homens era militar, a norte-coreana decidiu que alistar-se no exército seria a melhor forma de contornar a falta de alimentos que atravessou o país na década de 1990. Na altura, ainda não era obrigatório para as mulheres cumprirem serviço militar, mas a situação mudou entretanto. Desde 2015, todas têm de cumprir sete anos no exército - os homens têm uma década obrigatória de serviço militar - mas as rotinas diárias das soldados não são muito diferentes das dos militares do sexo oposto, exceto nas tarefas culinárias e de limpeza, que inevitavelmente lhes são atribuídas. "A Coreia do Norte é uma sociedade tradicionalmente dominada pelo homem e os papéis tradicionais de género permanecem", explicou à BBC Juliette Morillot, a autora de vários livros sobre o país hoje liderado por Kim Jong-un.

De acordo com Lee So Yeon, as mulheres tinham regimes de treino ligeiramente menos duros do que os homens e, quando entrou para o exército, ficou mesmo entusiasmada porque tinha finalmente um secador à disposição, ainda que as falhas constantes de eletricidade não lhe permitissem dar-lhe muito uso. O treino físico intenso e o racionamento de comida, porém, rapidamente tiveram impacto: "Depois de seis meses de serviço, deixávamos de ter menstruação devido à malnutrição e ao ambiente de stress", contou à BBC. "As mulheres soldado diziam que ficavam contentes por não terem o período. A situação era tão má que se tivessem o período seria pior".

Segundo a norte-coreana, o exército falhava no fornecimento de pensos higiénicos, pelo que a única solução era reutilizá-los. "Até aos dias de hoje, as mulheres usam pensos de algodão tradicionais. Têm de os lavar todas as noites, longe da vista dos homens", conta a autora Juliette Morillot, que falou com várias norte-coreanas no exército. "Um das raparigas com quem falei, que tinha 20 anos, disse-me que treinava tanto que não tinha menstruado durante dois anos". Em 2015, quando o governo tornou obrigatório o serviço militar para mulheres, anunciou também que iria passar a fornecer às unidades femininas uma marca premium de pensos higiénicos, a Daedong. E começou recentemente a distribuir produtos de cosmética da marca norte-coreana Pyongyang Products a algumas unidades femininas da aviação, depois de em 2016 Kim Jong-un ter apelado aos produtores norte-coreanos para que competissem com as grandes marcas globais, nomeadamente a Dior, Lancome ou Chanel, assinala a BBC.

Outro problema no exército para as recrutas femininas é o assédio sexual. Lee So Yeon garante que não foi violada, mas são poucas as que o admitem, assinala Morillot. Contam, porém, que acontece às outras. "O comandante da companhia ficava no quarto depois do horário e violava as militares às suas ordens. Isto acontecia vezes sem conta", revela Yeon. O exército norte-coreano diz que leva a sério as acusações de abuso sexual e que os culpados cumprem penas até sete anos de cadeia, mas nenhuma mulher está disposta a testemunhar. "Frequentemente, os homens não são punidos", diz Morillot. "A violência doméstica é comummente aceite e não denunciada. O mesmo acontece no exército".

Lee So Yeon tentou escapar da Coreia do Norte em 2008 mas foi apanhada na fronteira com a China e enviada para um campo de detenção durante um ano. Tinha saído do exército alegando que queria estar mais perto da família. Pouco tempo depois de sair da prisão, voltou a tentar fugir. Atravessou um rio a nado e, já na China, encontrou-se com um agente que lhe arranjou a viagem para a Coreia do Sul, onde vive desde que desertou.

A BBC assinala que a norte-coreana não foi paga para falar à estação, levando em conta que muitos desertores, conscientes da sede de informações sobre a vida na Coreia do Norte, exageram nos testemunhos e não dão informação mais credível do que a propaganda do regime.

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