Trump ataca a Síria. 59 mísseis lançados contra alvos militares

Presidente americano ordenou retaliação ao ataque com gás sarin. EUA garantem que avisaram Rússia, mas Putin diz que é agressão

Os Estados Unidos lançaram esta madrugada (hora de Lisboa) um ataque com mísseis à Síria, visando alvos militares do regime de Bashar al-Assad, do qual terão resultado, pelo menos, quatro mortos. Segundo o Exército sírio terão sido seis as vítimas mortais, mas a agência oficial síria Sana avança que o ataque matou nove pessoas, entre as quais quatro crianças.

Segundo o Pentágono, foram lançados pelo menos 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk de navios de guerra no Mediterrâneo, visando a base aérea al-Shayrat, na província de Homs, de onde se pensa ter partido o ataque do início da semana com armas químicas. Nesse ataque, mais de 70 pessoas morreram, muitas delas crianças.

Donald Trump afirmou ter "ordenado uma ação militar à base aérea da Síria de onde foi lançado o ataque químico".

"É do interesse vital para a segurança nacional dos Estados Unidos impedir e parar a proliferação do uso de armas químicas", justifica o presidente norte-americano, para quem "anos de tentativas para mudar o comportamento de Assad falharam, de forma dramática".

Oposição síria aplaude e pede mais

A oposição síria congratulou-se com o ataque norte-americano contra a base militar e pediu a continuação dos bombardeamentos até à "neutralização da capacidade" do regime de lançar ataques, disse um porta-voz.

"A coligação da oposição saúda o ataque e pede a Washington que neutralize a capacidade [do Presidente síro, Bashar al-] Assad de realizar bombardeamentos", indicou à agência noticiosa France Presse (AFP) Ahmad Ramadan.

Cerca de duas horas após a ação militar americana o governador da província de Homs, Talal Barazi, reagiu dizendo, na televisão, que esta decisão só serve os propósitos dos terroristas, noticia a Reuters.

Este responsável afirmou que a base aérea em causa era utilizada para apoiar as ações do regime Síria contra o Estado Islâmico. Um incêndio deflagrou na base, que ficou a arder durante mais de uma hora.

Agência síria fala em nove mortos e sete feridos

O governador referiu mais tarde que o ataque matou cinco pessoas: três soldados e dois civis. Em declarações à agência noticiosa Associated Press (AP), Talal Barazi disse também que sete pessoas ficaram feridas.

A agência oficial síria Sana avançou entretanto que o ataque matou nove pessoas, entre as quais quatro crianças. "A agressão norte-americana provocou a morte de nove civis, incluindo quatro crianças, fez sete feridos e provocou importantes estragos em habitações das aldeias de Al-Shayrat, Al-Hamrat e Al-Manzul", próximas da base atacada, escreveu a agência.

O Exército sírio avançou a morte de seis pessoas e danos significativos. Considerou ainda que o ataque constitui uma "agressão flagrante" e que os Estados Unidos se tornaram aliados do Estado Islâmico e de outros grupos terroristas.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH, oposição), com sede em Londres, disse que o ataque matou quatro soldados, incluindo um general.

A televisão libanesa al-Mayadeen, por seu lado, informou que a maioria dos aviões estacionados na base aérea militar atacada haviam sido retirados do local. No entanto, as Forças Armadas russas indicaram que os mísseis norte-americanos sobre a base aérea síria de Shayrat destruiu seis caças sírios estacionados nas instalações e que a pista ficou intacta.

A mesma fonte acrescentou ainda que apenas 23 dos 59 mísseis lançados atingiram aquelas instalações militares sírias.

Rússia considera ataque ilegal

Esta decisão do presidente Trump poderá agravar as suas relações com a Rússia, uma vez que ainda esta quinta-feira o regime de Vladimir Putin afirmara que não havia provas de que Assad tivesse usado armas químicas, dizendo mesmo ser "inaceitável fazer uma acusação infundada sem uma investigação detalhada e imparcial".

O Kremlin já defendeu que o ataque é ilegal e feriu seriamente a relação entre a Rússia e os Estados Unidos. O porta-voz de Vladimir Putin considerou a ação militar "uma agressão contra a soberania de uma nação" a partir de um pretexto encenado" " e uma forma de distrair a comunidade internacional das mortes de civis no Iraque.

"Isto faz lembrar a situação de 2003, quando os EUA e o Reino Unido, com os seus aliados, invadiram o Iraque sem a autorização do Conselho de Segurança" da ONU, disse Serguéi Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo.

Os EUA garantiram, entretanto, que Moscovo foi avisado antes do ataque para evitar que militares russos fossem atingidos. "Os russos foram avisados", disse o porta-voz do Pentágono, Jeff Davis.

Reino Unido apoia

O Governo britânico já manifestou o seu apoio à decisão da administração norte-americana de atacar a base militar síria, tendo considerado a ação "uma resposta apropriada ao bárbaro ataque com armas químicas levado a acabo pelo regime sírio e tem o objetivo de impedir novos ataques".

A França, por seu lado, fez saber que foi informada do ataque com mísseis antes de este acontecer, tendo-o considerado um "aviso" a um "regime criminoso". "O uso de armas químicas é terrível e deve ser punido porque é um crime de guerra", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Marc Ayrault.

O chefe da diplomacia da Alemanha disse que o bombardeamento norte-americano contra a Síria é compreensível mas apelou a uma situação política sobre a égide das Nações Unidas.

Numa declaração conjunta, François Holande e Angela Merkel defenderam que o presidente sírio, Bashar al-Assad, tem a "inteira responsabilidade" pelos ataques norte-americanos "devido ao uso repetido de armas químicas e pelos crimes contra o seu povo".

O presidente da Comissão Europeia revelou num comunicado que a União Europeia foi informada de que os ataques norte-americanos foram limitados e tiveram como objetivo impedir o uso de armas químicas. Juncker reiterou a condenação ao ataque químico e disse "compreender os esforços para impedir mais ataques" deste género.

A China pede para que seja evitada uma "nova deterioração da situação" na Síria, disse hoje a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Por outro lado, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros disse que a República Popular da China opõe-se ao uso de armas químicas em qualquer circunstância.

O Governo de Donald Trump tomou medidas de forma unilateral contra o Governo sírio, que acusa de uso de armas químicas, apesar de conversações estarem a decorrer no Conselho de Segurança da ONU.

Na ONU, os membros do Conselho de Segurança continuam a negociar uma resolução em resposta ao ataque químico, mas até agora o grupo continua muito dividido.

A representante norte-americana, Nikki Haley, já tinha alertado, no dia anterior, que Washington podia tomar algum tipo de medida unilateral se o Conselho de Segurança continuasse bloqueado.

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