Tão rica em petróleo, porque continua a Venezuela às escuras?

Há cinco dias que o país não tem luz elétrica. Para perceber porquê é preciso conhecer o seu sistema energético único, o chamado Sistema Interconectado Nacional.

Em maio de 2008 Hugo Chávez recebia o primeiro-ministro José Sócrates no Palácio Presidencial em Caracas com grande alarido, numa cerimónia que fugia em tudo à formalidade de uma assinatura de protocolos entre a Venezuela e Portugal. O presidente venezuelano gabava-se de o seu país ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo e que esse petróleo era suficiente para trocar por tudo o que a Venezuela precisava: "Petróleo por esparguete! Petróleo por medicamentos", dizia o líder bolivariano, que morreu há seis anos.

Passados menos de 11 anos dessa agitada cerimónia em Caracas, a nação tão rica em recursos energéticos - que chegou a dizer à China que tinha o petróleo que o país precisaria para os próximos 200 anos - está às escuras. Há cinco dias que praticamente todo o país não tem eletricidade e, quando há, é de forma intermitente. Um liga, desliga de energia elétrica que tem aumentado o desespero de uma população já massacrada pela falta de alimentos e outros bens essenciais e que levou igualmente ao aumento dos saques.

O apagão começou na passada quinta-feira, às cinco da tarde (mais quatro em Lisboa) e há cidades como Maracaibo, a segunda maior do país, que já registou 90 horas seguidas sem luz elétrica. O governo decidiu prolongar por mais 48 horas a suspensão das atividades laborais e escolares por falta de luz.

Mas como é que um país rico em recursos energéticos, como o petróleo e hídricos, chega ao ponto de ficar às escuras? O governo do presidente Nicolás Maduro tem uma explicação política - é sabotagem levada a cabo na principal hidroelétrica do país, a Central Hidroelétrica Simón Bolívar, também conhecida como El Guri. Esta versão colide, contudo, com a de alguns especialistas que apontam um incêndio no corredor da principal linha de transmissão de El Guri - a central, localizada a sul, sobre o rio Caroní construída entre 1963 e 1969 e que chegou a ser considerada a maior do mundo depois de uma ampliação concluída em 1986.

Sistema concebido há mais de meio século

Para se compreender o que está a acontecer na Venezuela, é preciso conhecer o seu sistema energético, o chamado Sistema Interconectado Nacional. Ou seja, toda a eletricidade procedente da água e dos combustíveis fósseis converge num único sistema, criado para dar energia a todo o país há mais de 50 anos.

Winston Cabas, presidente da Associação Venezuelana de Engenharia Elétrica Mecânica, descodifica o sistema: a Venezuela dispõe de entre 16 000 a 17 000 megawatts instalados de energia elétrica e um valor aproximado de fonte termoelétrica para um total de cerca de 34 800 megawatts.

"O drama do país é que hoje, com a crise que vivemos, só temos disponíveis entre 12 000 a 13 000 megawatts", adianta.

Dessa capacidade, que estava disponível antes do apagão de quinta-feira, o baixo sistema de Caroní representava 11000 megawatts, o que significa que cerca de 85% do consumo do país dependia de fontes hidroelétricas.

Winston Cabas dá conta ainda que a energia gerada por fontes hidroelétricas no sul era transmitida para o resto do país através de uma das poucas redes existentes no mundo capaz de operar a um nível de extra alta tensão. Ou seja, através de 765 quilovolts que percorrem cerca de 2 300 quilómetros.

Em ternos de geração termoelétrica, a Venezuela conta com cerca de 20 centrais, incluindo a Planta Centro, a maior de toda a América Latina.

O governo de Maduro insiste na versão sabotagem para explicar o facto de o país estar há cinco dias sem eletricidade. Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional e autoproclamado Presidente da Venezuela, recusa esta justificação, lembrando que as centrais elétricas do país estão militarizadas desde 2013 e acusa ainda o governo de ter roubado o dinheiro previsto para investir no sistema elétrico.

O incêndio e as falhas em cadeia

Os peritos nesta matéria apontam por sua vez, a soma de uma série de circunstâncias para o que está a acontecer. Winston Cabas refere, por exemplo, um incêndio que terá ocorrido na quinta-feira na subestação Malena, próxima da central El Guri devido à falta de manutenção e corte da vegetação que faz com que duas das três linhas de 765 kilovolts sobreaqueçam. Resultado: as duas linhas ficaram fora de serviço e causaram uma sobrecarga numa terceira que também deixou de operar.

A partir daí terá havido uma sucessão de acontecimentos, conta o engenheiro à BBC Mundo: foi acionado o sistema de proteção de El Guri, paralisando as máquinas e também uma saída de sincronização de Caruachi; a seguir caiu o sistema hidroelétrico do baixo Caroní, retirando quase 6 000 megawatts ao sistema e ficou operacional apenas a central hidroelétrica de Macagua, que produz 1 1500 megawatts e apenas fornece energia a cidades da parte oriental. O fornecimento de energia ficou assim dependente do sistema termoelétrico, sendo que estas centrais representam apenas 2500 megawatts disponíveis, sublinha Cabas.

Em 2006, Chávez prometeu converter a Venezuela numa potência energética mundial. Mas não tardaram a chegar os problemas com o fornecimento de energia, que levaram mesmo o governo a aprovar um decreto de emergência elétrica para agilizar a compra e reposição de equipamentos e a desenvolver planos para melhorar o funcionamento da rede.

Só que, explica Cabas à BBC, muito desse material foi comprado em segunda mão a governos de países amigos que o repotenciou e vendeu à Venezuela como se fosse novo: "Hoje a Venezuela é um ferro-velho desse tipo de máquinas."

Mão-de-obra qualificada emigrou

Os planos para usar novas fontes de energia hidroeléttica também correram muito mal. Um exemplo: a central de Tocoma cuja construção foi iniciada há mais de uma década, e com os custos a resvalarem dos 3 000 milhões de dólares inicialmente previstos, para quase 10 mil milhões em 2015, produziu zero. Estava prometida a produção de 21000 megawatts.

Falharam igualmente os planos de desenvolvimento eólico nas penínsulas de Paraguaná e Guajira, que deveriam produzir 300 megawatts mas não o fazem. A isto soma-se a queda da indústria petrolífera, já que a PDVSA não está a produzir o diesel e o gás que as centrais precisam para operar, e ainda a falta de pessoal - a crise levou a que 50 a 60% da mão de obra qualificada do setor emigrasse.

E a falta de pessoal torna também difícil a reativação do sistema integrado já que, segundo o especialista ouvido pela BBC, isso terá de ser feito manualmente ao longo da rede com mais de dois mil quilómetros. As subestações terão de ser reativadas uma a uma e isso levará muito tempo.

Até quando a Venezuela ficará às escuras?

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