O telefone português que ajudou a Bósnia a nascer

Amanhã celebra-se o 20.º aniversário da assinatura dos Acordos de Dayton, o compromisso político que em 1995 pôs fim à guerra na Bósnia e Herzegovina.

Arifa Sokolija queria telefonar-lhes. Precisava de saber notícias da filha e do neto. Teriam conseguido chegar? Estariam vivos? Já mais de 15 dias tinham passado desde que Edina e o marido haviam fugido de Sarajevo, atravessando o túnel escavado por debaixo do aeroporto e levando com eles Kerim, de apenas 19 meses. Queriam chegar a Munique, cidade onde viviam os sogros de Edina, e deixar para trás a guerra. Os riscos de partir eram muitos. Mas ficar deixara de ser uma opção.

As bombas, lançadas pelo exército sérvio a partir das colinas que envolvem Sarajevo, continuavam a cair todos os dias no centro da cidade. Além disso, havia os atiradores furtivos, que escolhiam os alvos de forma aleatória e disparavam para matar. A morte podia entrar-lhes casa adentro a qualquer momento. Ou estar à espreita na esquina seguinte. Conseguir água e comida era também uma luta diária.

Um telefone no museu

No Museu Histórico de Sarajevo, na ampla sala onde se conta a história do conflito que assolou a cidade entre 1992 e 1995, há uma peça que salta à vista pelas dimensões. Trata-se de um telefone por satélite que esteve instalado no gabinete do então membro da presidência da Bósnia, Ejup Ganic, e que, durante alguns meses, foi a única via de contacto do país com o resto do mundo.

Numa observação mais cuidada dois detalhes chamam a atenção. Uma pequena etiqueta, já meio descolada, na qual se lê property of the portuguese government; e uma placa com o nome e a morada da empresa que comercializou o aparelho: Omnitécnica, Estrada de Alfragide, 2700 Amadora.

Depois de várias tentativas para conseguir marcar uma entrevista, Ejup Ganic - que hoje é reitor de uma universidade em Sarajevo - aceitou por fim falar com o DN. O tempo para o encontro, porém, estava contado: "O professor tem 20 minutos livres para conversar convosco", informou a assistente. Todavia, assim que percebeu que o telefone português era o motivo da audiência, Ganic baixou as defesas. "Tocou-me no ponto fraco", disse, ao mesmo tempo que recostou as costas no sofá. "Esse telefone por satélite desempenhou um papel histórico. Foi absolutamente determinante a vários níveis. Depois de os sérvios terem bombardeado o edifício dos correios e de cortarem as vias de comunicação, foi o nosso único meio de contacto com o exterior. A 22 de maio de 1992 a Bósnia e Herzegovina foi admitida na ONU, mas isso obrigou a uma grande campanha diplomática, implicou falar com muitos países. Todos esses contactos fiz através do telefone português. No fundo, foi a chave para a nossa admissão nas Nações Unidas. Teve um papel histórico na independência da Bósnia."

Durante a guerra o telefone ficou instalado no gabinete de Ganic na sede da presidência. "Como no edifício existe uma espécie de pátio interior, foi possível colocar aquela parte do guarda-chuva do lado de fora da janela, a apontar para o céu, sem que ninguém a visse. O inimigo não sabia que nós tínhamos o aparelho e, mesmo que soubesse, não conseguiria intercetar as conversas. Também foi determinante para manter o país vivo. Foi através dele que negociámos a compra e a entrada de muito material de guerra e de bens de primeira necessidade", explica, entusiasmado, o agora reitor universitário.

Mas o serviço que o telefone português prestou à Bósnia não se limitou ao aspeto diplomático e militar. Para muitas famílias serviu também para contactar os familiares que tinham saído de Sarajevo. "As pessoas ligavam para as crianças e choravam quando ouviam as vozes delas do outro lado. Para algumas mães e pais foi o primeiro contacto que tiveram com os filhos em seis meses ou um ano. Penso que talvez 200 famílias tenham usado o telefone", recorda Ganic.

Mirko Pejanovic, professor na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Sarajevo e que durante o conflito também fez parte da presidência, confirma as palavras do colega dos tempos da guerra. "Sim, o telefone foi muito importante a nível diplomático, mas também numa dimensão humana. Ganic permitiu que muita gente o utilizasse para contactar com os familiares. Eu fui um deles. A minha mulher e os meus filhos tinham saído de Sarajevo e estavam em Génova, em casa de uma tia. Foi através do telefone que tive possibilidade de comunicar com eles. Em tempo de guerra e nas condições em que vivíamos, foi de uma importância determinante a nível psicológico."

Avó em tempo de guerra

Sentada a uma das mesas da cafetaria do Hotel Europa, no centro de Sarajevo, Arifa vai desfiando as memórias. Foi em 1960 que ela e o marido se mudaram para a capital. Ele era comerciante na indústria da carne e ela trabalhou durante longos anos na cozinha da câmara municipal. Tiveram três filhas. Suada, a mais velha, nascida em 1962, já vivia na Áustria quando a guerra começou. Mas Edina, seis anos mais nova do que a irmã, e Aisa, que tinha apenas 20 anos no início do conflito, viviam em Sarajevo com as respetivas famílias.

Houve momentos em que a morte esteve muito perto da família Sokolija. Com o início da guerra, Arifa e o marido deixaram a casa de família onde viviam na colina de Sedrenik, demasiado próxima da linha da frente, e ocuparam um apartamento no centro da cidade. "Uma bomba caiu entre o nosso prédio e o prédio ao lado. As janelas do apartamento debaixo do nosso ficaram completamente partidas. Felizmente nada nos aconteceu." Foi em plena guerra que se tornaram avós. Kerim nasceu numa cidade cercada a 13 de janeiro de 1994. Quando ele e Edina se foram embora para nós foi terrível. Éramos muito chegados ao menino."

"O que seria feito desse telefone?"

Ejup Ganic viu pela primeira vez o telefone por satélite numa visita aos monitores portugueses que estavam em Sarajevo integrados na missão de observação da então CEE. Num momento em que já era previsível que o exército sérvio viesse a cortar as comunicações internacionais, antecipou a importância que o aparelho poderia representar. Mais tarde, "talvez a 5 ou 6 de maio" - já depois de o edifício central dos correios ter sido destruído -, enviou dois dos guarda-costas para confiscar o telefone. "Dei-lhes um recibo para entregarem aos militares portugueses. No fundo era um documento que lhes permitiria justificar o facto de terem deixado para trás o telefone. Eles já estavam a fazer as malas para se irem embora, quando os meus guarda-costas foram lá e trouxeram o aparelho."

Neste ponto da narrativa as versões divergem. "O senhor Ganic está a contar mal a história", afirma perentório Joaquim Cuba, um dos quatro observadores portugueses presentes em Sarajevo em 1992, hoje já reformado. "Lembro-me de que houve conversas entre nós sobre se devíamos ou não deixar o telefone. No final terá sido o chefe do centro a decidir, mas ele já morreu. De qualquer forma, para ter tomado essa decisão, é porque muito provavelmente já teria recebido uma autorização superior. Nós saímos de Sarajevo a 12 de maio e só na véspera é que entregámos o telefone", explica Cuba.

José Trigueiros, outro dos militares portugueses em Sarajevo, corrobora a versão do colega. "Não me recordo ao certo de como tudo se passou, mas só deixámos o telefone porque houve autorização. Essa autorização veio provavelmente do governo português." Contactado pelo DN, o embaixador João Salgueiro - nomeado chefe de missão pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros João de Deus Pinheiro - confessa que não tem memória dos factos. "Lembro-me de muitas coisas e de muitos episódios, mas não me recordo sequer da existência desse telefone. Afinal já passaram quase 25 anos."

Outro detalhe que Trigueiros põe em causa é a hipótese de terem sido os homens de Ganic a ir buscar o telefone: "Estávamos sitiados num território controlado pelos sérvios e nessa altura os combates já eram ferozes. De certeza que foi um de nós a ir entregar o aparelho. É possível que tenha sido o tenente-coronel Soares dos Santos, mas ele infelizmente já morreu. O que me recordo é de eu próprio ter escrito em inglês um papel com instruções para que eles pudessem trabalhar com aquilo."

Mais de duas décadas volvidas, é com agrado que Joaquim Cuba puxa atrás as memórias. "Palavra de honra que muitas vezes me perguntei o que seria feito desse telefone", confidencia, num café junto ao Tejo, em Vila Nova da Barquinha, a terra onde hoje vive. "Não fazia ideia de que estava num museu."

Tudo bem do outro lado da linha

Tudo o que Arifa queria era telefonar-lhes. Precisava de saber notícias da filha e do neto. Há mais de 15 dias que tinham partido. Foi então que se lembrou de perguntar ao amigo Safet Kapo, que colaborava de forma muito próxima com Ejup Ganic, se haveria alguma forma de entrar em contacto com Edina. Ele disse que sim. Já tinha caído a noite no dia em que os dois se deslocaram ao edifício da presidência. "Estava cheia de medo. Aquela era uma zona onde os bombardeamentos eram constantes", conta Arifa. Kapo encaminhou-a até ao gabinete de Ganic onde estava instalado o telefone. Teclou o número dos sogros de Edina, em Munique, e pouco depois ouviu-se a voz da filha do outro lado da linha. "Não me lembro do que dissemos. Só sei que no meio da excitação e do medo estávamos muito contentes por termos notícias uma da outra." Arifa não sabe precisar a data exata em que tudo se passou. Só telefonando à filha para avivar a memória. Mas agora as comunicações são mais simples. Abre a mala, pega no telemóvel e em poucos segundos tem a resposta: "Foi em outubro de 1995." Dois meses depois, a 14 de dezembro, seriam assinados os Acordos de Dayton e a paz chegaria à Bósnia e Herzegovina - um país que nasceu com a ajuda de um telefone por satélite português.

Entrevistas realizadas com a ajuda da intérprete Selma Baltic.

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