O gasoduto da discórdia que Trump usou contra Merkel na cimeira da NATO

Nesta cimeira da NATO, em Bruxelas, Donald Trump tirou vários coelhos da cartola. Um foi exigir que os aliados gastem 4% do PIB em Defesa - em vez de 2% - o outro foi criticar o projeto do Nord Stream 2, gasoduto que vai ligar a Rússia à Alemanha e permitirá importar 55 mil milhões de m3 de gás por ano

"Acho que é muito triste ver a Alemanha fazer um acordo com a Rússia sobre importação de gás. Quando é suposto nós estarmos vigilantes e nos defendermos em relação à Rússia, a Alemanha vai pagar milhares de milhões por ano à Rússia", disse esta quarta-feira o presidente dos EUA, em Bruxelas, num pequeno almoço com o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg . E acusou o país de Angela Merkel de estar sob controlo do regime russo de Vladimir Putin. "A Alemanha está refém da Rússia porque importa de lá uma grande parte da sua energia".

Sem se referir diretamente a Donald Trump, a chanceler alemã afirmou, à entrada para a cimeira: "Dadas as circunstâncias eu quero lembrar que eu própria vivi sob a ocupação soviética de uma parte da Alemanha [ex-RDA]. Hoje em dia é bom que possamos tomar as nossas decisões de forma independente. Nós conduzimos as nossas próprias políticas". Merkel, que ultimamente tem surgido bastante fragilizada a nível político por causa das divisões internas no seu governo sobre a forma de gerir os fluxos migratórios na Alemanha e na União Europeia, sublinhou que os alemães têm contribuído muito para a NATO.

Depois disto, a chanceler alemã e o presidente norte-americano reuniram-se, num encontro bilateral. "Foi uma ótima reunião. Debatemos as despesas em Defesa e o comércio. Temos uma excelente relação",afirmou Trump, que ao referir a questão do Nord Stream 2 está a surgir numa posição de apoio à Polónia, um dos países do antigo Pacto de Varsóvia, que é membro da Aliança Atlântica desde 12 de março de 1999.

As obras do gasoduto Nord Stream 2 já foram lançadas, na zona alemã do Báltico, estando a conclusão prevista para 2019. O custo está calculado em cerca de 10 mil milhões de euros e a entrada em funcionamento prevista para 2020. Quando estiver a funcionar o gasoduto trará 55 mil milhões de m3 de gás por ano da Rússia até à Alemanha. O projeto atravessa outros países, como a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca. Além da Polónia, estão contra os Estados Bálticos e a Ucrânia. No passado, os ucranianos sofreram cortes de gás, como forma de retaliação pela aproximação do país à UE e à NATO. O gasoduto sairá de Ust-Luga na Rússia, atravessará o Báltico, até chegar terminar em Greifswald, na Alemanha.

Em entrevista ao DN, no final de maio, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus polaco, Konrad Szymanski, criticou uma grande contradição por parte do governo alemão no que toca à forma de lidar com a Rússia, pois enquanto uns países expulsavam diplomatas russos por causa do envenenamento do ex-espião Sergei Skripal no Reino Unido, Berlim aprovava a construção do Nord Stream 2. Aconteceu no final de março.

"O Nordstream 2 é um mau exemplo, porque significa que, no fim de contas, seremos dependentes da Rússia, no que respeita a nível de importação de energia. A concorrência será limitada nesta parte do mercado também. Com este tipo de políticas estamos a fazer algo contraditório. Mas, no caso da Alemanha, não é nada de novo. Claro que Angela Merkel tem tido um papel positivo nas sanções contra a Rússia. Mas o Nordstream2 vai contra os interesses europeus", disse Szymanski ao DN, falando do gasoduto que pertence à estatal russa Gazprom e cujo presidente do conselho de Administração é o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder. Schroeder é do SPD. Merkel da CDU.

"O Nord Stream 1 o que fez foi ajudar a Rússia a modernizar o seu exército, atacar a Geórgia, depois a Ucrânia e a violar o direito internacional. O Nord Stream 2 o que vai fazer é ajudar a Rússia a prosseguir a sua política revisionista. A questão é saber o que é que nós vamos fazer em relação a isso", declarou esta quarta-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Jacek Czaputowicz, numa conferência que antecedeu o início da cimeira. E na qual, segundo o EUObserver.com, também participou a ministra da Defesa da Alemanha Ursula von der Leyen.

O chefe da diplomacia do governo conservador polaco, referiu o mesmo site especializado em assuntos europeus, voltou a reafirmar a disponibilidade de Varsóvia em albergar uma base militar dos EUA na Polónia. Ideia que desagrada à Rússia e já levou o regime de Putin a avisar que uma tal base militar seria encarada como uma ameaça à Rússia.

"Temos já uma base militar da NATO na Polónia. Queremos ser parte desta arquitetura de segurança da NATO. A Rússia provou, fortemente, que é uma ameaça à segurança europeia nestes últimos dez anos. Há boas razões para adaptar a NATO a esta situação. É preciso ação no Norte de África e no Médio Oriente e também a Leste, por causa da Rússia. A readaptação da NATO não seria provavelmente necessária se Rússia tivesse decidido ser um parceiro construtivo, mas decidiu ser outra coisa. Guerra contra a Geórgia, contra a Ucrânia, disputas comerciais com países vizinhos são desenvolvimentos negativos", declarou ao DN o secretário de Estado dos Assuntos Europeus polaco.

Em maio, refutando as críticas ao Nord Stream2, o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder afirmou: "Ainda não ouvi uma razão racional para a resistência de Bruxelas. Parece, no entanto, diplomaticamente falando, que por trás dessa resistência estão interesses económicos específicos, interesses de alguns governos europeus, dos países vizinhos e, é claro, os interesses económicos de empresas concorrentes que estão envolvidas. E também os interesses económicos dos Estados Unidos, que muito claramente e por qualquer motivo, expressaram a sua oposição ao projeto".

Reagindo esta quarta-feira às críticas que Trump disparou contra Merkel, a Comissão Europeia considerou, pela voz do comissário Valdis Dombrovskis, que "a retórica [de Trump ] não ajuda", assegurando que Bruxelas irá garantir que o gasoduto - a ser construído - funcionará de modo transparente e com o nível apropriado de supervisão.

Dos EUA, veio uma crítica ainda mais contundente a Trump, feita pelo ex-secretário de Estado de Obama, John Kerry. "Nunca vi um presidente dizer coisas tão contraproducentes como as que o presidente Trump disse contra a Alemanha na NATO. Foi lamentável, destrutivo e funciona como boomerang contra os interesses atuais dos EUA. O presidente Trump transforma publicamente em adversários os nossos amigos e os nossos adversários, que atacam a democracia americana, em amigos", declarou o antigo chefe da diplomacia dos EUA em comunicado divulgado esta quarta-feira aos media em Washington.

Do lado português, em Bruxelas, o primeiro-ministro António Costa desvalorizou as afirmações de Trump. "Já todos nós, na nossa vida, tivemos colegas que têm um comportamento algo diferenciado, relativamente àquilo que é o padrão comum, mas não devemos valorizar isso especialmente", disse, aos jornalistas em Bruxelas, o chefe do governo português.

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