"Magalhães é o homem corajoso, capaz de assumir riscos, que paga com a vida a sua ousadia"

Entrevista à historiadora uruguaia Ana Ribeiro, que esteve em Lisboa para proferir a conferência Magallanes y el Rio de la Plata, integrada na Segunda Semana do Uruguai em Portugal.

Qual a importância de Fernão de Magalhães para o Uruguai?

Até agora o que se sabia era que foi o homem que protagonizou a façanha da primeira viagem de circum-navegação, a comprovação da esfericidade da Terra, a comprovação da continentalidade da América. E isso era importante também para os uruguaios. Magalhães é o homem corajoso, capaz de assumir riscos, que paga com a vida a sua ousadia. Este quinto centenário da viagem tem, porém, a enorme vantagem de ajudar a repensar o que se passou no século XVI. E os historiadores uruguaios começaram a procurar e descobriram uma série de factos que nunca aparecem na meia página dos livros escolares que é dedicada a Magalhães. É a este português que se deve indiretamente a forma como foi denominada a cidade de Montevideu. Monte Vi Eu, Monte Vidi e outras formas surgiram em relatos da tripulação, referindo-se à hoje capital uruguaia. Julga-se também ter sido ele a dar o nome de Rio da Prata, pois como os indígenas que se aproximam trazem pequenos pedaços de prata e os põem no peito e fazem sinal de que há mais rio acima, isso desperta a cobiça, que era uma das características dos navegadores e conquistadores, a apropriação das novas terras que avistavam. Assim, há cronistas que datam desta expedição a origem tanto do nome Montevideu como do Rio da Prata.

Mas Magalhães não é o primeiro europeu a visitar o Rio da Prata. Já antes Juan Díaz de Solís o tinha feito, tal como o italiano Américo Vespúcio, nesse caso ao serviço de Portugal.

Sim, mas Solís foi assassinado e comido no Rio da Prata. E para a expedição de Magalhães este era um fantasma, não queria que tal se repetisse. E esse receio da tripulação exige a Magalhães ainda maior coragem para a convencer a avançar para sul, em busca da passagem que podia ser o Rio da Prata, o rio largo como era então referido. Antes tinham estado no Rio de Janeiro, onde tudo tinha sido fantástico. O clima é maravilhoso e a expedição foi recebida com fruta e carne oferecida pelos índios. Houve trocas estranhas, uma cascavel por um saco de batatas, panos por três galinhas, uma faca por três raparigas bonitas e para toda a vida, as quais Magalhães não deixou subir a bordo. Não queria nada que se parecesse com a escravatura porque estava em território português e tinha ordens de Espanha para não criar problemas entre as duas coroas. Por isso, imagine-se o espírito dos marinheiros, que não querem abandonar aquele paraíso tropical, quando começam a avançar para sul e para águas cada vez mais frias e cada vez mas difíceis de navegar. Isso exigia coragem. Encontrar o estreito era comprovar a continentalidade da América, já indiretamente feita por Balboa quando descobre aquilo a que chama o Mar do Sul.

Há um momento em que Magalhães pensa que o Rio da Prata pode ser a passagem tão procurada entre o Atlântico e o novo oceano a que chamou Pacífico, certo?

Impressionado com a largura tão grande do Rio da Prata, manda-o medir. E chega a pensar que pode ser a passagem. A dúvida, porém, que o fazia hesitar era ser água doce a que se encontrava quanto mais se avançasse. Mas manda explorar tudo, até que chegam à foz do rio Uruguai e assim se dão conta de que ali se estreitava e era só um rio, ou vários rios, pois há também o Paraná. E voltam para trás. É o trecho em que Magalhães volta para trás. No resto da viagem, é sempre com ordem para seguir em frente. Mas não desistem da expedição. Seguem ao largo da Patagónia e é quando o frio aperta impressionante e os alimentos começam a escassear que muitos dos marinheiros pedem a Magalhães que por favor desista. E dá-se o primeiro grande motim, em resposta ao qual Magalhães demonstra uma capacidade de comando implacável. Mata e esquarteja os cabecilhas para mostrar quem manda. E se não mata o sacerdote e o nobre implicados, pois têm muitas proteções na corte, deixa-os em terra, condenados à pior da mortes, expostos ao frio e à fome, rodeados por populações hostis selvagens. Assim, a etapa a seguir ao Rio da Prata é um prólogo do muito que viria a seguir, da exigência cada vez maior aos tripulantes para que a missão possa prosseguir.

Falou da capacidade de liderança de Magalhães. Tem seguido a pequena polémica entre alguns em Espanha e outros em Portugal sobre o mérito da expedição? Que foi obra de Espanha 100%, dizem uns, que foi obra de um português 100%, respondem outros.

A polémica que surge neste momento entre Espanha e Portugal sobre a expedição de Magalhães é absolutamente absurda e mesquinha. Nós, os historiadores, temos a obrigação de ver as coisas com a complexidade que tiveram. E a complexidade passa por cima desses compartimentos estanques que são os Estados nacionais e que, perante o tão complexo que é a vida, não representam quase nada. A expedição contava com homens de muitas nacionalidades. E o sucesso não seria possível sem Magalhães, nem depois sem Juan Sebastián Elcano, também sem o último dos grumetes. Foi necessário o esforço de todos. Foi necessária também a competição entre as duas coroas ibéricas. Estavam a delimitar fronteiras planetárias, numa época em que o conhecimento geográfico do mundo era ainda escasso. A expedição de Magalhães não merece as rivalidades mesquinhas de bandeira hoje existentes. Somos contra o uso político do passado.

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