O que diz Kasparov de Putin? É como a mafia de Don Corleone

Livro do antigo campeão de xadrez editado em Portugal

O antigo campeão do Mundo de xadrez Garry Kasparov alerta, no livro "O Inimigo que Vem do Frio", para a passividade das lideranças do Ocidente ao lidarem com o regime russo de Vladimir Putin, que apelida de "mafia".

A edição portuguesa do livro de Kasparov (da editora Clube do Autor) aparece com o subtítulo "Os riscos da liderança russa e a grande ameaça à paz no mundo ocidental". Na edição em língua inglesa o subtítulo vai mais direto ao ponto que o autor quer transmitir: "Why Vladimir Putin and the enemies of the free world must be stopped" (Por que é que Vladimir Putin e os inimigos do Mundo Livre têm de ser travados).

Tal como o subtítulo da edição inglesa indica, Kasparov analisa como se tivesse um tabuleiro de xadrez pela frente: a identificação dos "bons" e dos "maus" é tão clara como a diferença entre as brancas e as pretas. No seu livro - em colaboração com o jornalista nova-iorquino Michael "Mig" Greengard - o ex-campeão do Mundo não só acredita que todas as peças se movem de acordo com regras específicas, como se oferece para as explicar.

Assim, em "O Inimigo que Vem do Frio", Kasparov (Baku, 1963) faz o seu relato histórico sobre a forma como a liderança (bem intencionada, mas ineficaz) de Boris Ieltsin e do seu sucessor no Kremlin, Vladimir Putin, torpedearam a legítima vontade do povo russo de viver numa sociedade democrática no pós-União Soviética

Para Kasparov, Ieltsin tentou, ainda que de forma inadequada, estabelecer uma democracia. Critica-o, sim, por não ter sido tão ambicioso na aplicação de reformas políticas e económicas como foi Vaclav Havel na Checoslováquia (dividida, pacificamente, em República Checa e Eslováquia).

"Ieltsin falhou o derradeiro e mais importante dos testes. As frágeis estruturas democráticas que ele permitira que se formassem não suportaram a necessidade do homem de poder e de segurança. Ieltsin não foi capaz de criar instituições duradouras. A estrutura dependia da sua liderança e as liberdades existentes só ali estavam porque ele as permitia", escreve Kasparov (página 127).

Pelo contrário, sublinha, Putin esforçou-se por implantar na Rússia um sistema que visou desde o primeiro momento, e de forma inexorável, a autocracia russa que existe hoje.

"Havia caos, mas Ieltsin nunca atacou as liberdades individuais. Putin desenvolveu, com grande êxito, toda a sua presidência para que fosse o oposto dos anos de Ieltsin. Todo o governo ficou sob o controlo direto do presidente. O parlamento tentou derrubar Ieltsin por duas vezes; agora, não passa de um teatro de fantoches. A corrupção dos oligarcas mudou-se para o interior do Kremlin, onde cresceu para níveis estarrecedores", considera o xadrezista (pag. 128).

Para o antigo campeão de xadrez, este caminho seria menos inexorável se as sucessivas lideranças no Ocidente - essencialmente dos Estados Unidos, mas não só - tivessem feito algo para travar Putin.

Kasparov deixa o leitor com poucas dúvidas sobre que considera "culpados" por esta situação: todos os presidentes norte-americanos que sucederam a Ronald Reagan (republicano, 1981-1989). No mundo de peças pretas e peças brancas de Kasparov, Reagan foi o único que percebeu o real problema, ao apelidar a União Soviética de "o Império do Mal".

Todos os que lhe seguiram (George Bush, Bill Clinton, George W. Bush e Obama) falharam - por omissão ou por decisão política consciente. Porquê? Porque tentaram normalizar as relações com a Rússia em vez de exigir extensas reformas para promover os valores da democracia e do capitalismo. Barack Obama e Bill Clinton (democratas) são especialente visados, mas também o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder ["Schröder não se limitou a entrar para uma empresa russa (a Gazprom); ele entrou para a administração Putin" (pag. 204)].

"Tanto em 2008 como hoje há capitalistas e nacionalistas a gerir o Kremlin e o Congresso Nacional Chinês, em vez de ideólogos comunistas. Eles não representam as ameaças existenciais enfrentadas pelos presidentes Truman, Kennedy e Reagan. Não obstante, Obama continua relutante em enfrentar os inimigos da democracia para defender os valores que ele apregoa de forma tão convincente nos seus discursos", realça Kasparov (pag. 235).

Para Kasparov, "só os tolos" ou os que são "beneficiados pelo regime" fingem não perceber a natureza do presidente russo.

O ex-campeão de Xadrez considera que a natureza de Vladimir Putin é a de Don Corleone, a personagem principal da saga "O Padrinho", de Mario Puzo. Ao fazê-lo, sintetiza tudo o que pensa sobre o atual regime russo

"Um admirador de Puzo vê o governo de Putin com mais precisão: a hierarquia rígida, a extorsão, a intimidação, uma imagem de duro, uma longa sequência de mortes convenientes entre os principais críticos, eliminação de traidores, o código de sigilo e lealdade, e, acima de tudo, um mandato para manter a entrada de receitas. Por outras palavras, uma máfia", conclui (pag. 201).

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