Apple armazena dados na China. Amnistia Internacional preocupada

Serviço de armazenamento da empresa, o "iCloud", passa a ser operado por parceira local, possibilitando às autoridades do país acesso ao conteúdo dos utilizadores

O serviço de armazenamento da Apple, o "iCloud", na China, passa a partir desta quarta-feira a ser operado por uma empresa chinesa, possibilitando às autoridades do país ter acesso ao conteúdo dos utilizadores, advertem organizações internacionais.

O "iCloud" na China é agora operado por um parceiro local, o Guizhou-Cloud Big Data Industry (GCBD). Esta mudança implica que todos os dados que sejam armazenados naquele serviço na China - incluindo fotos, vídeos, documentos e cópias de segurança - estarão sujeitos a novos termos e condições.

"Quando as autoridades solicitarem informação ao GCBD sobre um utilizador do 'iCloud', para efeito de investigação criminal, a empresa terá a obrigação legal de partilhar o conteúdo", alerta a Amnistia Internacional (AI), em comunicado.

Apesar de a Apple gozar de boa reputação na defensa da privacidade e segurança, sobretudo depois de em 2016 ter apelado a uma ordem judicial de um tribunal norte-americano, que permitia ao FBI invadir a segurança dos telemóveis, na China a situação é diferente.

O gigante tecnológico americano foi criticado por bloquear o acesso dos utilizadores chineses a aplicações de mensagens instantâneas, como o Whatsapp, ou de eliminar da Apple Store as VPN, um mecanismo que permite aceder à internet através de um servidor localizado fora da China, contornando assim a censura do regime.

Estas mudanças "são o sinal mais recente de que o aparelho repressivo legal da China está a tornar difícil à Apple manter os seus compromissos com a segurança e privacidade dos utilizadores", escreve a AI.

A organização afirma que o Governo chinês tem agora acesso praticamente ilimitado aos dados dos usuários armazenados dentro do país, que "carece de uma proteção adequada aos direitos à privacidade, liberdade de expressão e outros direitos humanos fundamentais".

"A polícia chinesa desfruta de amplos poderes discricionários, e aplica leis e regulamentos amplos e ambiguamente articulados para silenciar a dissidência, restringir ou censurar informação e perseguir e processar os defensores dos direitos humanos, e outros, em nome da 'segurança nacional' e outros supostos crimes", escreve. Isto leva a que internautas chineses "possam ser detidos e presos simplesmente por difundir, comunicar ou aceder a informação e ideias que as autoridades não aprovam", acrescenta a AI.

Aprovadas em 2017, as novas regulações do país exigem que as empresas armazenem todos os dados de utilizadores chineses dentro da China. A Apple informou os seus clientes sobre a alteração que hoje entra em vigor, justificando com a necessidade de "cumprir com as normativas chinesas". A China é o terceiro maior mercado da Apple, a seguir aos Estados Unidos e Europa.

A censura chinesa bloqueia sites como o Facebook, Youtube e Google. As versões eletrónicas de vários órgãos de comunicação estrangeiros também estão bloqueadas no país, enquanto comentários nas redes e espaços de discussão 'online' são sujeitos ao controlo das autoridades.

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