Ao volante de um camião, Putin inaugura ponte da Crimeia criticada pela UE

Bruxelas denuncia "nova violação da soberania" da Ucrânia. Anexação da península pelos russos, em 2014, não foi reconhecida

A Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, perdeu ontem o título de maior da Europa, com a inauguração da ligação entre a Rússia e a península ucraniana da Crimeia, anexada pelos russos em 2014. O presidente Vladimir Putin inaugurou o trajeto de 19 quilómetros, ao volante de um camião cor de laranja, ignorando as críticas da Ucrânia contra a "construção ilegal" e o "desrespeito pela lei internacional". A União Europeia, que não reconheceu a anexação da Crimeia, condenou a "nova violação da soberania" ucraniana.

"Em vários momentos da história, mesmo nos tempos do czar, as pessoas sonhavam com a construção desta ponte. Tentaram nos anos 1930, 1940 e 1950 e finalmente, graças ao vosso trabalho e ao vosso talento, este projeto, este milagre aconteceu", disse Putin já na Crimeia, onde foi recebido com aplausos pelos trabalhadores. "Dez mil pessoas trabalharam nesta construção, 15 mil nos momentos de maior trabalho. Quase 220 empresas estiveram envolvidas. De facto, todo o país trabalhou nisto. O resultado é magnífico. Torna a Crimeia e a lendária Sebastopol mais fortes e aproxima-nos a todos", referiu.

A construção da ponte que cruza o estreito de Kerch custou três mil milhões de euros

A construção da ponte que cruza o estreito de Kerch custou três mil milhões de euros. Os trabalhos começaram em 2015, um ano depois de os cidadãos da Crimeia (a maioria de origem russa) terem aprovado em referendo o fim da ligação da república autónoma à Ucrânia e a anexação à Rússia (o território tinha sido russo entre 1783 e 1954). A votação ocorreu após a revolução ucraniana, que colocara um governo antirrusso no poder em Kiev, e de forças nacionalistas pró-russas (apoiadas pelas forças especiais) terem assumido o controlo da Crimeia.

Para Moscovo, a ponte permitirá reduzir o isolamento geográfico e económico da região. Após a anexação, não reconhecida internacionalmente, a Ucrânia impôs um bloqueio e seguiram-se as sanções internacionais. Desde então, a maior parte dos alimentos vem da Rússia de ferry, dependendo por isso das condições meteorológicas, ou de avião, que encarece os produtos.

O presidente russo inaugurou ontem a primeira parte do projeto, a ponte rodoviária, devendo a segunda parte, ferroviária, ficar pronta em 2019. Apesar de Putin ter atravessado a ponte num camião Kamaz (fabrico russo), seguido de duas dúzias de outros camiões, betoneiras e gruas, nos próximos meses o transporte de mercadorias ainda não é permitido por segurança. A ponte só devia ser inaugurada em dezembro mas, em março, antes das presidenciais russas, Putin visitou as obras pedindo que a inauguração fosse antecipada, dizendo ser importante ter uma ligação à península antes da época turística.

O presidente ucraniano, Petro Porochenko, reagiu de imediato. "A construção ilegal da ponte é a última prova do desrespeito do Kremlin pelas leis internacionais", disse, considerando "particularmente cínico" que esta ocorra na véspera do aniversário da deportação dos tártaros da Crimeia por Estaline. Já o chefe da diplomacia, Pavlo Klimkin, disse que esta é uma ponte "entre a Crimeia ocupada onde as pessoas estão a desaparecer e são intimidadas, e a Rússia, onde 1600 pessoas podem ser presas num dia por protestos pacíficos. Ambos os lados da ponte levam a lado nenhum". Ainda ontem o líder da oposição russo, Alexei Navalny, foi condenado a 30 dias de prisão por organizar os protestos de 5 de maio contra Putin.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.