Aliados fazem frente comum à Rússia

EUA, França e Alemanha juntam-se ao Reino Unido na acusação contra Moscovo no caso do ex-agente duplo Skripal

A França, a Alemanha e os Estados Unidos juntaram-se ontem ao Reino Unido e, em comunicado conjunto, condenaram a tentativa de assassínio do ex-agente duplo Sergei Skripal e responsabilizaram a Rússia pelo sucedido, a "única explicação plausível". Vladimir Putin mostrou "enorme preocupação", enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros confirmou que Moscovo irá responder na mesma moeda à expulsão de 23 diplomatas.

Um dia após Theresa May ter acusado o Estado russo pelo envenenamento de Skripal e da filha, os aliados de peso cerraram fileiras e subscreveram a tese do governo britânico. "O uso de um agente nervoso de tipo militar, de um género desenvolvido pela Rússia, é o primeiro uso ofensivo de um agente neurotóxico na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. É um ataque à soberania britânica, e qualquer ação desse Estado signatário da Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas (CPAQ) é uma clara violação dessa convenção e do direito internacional. É a nossa segurança geral que está ameaçada", declaram Theresa May, Angela Merkel, Emmanuel Macron e Donald Trump. Os quatro dirigentes apelam para as autoridades russas fornecerem à CPAQ toda a informação sobre o programa Novichok.

Em poucas horas, Paris trocou as cautelas pela culpabilidade russa. Na quarta-feira, o porta-voz do governo Benjamin Griveaux apelou para não se fazer "ficção política sobre assuntos tão graves e sensíveis", tendo reservado qualquer resposta após "conclusões definitivas". Ontem, após conversa mantida entre o presidente francês e a chefe do governo britânico, o Eliseu explicou em comunicado ter recebido "provas da responsabilidade da Rússia no ataque". Macron deixou para mais tarde o anúncio de represálias. Mas na inauguração do Salão do Livro, na qual o convidado deste ano é a Rússia, o presidente optou por boicotar a visita ao pavilhão russo.

Também o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, reafirmou a solidariedade da NATO perante o ocorrido, que se insere num "padrão temerário de comportamento russo ao longo de muitos anos". O norueguês deu como exemplos a mistura de armas nucleares e convencionais em doutrina e exercícios militares, o que reduziu o limiar para o uso de armas nucleares; o uso crescente de "táticas híbridas", como soldados sem insígnias; a anexação da Crimeia; o apoio aos separatistas na Ucrânia; a presença militar na Moldávia e Geórgia; a ingerência nas eleições ocidentais; e o envolvimento na guerra na Síria. A Rússia "apagou a linha entre a paz, a crise e a guerra", lamentou.

Em visita a Salisbury, a cidade em que Sergei e Yulia foram encontrados em estado grave num banco de jardim, a primeira-ministra Theresa May elogiou a união dos aliados e anunciou o investimento de 54 milhões de euros num centro de defesa de guerra química no laboratório militar de Porton Down. Foi aí que cientistas identificaram o agente nervoso usado contra Skripal. Acontece que, segundo o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Ryabkov, citado pela Interfax, nem a Rússia nem a União Soviética tiveram um programa de desenvolvimento do Novichok. Moscovo repete que só perante uma amostra da substância em causa é que pode cooperar. A porta-voz daquele Ministério, Maria Zakharova, lamentou que Londres não partilhe as provas e disse que a embaixada russa na capital britânica endereçou quatro notas diplomáticas a pedir "amplo diálogo", mas só recebeu evasivas.

No dia em que se soube, através de um porta-voz, que o presidente russo se mostrou preocupado com a "posição destrutiva e provocadora" de Londres, o ministro da diplomacia confirmou que Moscovo irá retaliar quanto às medidas anunciadas por Theresa May. "Como pessoas educadas, vamos entregar primeiro aos homólogos britânicos a nossa resposta", disse Sergei Lavrov.

O seu homólogo, Boris Johnson, acusou Putin de "sentir o fantasma de Estaline. Olha à volta e vê a NATO nas fronteiras do que era a URSS. É por isso que causa problemas."

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?