Instruções do ISIS: atacar polícias. Com facas, pedras ou veneno

Larossi Abdalla matou comandante da polícia e a mulher em casa, a 60 km de Paris. Jurou fidelidade ao grupo jihadista

"Atacai os soldados dos tiranos, as suas forças policiais, os seus serviços secretos e seus colaboradores", exorta o ISIS, sigla pela qual também é conhecido o Estado Islâmico, num dos seus muitos vídeos divulgados através da Internet e nos quais apela aos seus seguidores para agirem nos seus países de origem. O método varia. "Se não conseguir usar uma bala ou uma bomba, tente ficar sozinho com o infiel francês ou americano e esmague-lhe o crânio com uma pedra, mate-o à facada, atropele-o com um carro, lance-o de uma falésia, estrangule-o ou envenene-o", explica o porta-voz da organização numa dessas mensagens.

Larossi Abdalla escolheu as facadas para matar um comandante da polícia e a mulher deste na segunda-feira à noite em Magnanville, a 60 quilómetros de Paris. O francês de 25 anos e origem marroquina acabou por ser abatido pela polícia. Nascido em Mantes-la-Jolie, o jovem de cabelos compridos e barba já fora detido em 2011 por ligações a um suspeito de terrorismo. E de novo em 2013 por participar numa rede de envio de jihadistas para o Paquistão. Condenado a três anos de prisão, no final da pena é libertado e a polícia francesa não teve mais notícias dele até agora.

Vídeo e lista de alvos

Sobre as suas motivações ou porque escolheu Jean-Baptiste Salvaing como alvo nada se sabe, mas Abdalla estava escondido atrás do portão do jardim do comandante da polícia de Magnanville quando este chegou a casa na segunda-feira. Quando o agente, de 42 anos, entrou no seu terreno, o jovem esfaqueou-o violentamente, mas Salvaing ainda consegue fugir para a rua e gritar aos vizinhos para chamarem a polícia e fugirem antes de o atacante o alcançar de novo e lhe dar as facas mortais. Abdalla entrou depois na vivenda de Salvaing onde se encontrava a mulher deste e o filho de três anos. Jessica Schneider, de 36 anos, secretária administrativa na esquadra de Mantes-la-Jolie, foi feita refém. As testemunhas garantem ter ouvido o atacante gritar que estava a agir em nome do Estado Islâmico e garantir que tinha uma surpresa.

A equipa do RAID, a unidade de elite da polícia francesa, chegou ao local pouco depois e iniciou as negociações com o sequestrador. Mas este, segundo contaram os investigadores ao jornal Le Figaro, só queria falar de religião e às 00:02 foi dado o assalto. O atacante foi morto, mas os agentes encontraram dentro da vivenda o corpo de Schneider com a garganta cortada. O filho do casal estava "abalado mas são e salvo".

Enquanto decorria o sequestro, Abdalla foi alimentando as redes sociais, publicando duas mensagens no Twitter, mas foi num vídeo de 12 minutos publicado no Facebook que o terrorista reivindica as duas mortes, apela a outros para que sigam o seu exemplo, ameaça o Europeu de futebol que decorre neste momento em França e jura fidelidade ao ISIS.

No mesmo vídeo, Abdalla enumera ainda uma lista de alvos potenciais, defendendo ataques contra os presidentes de Câmara, os deputados, os militares, os polícias, mas também algumas personalidades do mundo do espetáculo, jornalistas e rappers. Os media franceses decidiram não divulgar os nomes dos visados, que já foram entretanto contactados pela polícia, pelos serviços secretos e pelo ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. Muitas destas pessoas deverão ficar sob proteção policial.

A polícia francesa deteve entretanto três pessoas no âmbito da investigação ao ataque de Magnanville. Os suspeitos têm 27,29 e 44 anos.

Num incidente isolado, um homem de 32 anos com graves problemas psicológicos (já estivera internado) atacou ontem também à facada uma mulher de 19 em Rennes. O atacante, que foi detido pela polícia, explicou aos agentes ter ouvido vozes que lhe disseram para cometer "um sacrifício por ocasião do Ramadão. O mês sagrado em que os muçulmanos são obrigados a jejuar durante o dia começou a 6 de junho.

Os lobos solitários

Basta olhar para os últimos dias para perceber que a estratégia de recrutamento online do Estado Islâmico parece estar a dar resultados. O grupo liderado por Abu Bakr al-Baghdadi tem não só a sua própria revista na Internet, a Dabiq, como uma agência de notícias, uma rádio, etc, como também dissemina as suas ideias e instruções através de chats e outros grupos na Internet.

Tanto Abdalla, como Omar Mateen, o homem de 29 anos que matou 49 pessoas a tiro numa discoteca gay de Orlando, na Florida, juraram fidelidade ao ISIS antes de serem abatidos pela polícia. E se o grupo reivindicou ambos os ataques, a verdade é que a polícia não conseguiu ainda provar que houvesse contacto direto entre os atacantes e membros do grupo.

Estamos então a falar de lobos solitários que agem por conta própria seguindo as indicações que lhes são disponibilizadas através da Internet? Pelo menos no caso de Mateen essa parece ser a teoria mais provável. Ontem o New Iorque Times chamava a atenção para o desafio que estes atos terroristas aleatórios praticados por indivíduos sem ligações visíveis a uma organização mas inspirados pela sua propaganda representam para a polícia. Ao contrário da Al-Qaeda de Bin Laden, que "se destacava pelas operações altamente organizadas e planeadas", o Estado Islâmico "encoraja qualquer pessoa a pegar em armas em seu nome", escrevia o NYT.

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