Homem abatido era marroquino e conhecido da polícia desde 2013

No dia do primeiro aniversário do ataque ao Charlie Hebdo, François Hollande pediu uma "coordenação perfeita" entre as forças de segurança francesas na luta contra o terrorismo

Paris acordou ontem com a lembrança do primeiro aniversário do ataque contra o Charlie Hebdo, data que o presidente François Hollande não deixou passar em branco. Mas o dia 7 de janeiro, agora em 2016, voltou a trazer a capital francesa para a realidade do terrorismo, quando um homem, gritando Allah akbar (Deus é grande), tentou entrar à força numa esquadra do 18.º bairro. Empunhava uma faca, vestia um colete de explosivos, que veio a revelar-se falso, e trazia um papel com a bandeira do Estado Islâmico e uma reivindicação em árabe. Foi abatido pela polícia antes de conseguir entrar no local.

"Estava junto à janela quando ouvi os tiros. A zona é muito barulhenta, mas percebi de imediato que não era apenas uma discussão entre um polícia e um morador, como acontece muitas vezes", contou ao Le Monde uma estudante que mora em frente à esquadra de polícia da rua Goutte d'Or, no 18.º bairro de Paris, que tem muitos moradores de origem norte-africana.

"As pessoas gritavam: "Não dispare contra ele!" Os polícias gritavam para nos abrigarmos, para não estar junto às janelas. Refugiei-me no meu quarto durante 20 minutos", prosseguiu a mesma testemunha. "Quando voltei à janela, o corpo do indivíduo ainda estava lá, a polícia só o tapou 45 minutos mais tarde. A zona ficou deserta, as lojas tinham fechado portas", concluiu.

Eram 11.30 locais (10.30 em Lisboa) quando o homem tentou entrar na esquadra da Goutte d"Or, armado com uma faca. "Ele gritou Allah akbar e tinha fios a saírem da sua roupa. Foi por isso que a polícia abriu fogo", explicou o procurador François Molins em comunicado. "Tinha um telemóvel e um pedaço de papel com a bandeira do Daesh impressa, assim como uma reivindicação escrita em árabe", precisou o mesmo comunicado.

Fontes próximas do inquérito, citadas pela AFP, dizem que o homem era conhecido da polícia por causa de um roubo cometido em 2013 no Sul de França. Na altura, foi apresentado como alguém sem morada fixa, nascido em 1995 em Casablanca, Marrocos. As suas impressões digitais foram introduzidas no sistema e correspondem ao homem abatido ontem. "A partir do que se sabe desta pessoa é muito claro de que não tinha nenhuma ligação à radicalização violenta", explicou ao final do dia de ontem a ministra da Justiça francesa, Christiane Taubira.

Numa cerimónia para assinalar o primeiro aniversário do ataque ao Charlie Hebdo, o presidente francês exigiu uma "coordenação perfeita" entre os serviços de segurança franceses na luta contra o terrorismo.

"O terrorismo não deixou de representar uma ameaça considerável ao nosso país. Estamos agora perante combatentes experientes", destacou François Hollande, citando nomeadamente os jihadistas formados pelo Estado Islâmico.

O aniversário do atentado de 7 de janeiro de 2015 reacendeu nos últimos dias dúvidas sobre as falhas dos serviços de segurança na prevenção de ataques terroristas - apesar de serem conhecidos das autoridades pela sua radicalização, os três jihadistas autores dos ataques contra a redação do Charlie Hebdo, contra a polícia e um supermercado judeu, conseguiram concretizar os planos.

A viúva de um agente da polícia responsável pela proteção do diretor do jornal satírico, que foi morto com o cartoonista no ataque, já apresentou queixa citando essas "falhas" e alegando que o marido "foi sacrificado".

Condenado à revelia

O francês Salim Benghalem, considerado um importante membro do Estado Islâmico e com ligações aos atacantes do Charlie Hebdo, foi ontem condenado à revelia por um tribunal de Paris a 15 anos de prisão. Outros seis indiciados foram condenados a penas de seis a nove anos de prisão. Neste processo relacionado com uma célula de recrutamento de jihadistas, o procurador tinha pedido 18 anos contra Benghalem, que se acredita estar na Síria desde 2013, e seis a dez anos para os restantes suspeitos.

Benghalem, de 35 anos, alvo de um mandado de captura internacional e que está na lista negra dos Estados Unidos, foi descrito pelo procurador como sendo uma pessoa de "perigosidade máxima".

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