"Gandhi mantém-se intocável no panteão nacionalista indiano"

Entrevista a Constantino Xavier, académico português investigador no Brookings India em Nova Deli, sobre o legado do Mahatma Gandhi, que nasceu a 2 de outubro de 1869, faz esta quarta-feira 150 anos.

Qualquer indiano é capaz de identificar a figura do Mahatma Gandhi, descrever o seu papel na história da independência do país em 1947?
Sim, não há figura indiana mais carismática do que Gandhi. O BJP de Modi criou polémicas à volta de várias figuras históricas, incluindo criticando o legado do primeiro primeiro-ministro Nehru, e promoveu figuras nacionalistas alternativas como Patel, Ambedkar ou Deendayal Upadhyaya, mas Gandhi mantém-se intocável no panteão nacionalista indiano, especialmente popular entre o partido do Congresso e movimentos de esquerda. Para as gerações mais velhas, Gandhi continua a ser uma inspiração a nível individual, em termos de estilo de vida. Mas para os jovens indianos de hoje, Gandhi significa e inspira pouco - no melhor dos casos, assume um papel simbólico em movimentos sociais e ecologistas, ou é representado como um ícone pop, como Che Guevara na Europa.

Pode-se dizer que há gandhianos hoje, no sentido de figuras políticas ou outras que tentam viver segundo o exemplo do Mahatma?
Se Gandhi nunca se reconheceu na Índia real, até durante o auge do movimento pela independência, muito menos ainda se reconheceria na Índia de hoje - materialista, capitalista, urbanizada e militarizada. O maior papel de Gandhi foi a sua capacidade agregadora que federou a diversidade de interesses ideológicos, económicos, étnicos e regionais por toda a Índia à volta da causa pela independência. Mas a sua filosofia radical, assente na não-violência ou na economia rural, jamais teve expressão significativa nas políticas públicas após 1947.

Para si, pessoalmente, português com raízes em Goa e que ensina na Índia, o que representa Gandhi?
A obra de Gandhi é impressionante, e Hind Swaraj continua a ser um dos meus livros favoritos. Gandhi é apresentado e celebrado como um filósofo e idealista, mas o trabalho da investigadora Karuna Mantena mostra que ele foi, acima de tudo, um exímio realista e pragmático que soube inspirar milhões para realizar um objetivo político que parecia impossível. O seu contributo para o movimento anticolonial foi extraordinário, inspirando causas políticas por todo o mundo, incluindo nos Estados Unidos.

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