Franco-atirador bate triste recorde do maior massacre nos EUA

Para o Estado Islâmico chama-se Abu al-Amerik, para os norte-americanos é apenas um reformado que gostava de jogar. Matou dezenas em Las Vegas

Em meados dos anos 90 do século passado, uma t-shirt dava nas vistas por entre o público dos poucos festivais de música em Portugal. Com ilustração condizente, rezava, em inglês, que disparar contra pessoas iria ser uma modalidade desportiva no futuro. Humor negro para criticar a violência (e a sua cultura) crescente nas sociedades - em especial na norte-americana, na qual a liberdade de compra e porte de armas automáticas e semiautomáticas é um dos factores da multiplicação de massacres perpetrados por indivíduos contra o maior número de inocentes.

No domingo à noite foi quebrado o triste recorde do maior massacre dos nossos tempos em terras dos Estados Unidos (ver caixa). A partir do 32.º piso do hotel Mandalay Bay, em Las Vegas, o reformado Stephen Paddock, de 64 anos, fez tiro ao alvo à multidão - mais de 20 mil pessoas - que assistia a um concerto de música country no festival Route 91, a mais de 300 metros de distância. Durante minutos - cinco segundo algumas fontes, "pelo menos durante dez minutos", segundo o cantor Jason Owen, que estava em palco quando o ataque começou - o tiroteio provocou pelo menos 59 mortos, mais de 500 feridos e cenas de pânico. "De onde ele estava era canja", comentou ainda o cantor.

"Foi uma loucura. Atirei-me para cima dos meus filhos. Eles estão nos vintes, eu tenho 53 anos e vivi uma boa vida", contou à Reuters Mike McGarry, turista da Filadélfia, que foi pisado por muitos dos que fugiam em pânico. A canadiana Monique Dumas, que se encontrava nas primeiras filas, pensou por instantes de que o ruído da carnificina era fogo-de-artifício. "Caos organizado", foi como viu depois a fuga do público, enquanto o tiroteio prosseguia.

A autoria do ataque, atribuída a Stephen Paddock, causou espanto ao irmão Eric, que não se furtou de responder aos jornalistas. Eric Paddock contou que são filhos de um assaltante de bancos, Patrick Benjamin Paddock, homem que nos anos 60 figurou na lista dos mais procurados pelo FBI por ter fugido da prisão, onde cumpria uma pena de 20 anos. Quanto a Stephen, era um contabilista reformado que vivia em Mesquite,a pouco mais de uma hora de carro da "cidade do pecado", onde gostava de ir jogar e de assistir a espetáculos. "Ele não deu qualquer tipo de sinais de que pudesse vir a fazer algo. Estou totalmente estarrecido", disse à NBC. "Ele nunca puxou de uma arma (...) Onde é que ele arranjou armas automáticas?", questionou.

Quando a polícia irrompeu no quarto de hotel, Stephen Paddock estava morto. "Acreditamos que o indivíduo se matou antes de entrarmos", disse o xerife de Las Vegas, Joe Lombardo. Sem entrar em pormenores, as autoridades revelaram ter encontrado uma dezena de armas no quarto. O estado do Nevada não limita a compra de munições, pelo que o atirador pode ter comprado milhares de projéteis sem qualquer tipo de restrição, o que facilita o trabalho sujo.

O Estado Islâmico não perdeu tempo a reivindicar o massacre como obra sua. "O ataque de Las Vegas foi levado a cabo por um soldado do Estado Islâmico, realizado em resposta aos apelos para atingir os países da coligação", escreveu a agência difusora de propaganda do EI, Amaq, citada pela Reuters. Que, numa segunda mensagem, deu Abu Abd al-Bar al-Amerik como um convertido ao Islão há alguns meses. As autoridades norte-americanas reagiram com ceticismo e o FBI diz não ter encontrado qualquer ligação entre o tiroteio e qualquer organização terrorista internacional.

Num gesto de solidariedade, o presidente russo Vladimir Putin enviou uma mensagem de condolências ao homólogo norte-americano: "Este crime que matou dezenas de cidadãos pacíficos é chocante na sua crueldade". A partir da Casa Branca, Donald Trump endereçou uma mensagem aos concidadãos, na qual resumiu o "horrível, horrível ataque" a "pura maldade". Num discurso carregado de alusões ao divino e a citações das Escrituras, Donald Trump anunciou que vai a Las Vegas na quarta-feira visitar o local do atentado e encontrar-se com sobreviventes e forças policiais. E terminou apelando a que se reze "para que o mal seja banido".

A senadora democrata Elizabeth Warren saiu a terreiro: "Pensamentos e orações não chegam". Hillary Clinton voltou a apelar para um consenso entre republicanos e democratas para enfrentar o lobby das armas. No Congresso debate-se duas leis para atenuar restrições ao uso das armas.

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