EUA e Rússia num ponto baixo das relações mas abertos ao diálogo

Secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, encontrou-se com o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, antes de reunião com Vladimir Putin no Kremlin

Numa coisa o presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, estão de acordo: as relações entre a Rússia e os EUA estão no seu ponto mais baixo de sempre. Depois de um encontro com o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, em Moscovo, Tillerson foi até ao Kremlin para uma reunião de duas horas com Putin. No final, ambos os países mostraram-se disponíveis para dialogar, concordando em criar um "grupo de trabalho" para melhorar as relações deterioradas com o alegado ataque químico na Síria e a resposta militar dos EUA.

As relações estão "num ponto baixo" e existe atualmente um "baixo nível de confiança entre os nossos dois países", disse Tillerson numa conferência conjunta com Lavrov. "As duas potências nucleares mais importantes do mundo não podem ter este tipo de relacionamento", acrescentou o secretário de Estado. Palavras que iam ao encontro daquilo que Putin tinha dito mais cedo, numa entrevista à televisão Mir: "Diria que o nível de confiança está num nível aceitável, especialmente no âmbito militar, mas não melhorou. Pelo contrário, degradou-se."

A relação entre os dois países deteriorou-se por causa da Síria, com Washington a acusar o governo de Bashar al-Assad de ser responsável pelo ataque com armas químicas contra Khan Sheikhun, que causou a morte de 87 pessoas. A Rússia é o principal aliado de Assad - que o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou ontem de "animal" - e alega que as armas seriam dos rebeldes. Mas ontem, Tillerson repetiu na conferência de imprensa que os EUA estão confiantes de que as forças sírias "planearam, lideraram e executaram" o ataque. Já Lavrov disse que "não há provas" que apoiem esta teoria, defendendo um inquérito independente.

Contudo, Moscovo vetou (e Pequim absteve-se) a resolução apresentada no Conselho de Segurança da ONU, que pedia a cooperação do governo sírio numa investigação sobre o alegado ataque químico. "Tal como está, este projeto é inaceitável para nós e não vamos votar a favor, é claro. Vamos votar contra se os nossos parceiros não ouvirem os nossos apelos", avisara mais cedo o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Guennadi Gatilov, citado pela agência Interfax.

A embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, lembrou aos russos que ao apoiar Assad estão a ficar isolados. "Estão a isolar-se da comunidade internacional cada vez que um avião de Assad lança outra bomba sobre civis e cada vez que Assad tenta deixar morrer à fome outra comunidade", afirmou. Após o ataque com armas químicas, os EUA responderam com o disparo de 59 mísseis Tomahawk contra uma base aérea síria.

Face à resposta de Washington, Moscovo suspendeu a participação no acordo de prevenção de incidente aéreos em vigor na Síria. "O presidente Putin confirmou que está disposto a restabelecer [este acordo] na condição que o nosso objetivo comum seja a luta contra o terrorismo", indicou Lavrov na conferência de imprensa, assegurando que "apesar de todos os problemas existentes, existem perspetivas consideráveis para trabalharmos juntos".

Antes do encontro, as palavras tinham sido diferentes: "Não vou esconder o facto de termos muitas perguntas, tendo em conta as ideias extremamente ambíguas e por vezes contraditórias que têm sido expressas por Washington em todo o espetro dos assuntos bilaterais e multilaterais", indicara Lavrov, falando num "um ataque ilegal contra a Síria". Tillerson, por seu lado, fora mais diplomático, explicando que o seu objetivo era "clarificar ainda mais áreas onde existe uma forte diferença [de opiniões] para podermos perceber melhor porque é que estas diferenças existem e qual é a perspetiva de poder limitar essas diferenças". E disse esperar melhorar as relações entre os dois países a partir deste intercâmbio "muito aberto, cândido e franco".

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