E se olhássemos o vizinho do sul? Marrocos move-se

Com a inauguração de Tanger Med 2, Marrocos passa a ter o maior porto de África e do Mediterrâneo. E um trunfo mais para a modernização que Mohammed VI busca agora que vai iniciar terceira década de reinado.

As dezenas de jornalistas estrangeiros em Tânger não vieram para a celebração dos 20 anos de reinado de Mohammed VI e sim para a inauguração do Tanger Med 2, projeto que confirma o porto marroquino como o maior de África para contentores e o lança para primeiro a nível do Mediterrâneo. Mas como o monarca faz agora em julho duas décadas que sucedeu ao pai, Hassan II, a ocasião, de grande importância para Marrocos, serve bem de pretexto para um balanço económico e também político de um país que é um vizinho de matriz árabe e berbere às vezes um pouco esquecido dos portugueses.

Em 2017, a economia marroquina cresceu 4,1%, em 2018 uns 3%. Ora, o abrandamento deve-se sobretudo às flutuações da produção agrícola, ainda forte no PIB, pelo que uma das prioridades do monarca tem sido a diversificação do aparelho produtivo. Recentemente, Marrocos celebrou a abertura de novas fábricas automóveis, francesas e de um grupo chinês. Outro setor em desenvolvimento é o têxtil. Mas a dimensão de um projeto como o Tanger Med 2 faz toda a diferença, daí a solenidade da presença do príncipe herdeiro Moulay El Hassan, de 16 anos, na cerimónia.

Com um investimento na ordem dos 2,6 mil milhões de euros para a construção do primeiro terminal automatizado de África, o Tanger Med 2 eleva a capacidade tangerina para nove milhões de contentores a médio prazo, uma triplicação em relação ao Tanger Med 1, inaugurado em 2007 e por onde passam já 50% das exportações de Marrocos. Prestes a serem ultrapassados estão assim os portos espanhóis de Algeciras e de Valência.

Este Tanger Med (1 e 2) fica a 50 quilómetros da cidade de Tânger, cujo porto, o Tanger Ville, acolhe hoje turistas. É curioso que uma exposição de fotografias e gravuras no antigo edifício da alfândega comece com uma imagem da cidade durante a presença portuguesa. E a verdade é que se a Kasbah preserva vestígios da fortaleza que foi portuguesa quase 200 anos, já a primeira construção portuária teve de ser feita pelos ingleses no século XVII, quando receberam a cidade como parte do dote de Catarina de Bragança. Incluído também no dote da mulher de Carlos II estava Bombaim, e de uma forma não oficial o hábito do chá que se fez moda nas Ilhas Britânicas.

É pois agradável enquanto se bebe um típico chá de menta marroquino ir ouvindo de um académico a história cosmopolita desta cidade, refúgio para escritores como Paul Bowles ou William Burroughs. Hoje percebe-se que Tânger quer antes de mais contribuir para o desenvolvimento de um Marrocos que, embora quinta economia africana, ainda tem caminho a percorrer. Não tanto como Ibn Battuta, o mais famoso tangerino, espera-se.

E, pelos vistos, os investidores portugueses andam atentos às oportunidades marroquinas, com o jornal L'Economiste a noticiar que o complexo turístico de Saïdia passou agora para as mãos do grupo Oásis-Atlântico.

De Tânger, pérola turística também, avista-se a Europa. É Espanha. E uma das batalhas de Mohammed VI tem sido dar condições aos jovens para não cederem à tentação de atravessar o estreito em busca do eldorado. Essa batalha faz-se também no campo da política, graças à Constituição de 2011, na sequência de uma Primavera Árabe que teve efeitos moderados no país, mérito da monarquia alauita.

Os jovens que em Rabat nesta semana vibraram com os Black Eyed Peas exigem direitos, e governantes que se batam para melhorar a vida de todos. Sem deixar de ser soberano (e como comendador dos crentes um travão ao jihadismo), Mohammed VI tem sabido ouvir o povo, até quando deixa governar um partido islamita, como acontece há oito anos.

Olhando-se para 1999, ano de partido do reinado, percebe-se que o argelino Bouteflika já não manda, nem o tunisino Ben Ali, nem o líbio Kadhafi, nem o egípcio Mubarak, só para falar dos líderes norte-africanos que assistiram ao rei subir ao trono com 35 anos. Mas, prova da estabilidade marroquina, Mohammed VI vai iniciar a terceira década como monarca.

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