Derrota jihadista na Síria. Exército entra em Palmira

Cidade milenar foi conquistada pelo Estado Islâmico em maio de 2015. Putin discutiu cessar-fogo com Kerry em Moscovo

O exército de Bashar al-Assad, apoiado pela aviação russa, entrou ontem na milenar cidade de Palmira, nas mãos do Estado Islâmico desde maio de 2015, e foram dados "pequenos passos" nas negociações entre o governo e a oposição síria, que decorrem em Genebra. Mas o que o presidente russo, Vladimir Putin, primeiro quis discutir quando se encontrou com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, foi o conteúdo da pasta que este transportava quando desceu do avião em Moscovo. "Provavelmente trouxe dinheiro para negociarmos melhor as questões-chave", brincou Putin.

O presidente russo começou por dizer ao secretário de Estado norte-americano que tinha ficado "um pouco preocupado" quando viu que ele carregava a própria pasta, explicando que por um lado achou que isso era "muito democrático", mas por outro temeu que o Departamento de Estado estivesse a fazer cortes de pessoal. Sempre em tom de brincadeira, Putin disse que acabou por concluir que na mala estava algo que Kerry não confiava a ninguém. Na resposta, o secretário de Estado prometeu que lhe mostraria o conteúdo da pasta quando estivessem a sós e que o iria "surpreender".

Esta troca de palavras foi um exemplo da atmosfera mais cordial em que decorreu o encontro de ontem, em comparação com reuniões anteriores, com ambos os políticos a congratularem-se com os avanços na Síria propiciados por uma maior cooperação entre Rússia e EUA na procura de uma solução para pôr fim à guerra civil.

"A abordagem séria na qual fomos capazes de cooperar fez a diferença na vida das pessoas e nas possibilidades para fazer progressos em direção à paz", disse Kerry. "O povo da Síria e da região pode perceber o que significa ter uma enorme redução da violência e receber ajuda humanitária", acrescentou o secretário de Estado norte-americano. "Aquilo que conseguimos alcançar na Síria só foi possível graças à posição do presidente dos EUA, Barack Obama", elogiou Putin, que reduziu o envolvimento militar russo na Síria e disse esperar que o encontro pudesse trazer mais progressos para o fim dos combates.

Washington e Moscovo apoiaram um cessar-fogo entre o governo de Assad e a oposição. Mas continuam a discordar quando em causa está o futuro do presidente sírio e se tem ou não que deixar o poder. Em Genebra, na Suíça, foram ontem suspensas até ao próximo mês as negociações entre governo e oposição que são apoiadas pelas Nações Unidas. O enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, espera que na próxima ronda de diálogo se possam começar a abordar a questão do processo político.

Combates na "pérola do deserto"

O cessar-fogo na Síria não inclui a luta contra o Estado Islâmico - que se aproveitou da guerra civil para ir ganhando controlo de parte do país. Depois de ter lançado no início do mês uma ofensiva para recuperar o controlo de Palmira, o exército sírio entrou ontem na "pérola do deserto". Após ter conquistado a cidade milenar em maio de 2015, o Estado Islâmico destruiu parte dos templos antigos e túmulos que eram património da humanidade, no que a UNESCO considerou "crimes de guerra".

A recuperação de Palmira, que tem uma localização estratégica no centro da Síria, representaria a maior vitória do regime de Assad contra o grupo extremista desde o início da intervenção militar russa, em setembro. De acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, o exército avançou pela zona dos hotéis, no sudoeste da cidade, até ao início da área residencial. O progresso está a ser lento por causa das bombas e minas deixadas pelos jihadistas. Os civis começaram a fugir depois dos avisos dos combatentes do Estado Islâmico, feitos através de altifalantes, alertando para a aproximação dos combates.

Um soldado entrevistado pela estação de televisão estatal Ikhbariya disse que o exército vai continuar a avançar. "Dizemos para os atiradores, estamos a avançar para Palmira e para lá de Palmira, se Deus quiser para Raqqa, centro dos gangues do Daesh", afirmou, usando o acrónimo em árabe que designa o Estado Islâmico e referindo-se à capital do califado declarado pelo grupo em território da Síria e do Iraque.

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