"Covid na América Latina vai deixar mais pobreza e mais desigualdade"

Entrevista a Marcelo Moriconi, investigador do Centro de Estudos Internacionais do Iscte. Será um dos participantes no webinar que esta quinta-feira às 18 horas se realiza sobre o impacto da covid na América Latina junto com Andrés Malamud (ICS-ULisboa), Carmen Fonseca (IPRI-NOVA) e Filipe Vasconcelos Romão (UAL). A moderação é de Ana Mónica Fonseca (CEI-Iscte) . O evento faz parte de um ciclo organizado pelo Iscte e o DN e está aberto ao público em geral (inscreva-se aqui).

Depois da Ásia, da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, é a América Latina a região que começa a ser o epicentro da pandemia. Os países da região podiam ter feito melhor, aprendendo com os acontecimentos no resto do mundo?
A pandemia ainda não terminou, mas já discutimos quem o fez melhor. Estamos a escrever a crónica final do jogo depois do primeiro tempo, fazendo futurologia opinativa. Isto tem estado a acontecer com muita veemência na opinião pública, utilizando aleatoriamente diferentes dados e misturando, por exemplo, contagens de mortes com covid com mortes por covid, mesmo sabendo das deficiências e manipulações nos dados oficiais a nível mundial. Primeiro deveríamos consensualizar o que entendemos por fazer melhor ou pior. Melhor é menos mortos totais, menos mortos por quantidade de população, menos contágios, menos internados, maior idade média das pessoas falecidas, menor dano económico, mais satisfação da cidadania, imagem mais positiva dos governantes, menos desemprego e pobreza?
Obviamente em termos de mortes geradas, a situação do Equador, onde o sistema funerário colapsou, é mais grave que no Paraguai. Também podemos dizer que nenhum país da região está perto do nível de mortes por milhão de habitantes apresentado pela Bélgica ou pela Inglaterra. Mas é cedo para definir se se poderia ter feito melhor. O que poderia ter feito melhor o Equador? Maior confinamento? Pedir às pessoas que lavem mais as mãos durante 20 segundos? Metade das pessoas não faz ideia do que é uma torneira, e menos de metades não sabe o que é ter água potável a correr durante 20 segundos. O resultado de uma pandemia como esta depende, alem das políticas implementadas, dos recursos económicos e humanos, das idiossincrasias dos povos, de questões demográficas e geográficas, de infraestruturas e muitas outras variáveis.

Países como o Brasil e o México destacam-se pela negativa. Têm líderes de áreas políticas opostas. Isso significa que não se pode atribuir a ideologias eficácia ou não na resposta governamental ao covid-19?

Estas são as afirmações que questionei antes. México e Brasil destacam-se pela negativa porque tem mais mortes ou porque não gostamos dos seus presidentes? Numa entrevista anterior, pediram-me que explicasse o milagre português e a tragédia brasileira. Nesse momento, Brasil tinha 131 mortes por milhão de habitantes e Portugal 142. É ridículo. Enquanto respondo esta pergunta, o México tem 119 e Portugal 147 (sempre de acordo com os dados oficiais). Isto significa que, se estivesse em Europa, o México só seria comparado com Alemanha, que é considerada um sucesso. E a tragédia brasileira estaria jogando na terceira liga, se a compararmos com o acontecido na Espanha. Tudo isto tem relação direta com a sua pergunta sobre a relação ideologia-eficácia. A ideologia nunca indica eficácia. O que depende da ideologia é a maneira como nos dispomos a medir a eficácia, os valores que vamos colocar na tabela de medição.

Olhemos mais ao pormenor para o Brasil. O presidente Jair Bolsonaro, com declarações contraditórias e desvalorizadoras do vírus, tem responsabilidades sérias na agravamento da doença?

Boa pergunta para continuar a minha deconstrução do fenómeno. O discurso de Bolsonaro é vergonhoso, quer pelo conteúdo, quer pelas formas. Se tivesse implementado outro tipo de medidas, impondo mais restrições aos grupos de risco, que está claro quais são, e dando maior liberdade às pessoas que, potencialmente, viveriam a covid como uma simples gripe e não terminariam num hospital. Há setores económicos impossiveis de proteger, como o turismo ou a restauração, mas há muitos outros onde o dilema saúde-economia é falso e trágico, porque setores sociais inteiros, na América Latina, ou vão para a rua trabalhar no sector informal, com risco de se contagiar, ou ficam em casa, evitam o covid, e morrem de fome, dengue ou cólera.
Ora bem, eu não posso assegurar que Bolsonaro tem "responsabilidades sérias". Tampouco posso considerar irresponsáveis e assassinos os que saem à rua para protestar, como aconteceu noutro países. É impossível assegurar que o Governo espanhol gerou a tragédia por autorizar uma manifestação em março ou que o PCP vai ser culpado de uma potencial segunda vaga se organizar a Festa do Avante. Para mim, é mais interessante analisar o facto da covid não ter mudado a forma de atuar, falar ou argumentar de Bolsonaro. Muito pelo contrário: o que estamos a ver é o Bolsonaro que fez campanha, mas numa conjuntura social crítica. Portanto, eu não responsabilizo o Bolsonaro por exercer a Presidência da maneira que tinha indicado o faria. Eu critico a parte do povo brasileiro que o escolheu. Isto é o que eles queriam viver. Chama-se democracia e, perante um povo imprudente, pode ser um perigo. Eu tenho denominado este dilema como a lógica da vítima-cúmplice. A crise da democracia brasileira não chegou com a covid, mas a pandemia veio explicitar como um eleitorado pode colocar em risco as suas liberdades.

Consequências desta pandemia para a América Latina?

A pandemia é um facto histórico que confinou o mundo inteiro, gerou um problema de saúde pública, e vai gerar uma crise económica da qual ainda não sabemos a dimensão. Na América Latina, vai deixar mais pobreza, mais desigualdade, menos emprego, ou seja, os mesmos problemas estruturais históricos mas agravados, e instabilidade política, com sectores que tentaram concentrar mais poder e impor mais controlos e outros que procuraram mais democracia. Ou seja, a história de sempre. Embora a crise seja profunda, há, no mundo, o suficiente para cobrir as necessidades de todos, mas não o bastante para satisfazer a ganância de alguns, como sempre.
A covid veio explicitar a crueldade das desigualdades. Mas toda a crise é uma oportunidade para mudanças de todo o tipo. Que o futuro seja mais igualitário, mais controlado, menos trágico, ou que um potencial conflito entre Estados Unidos e China termine numa guerra mundial, depende das narrativas que consigamos construir e legitimemos, da interpretação que fazemos dos factos, e do horizonte de futuro social e comunitário que edifiquemos com elas. Antes da pandemia, morria uma pessoa de fome ou enfermidades relacionadas a cada quatro segundos, muitas mais que as vítimas da covid. Antes do assassinato de George Floyd, só em 2019, foram assassinadas mais de 60 mil pessoas no Brasil, muitas delas por polícias. Sobra hipocrisia e facilidade de manipulação da população. A pandemia não foi uma surpresa.
Há vários anos que surgem estudos a alertar sobre isto; Obama falou disto;Bill Gates falou disto. Só faltava a data e a dimensão global. Os que prognosticaram o futuro, o que falavam antes? Incluíam o factor pandemia no futuro nas suas análises anteriores? A normalidade anterior, que muitos se queixam não ir regressar, era um mundo globalizado, desigual e insustentável que criou o contexto perfeito para isto ocorrer. A pandemia foi o que foi porque nós vivíamos como vivíamos. Neste contexto, o interessante das teorias conspirativas não é a sua verosimilhança mas o facto de muita gente acreditar nelas pelo facto de existirem demonstrações permanentes de que setores poderosos da humanidade não têm escrúpulos em colocar a existência humana em perigo. Agora, temos uma conjuntura histórica para fazermos mudanças. Mas qual é o mundo que desejamos?

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