Coronavírus. Os navios de cruzeiro como veículos de propagação do vírus

Maior surto de coronavírus fora da China continental não está num país mas sim num navio de cruzeiro

Desde há mais de uma semana em quarentena, depois de um passageiro ter testado positivo por coronavírus após o desembarque, o navio Diamond Princess já registou 542 casos de infeção. Mais de mil pessoas das 3.700 a bordo já foram testadas e os que permanecem a bordo vão ficar em quarentena durante mais uma semana.

Porém, os receios de propagação do vírus em navios de cruzeiro não se esgotam no Diamond Princess, que está atracado no Japão. Noutro navio de cruzeiro em Hong Kong, 3600 passageiros ficaram em quarentena por receio de que as pessoas a bordo pudessem estar infetadas e só serão autorizados a desembarcar após os testes darem negativo.

Noutro navio de cruzeiro com mais de 1.450 passageiros, que deixou Hong Kong a 1 de fevereiro, foi rejeitado por portos de Japão, Taiwan, Guam e Filipinas, apesar de não haver infeções a bordo. À quinta tentativa, pôde atracar no Camboja.

Há muito que os navios de cruzeiro são descritos como "placas de Petri flutuantes", locais propícios à troca de germes e à propagação de doenças. Mas será mesmo assim? O professor Sanjaya Senanayake, especialista em doenças infecciosas da Universidade Nacional Australiana, diz que sim. "Geralmente, há passageiros e tripulantes de diferentes partes do mundo que se misturam intimamente e intensamente por um curto período de tempo", afirmou à BBC . "Todos eles têm níveis variados de imunidade, e isso propicia um surto de infeção", acrescentou.

No caso do coronavírus, que se acredita espalhar-se através de gotículas como saliva ou muco, as pessoas podem ser infetadas sem contacto direto. "Digamos que se alguém espirrar para uma mesa e outra pessoa imediatamente tocar nessa mesa, isso pode levar à infeção. As pessoas podem não estar a conversar, mas estão em espaços partilhados, como piscinas, spas, salas de jantar e auditórios", explica.

As pessoas mais suscetíveis a infeções acabam por ser os membros da tripulação. No caso do Diamond Princess, pelo menos 10 tripulantes estão infetados. "É provável que os membros da tripulação estejam em contacto muito próximo, talvez até partilhando instalações. As pessoas vão desembarcar do navio, mas os membros da tripulação geralmente não. Portanto, se o vírus for transmitido continuamente entre a tripulação, ele poderá continuar a propagar-se quando um novo conjunto de passageiros embarcar", frisou.

Relativamente à forma de mitigar os riscos, Senanayake diz que existe um Programa Oficial de Saneamento de Embarcações no Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos que aconselha os navios sobre como prevenir e controlar a propagação de doenças. "Acredito que os navios de cruzeiro agora tenham muitas estações de desinfeção e que também estejam a aconselhar pacientes e membros da tripulação que estão doentes a não embarcar. Existe risco ao embarcar num navio de cruzeiro, mas tudo na vida traz riscos. As pessoas só precisam de colocar em prática medidas simples de prevenção", acrescentou.

Relativamente ao Diamond Princess, o especialista em doenças infecciosas da Universidade Nacional Australiana acredita que o navio está a empregar "boas medidas de isolamento", mantendo as pessoas nos respetivos quartos. "O navio precisa de garantir que as pessoas entendam porque é que isso está a acontecer e que compreenda as preocupações delas. A quarentena deve ser feita de um modo muito humano", vincou.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG