China: entre o ceticismo e novas exigências

Análise de Cátia Miriam Costa, investigadora do Centro de Estudos Internacionais (Iscte).

Vivem-se tempos de receio generalizado e poucas certezas quanto ao presente e ao futuro. As consequências da COVID-19 ainda não são possíveis de aferir, aos mais diversos níveis. Não sabemos o seu impacto na saúde humana a longo prazo, nem conhecemos o comportamento do vírus e também desconhecemos o real impacto que terá na economia, na sociedade e, mais especificamente, nos comportamentos humanos.

Deste modo, também, é impossível determinar qual o seu verdadeiro impacto nos diversos estados e na forma como conduzem as suas relações internacionais. Apenas é certo que a COVID-19 não abriu a caixa de pandora de mudança no cenário internacional a que vínhamos assistindo, mas acelerou-a decisivamente. Na verdade, o mundo pós-COVID-19 poderá ser bem diferente daquele que hoje conhecemos.

A China, um dos países que mais tem estado sob os holofotes mediáticos, vive entre o ceticismo da comunidade internacional e as novas exigências internas de mais transparência.

Um país em mudança de paradigma

A China vive vários desafios internos que vão muito para além da conflitualidade existente em Hong Kong e a eventual reunificação com Taiwan num espaço de algumas décadas.

A China enfrentou desde o início deste milénio a questão das assimetrias de desenvolvimento internas, em que o litoral e as zonas influenciadas pelas outrora famosas Zonas Económicas Especiais beneficiaram de um desenvolvimento e crescimento económico bem diverso das províncias mais deprimidas. Estas discrepâncias são, igualmente, evidentes quando se comparam zonas rurais, muito afetadas pela industrialização massiva, baseada em mão de obra intensiva, e as grandes cidades, rodeadas da indústria tecnológica e da indústria financeira de cariz chinês.

No momento em que a China abandonava o paradigma da "fábrica do mundo" para adotar o paradigma do "laboratório do mundo", chegava à idade adulta uma nova geração de "millennials". Estes factos constituem duas grandes mudanças: por um lado, temos uma China que apostou no trinómio ciência/tecnologia/inovação, por outro lado, temos a primeira geração que nasceu e cresceu num ambiente apolítico, ou seja, na China não existe a obrigatoriedade de expressão de aprovação do governo, o que fez recuar a influência ideológica na vida desta geração. Neste contexto, de gerações mais capacitadas e individualistas, a China caracteriza-se por um clima de exigência por maior transparência nas decisões políticas e na procura de políticas públicas que revertam para o todo da população.

Quer isto dizer que se os chineses não são chamados a pronunciar-se sobre as orientações políticas e ideológicas do país, recentemente têm-se envolvido diretamente na reivindicação de políticas públicas que revertam para as comunidades. Temas como a mudança climática, os direitos dos animais, a transparência no uso dos recursos coletivos são alguns dos temas que passaram a figurar entre as preocupações da sociedade. Nesse sentido, a exigência com os governos locais (ao nível de freguesia, por exemplo, existe eleição direta) e centrais aumentou.

A resposta que o governo chinês encontrou foi a proposta de projetos como a Nova Rota da Seda. Esta iniciativa responde não só a eventuais interdependências ou tensões com os países vizinhos, mas também a exigências internas sobre o desenvolvimento global do país e a necessidade para assegurar crescimento e desenvolvimento económico interno. Para manter os seus padrões económicos, a China terá de encontrar novos mercados e assegurar que os processos de investimento direto chinês e de transferências das tecnologias mais tradicionais, que permitem a deslocalização de parte da indústria de mão-de-obra intensiva, libertam o seu mercado interno para a indústria e serviços de alta tecnologia, mais bem remunerados. O objetivo da China foi subir na cadeia de valor do mercado internacional de forma a dar resposta às necessidades do seu contrato social interno.

Um contexto internacional cético

A COVID-19 e o seu confirmado início na China aprofundaram uma tensão internacional entre a China e os Estados Unidos já existente. A Nova Rota da Seda, o 5G e o surgimento da China com uma capacidade de atuação global, provocou a reação internacional. A subida na cadeia de valor da China no mercado de produção e das transações internacionais também a projeta enquanto Estado capaz de influenciar e criar alianças alternativas com países longínquos. A pandemia aparece, então, como um pretexto não só para se repensarem relações de poder, mas também para se ponderar quem estará mais preparado para enfrentar as crises e imprevistos da globalização. A rápida mundialização desta pandemia, ao invés de outras que a precederam, testemunha o quanto a mobilidade e transacionalidade permanente têm impacto na nossa vida diária.

A China que tão bem soubera usar as ferramentas que a globalização tinha concedido, vê-se agora acossada por acusações de falta de transparência quanto à gestão da epidemia quando esta lá começou. A COVID-19 surge como um meio para interrogar a China sobre as suas práticas no espectro internacional. Como resposta a China reforça a sua diplomacia, indo para além da chamada diplomacia das máscaras e investindo fortemente na diplomacia científica e de desenvolvimento.

Levará muito tempo até que a China convença ou sucumba (todos os cenários estão em aberto) a um contexto internacional de desconfiança. Contudo, o facto de se estar a tornar global, não é algo que obrigue à alteração estrutural da ordem internacional. Lembremo-nos que a China foi uma vencedora da Segunda Guerra Mundial e desde 1971 tem assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E desde a fundação das Nações Unidas tem existido a mudança de quem lidera ou tem de dividir a liderança desta ordem herdada do conflito mundial terminado 1945.

NOTA: Este texto representa uma síntese da intervenção da autora no webinar "Espaço Euroasiático em tempos de COVID-19", organizado pelo Centro de Estudos Internacionais do Iscte e pelo Instituto da Defesa Nacional, em parceria com o Diário de Notícias. A próxima sessão decorrerá no dia 28 de maio, às 18h, e será subordinada ao tema "Médio Oriente em tempos de COVID-19", com participação de Giulia Daniele (CEI-Iscte), Daniel Pinéu (Universidade de Amesterdão), Nuno Lemos Pires (CEI-Iscte/Academia Militar) e moderação de Francisca Saraiva (IDN). O evento é aberto ao público em geral mas a participação requer inscrição prévia em https://bit.ly/2zYJjk4​

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