"Quando fico sozinha fico a pensar e quando penso é terrível"

Patrícia Correia tem-se dedicado a tempo inteiro à associação que tem mantido intacta a memória das vítimas dos atentados de 13 de novembro de 2015 em França

As atividades de uma associação criada após os atentados de 13 de novembro de 2015 são a "razão de viver" de Patrícia Correia, mãe de Precilia Correia, uma jovem franco-portuguesa de 35 anos que não resistiu ao ataque ao Bataclan, assim como o companheiro de 40 anos.

Patrícia Correia é administradora da associação "13 novembre: Fraternité et Vérité" (13onze15), responsável pela comissão da memória e pela comissão dos dons, estando a preparar uma venda caritativa de esculturas a 29 de novembro em Lyon, da autoria do artista que realizou uma Torre Eiffel a tocar guitarra para a capela de Precilia, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

"A minha terapia é estar em permanente ação até à exaustão porque quando fico sozinha fico a pensar e quando penso é terrível. A ausência da minha filha é qualquer coisa abominável. Ela vive em mim. Às vezes, sonho com ela, felizmente, e ela está viva. São os únicos momentos em que estou bem, quando consigo sonhar com ela como se nada tivesse acontecido. Tenho muita dificuldade em viver com este peso que está nas entranhas", contou à Lusa Patrícia Correia.

Desde os atentados de 13 de novembro do ano passado, Patrícia dedicou-se à associação a tempo inteiro e tem feito "tudo, tudo, e ainda, tudo" para manter intacta a memória das vítimas e dos "atos de guerra" que atingiram a França.

"A necessidade de memória é qualquer coisa normal e indispensável. Não podemos esquecer todas estas vítimas, todas estas pessoas que morreram debaixo das balas. Faremos tudo, tudo e, ainda, tudo para que não esqueçamos todas as vítimas que perderam a vida e todos os feridos que ficaram incapacitados para sempre. Todos estes jovens para quem a vida ficou abalada", sublinhou.

No 'hall' do rés-do-chão do prédio de Patrícia, a memória de Precilia é evocada através de uma fotografia legendada "Je suis Paris". Vários lanços de escada acima, junto à entrada do apartamento e ao lado da campainha "Correia", há fotografias de Precilia e do namorado coladas na parede, por cima de uma mesa coberta com um jarro de rosas brancas e uma vela acesa. Uma das imagens está legendada: "Vocês amavam a vida, foi por isso que vo-la arrancaram."

"Devemos continuar a viver, não devemos ceder a este terror que se abateu sobre o nosso país e outros países. Amamos a vida e é preciso continuar a viver, continuar a assistir a concertos, continuar a jantar e a beber um copo numa esplanada, a partilhar a vida como a amamos e não ceder a estes fanáticos", aconselhou Patrícia Correia.

A associação serve de mediadora entre as vítimas e os organismos estatais, desde a segurança social, à procura de alojamentos adaptados para os que ficaram com sequelas físicas muito graves, ao próprio governo, a quem é pedida a execução das promessas feitas pelo Presidente francês, François Hollande, relativamente à reforma do fundo de garantia das vítimas de atos de terrorismo (FGTI).

"Muitas vezes, fazem promessas durante as homenagens, como o senhor François Hollande sobre o fundo de garantia e sobre a atitude humana que nem sempre está à altura do que deveria ser relativamente às vítimas. Ele fez-nos promessas, mas espero que elas sejam realizadas e cumpridas porque há muito por fazer", afirmou.

A "13onze15" também iniciou "um combate contra a radicalização porque é preciso encontrar soluções" para tentar travar o recrutamento de jovens pelas fileiras 'jihadistas' mas "é um trabalho que vai levar uma geração ou mais" porque se está "em cima de um barril de pólvora".

A prioridade da associação é auxiliar os sobreviventes em termos administrativos e em ajuda psicológica porque além dos que "ficaram mutilados e assistiram a cenas de guerra" há também os sobreviventes que não ficaram com sequelas físicas e os familiares de vítimas mortais "que estão feridos no interior".

"Fica-se destroçado, é-se assombrado constantemente por esta dor que nos invadiu, é uma tortura diária. Tentamos dar algo, um apoio, mas sabemos que nunca vamos conseguir dar uma cura completa. Toda a gente contribui mas não somos mágicos e, infelizmente, não vamos poder apagar o que está na mente, o que as pessoas viram, os feridos assistiram a cenas de guerra e é qualquer coisa abominável", descreveu.

No próximo dia 13 de novembro, no aniversário dos atentados, os membros da associação - entre familiares de vítimas e sobreviventes - vão reunir-se num local privado, depois das cerimónias oficiais.

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