A NATO confrontada com o desafio da desconfiança russa

Cimeira na Polónia, em julho, terá no centro a contestação de Moscovo às realidades geoestratégicas do pós-Guerra Fria

A crescente e múltipla ameaça terrorista, os desafios para a segurança e estabilidade internacionais e as questões relacionadas com o alargamento da Aliança Atlântica vão dominar a cimeira marcada para Varsóvia, a 8 e 9 de julho de 2016.

Uma cimeira que sucede numa conjuntura em que "está em causa a ordem de segurança europeia criada no final da Guerra Fria com os tratados das Forças Nucleares Intermédias (1987), das Forças Convencionais na Europa (1990) e o de Redução de Armas Nucleares Estratégicas (1993)", afirma Miguel Monjardino, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (IEP-UCP). "Estes tratados criaram uma ordem de segurança assente na confiança e na transparência" entre o Ocidente e o Leste, nomeadamente a Rússia, hoje em crise pela estratégia de Vladimir Putin, representante de uma "Rússia mais tradicional e competitiva que suspeita da cooperação euro-atlântica. Os últimos dois anos mostraram que Moscovo não concorda com as regras e a geografia europeia da ordem que foi criada há 25 anos" no final da Guerra Fria, considera o investigador do IEP-UCP.

Um dos pontos de tensão entre a Rússia e o Ocidente é o alargamento da NATO, que Moscovo classifica invariavelmente como expansão e a que responde sempre com ameaças de retaliação. Mas o alargamento comporta alguns riscos para a NATO com a entrada de países débeis em termos de capacidades de defesa, aumentando as responsabilidades da Aliança e respetiva esfera geográfica de ação, colocando-se a questão se novas adesões contribuem ou não para a segurança e estabilidade da Aliança. Veja-se o Montenegro, Bósnia e Herzegovina e Macedónia Se no primeiro caso, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 28 membros da NATO no início de dezembro decidiram abrir o processo de negociações, foi notado que o Montenegro, país com pouco mais de dois mil militares e 1,2% do PIB gasto em Defesa (a NATO advoga a meta de 2%), apesar de participar - à sua escala - em operações internacionais da Aliança e da União Europeia, tem um longo percurso a fazer em matéria de reformas nas forças armadas e na luta contra a corrupção. Por outro lado, a adesão do Montenegro pode ter reflexos positivos ao reduzir as tensões regionais, agora que a Sérvia procura aproximar-se da UE, com alguns analistas a sugerirem que, mais tarde ou mais cedo, Belgrado poderá redefinir a relação histórica com Moscovo e tentar a cartada da NATO.

A abertura do processo do Montenegro provocou uma reação imediata em Moscovo, com o Kremlin a garantir que "a expansão da NATO e das suas estruturas militares para o Leste [da Europa] não ficará sem resposta (...) da Rússia, no que diz respeito a garantir a segurança e a paridade de interesses", disse o porta-voz Dmitri Peskov. Miguel Monjardino nota não ser possível ficar surpreendido com as posições de Moscovo. "Quem conheça a história europeia e russa não pode ficar surpreendido com o que está a acontecer desde o assalto russo à Crimeia em 2014. Porém, a ordem de segurança e defesa europeia mantém-se apesar da pressão russa. Só que as capitais europeias, bem como Otava e Washington precisam de a defender do ponto de vista militar e político." É este o desafio "que estará em causa" no próximo ano na cimeira de Varsóvia, sublinha o investigador do IEP-UCP. Em todas as questões a debater em Varsóvia, do outro lado há invariavelmente interesses russos. Do alargamento à Suécia e Finlândia às relações com a Ucrânia e Geórgia, países que não detêm soberania sobre a totalidade do território nacional, com o Leste da Ucrânia na posse de forças apoiadas e equipadas por Moscovo, e o segundo com a Abecásia e a Ossétia do Sul a terem declarado unilateralmente independência, apenas reconhecida por Moscovo.

No caso sueco, país que integra a Parceria para a Paz da NATO e participa regularmente nos exercícios militares, a questão põe-se em termos de integração total. Quando em setembro a discussão se abriu na Suécia, a resposta da Rússia foi imediata, com o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov a declarar que uma integração na NATO teria "consequências políticas, militares e diplomáticas", vincando a sua natureza retaliatória.

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Na Finlândia, a questão é ainda mais delicada. O país esteve sob administração de Moscovo e travou com a Rússia duas guerras (1917-1922 e 1939-1940). Uma integração na NATO deixaria para trás o estatuto de neutralidade prosseguido desde a independência em 1917. No imediato, não é previsível que tal suceda. Recentes sondagens indicam que a maioria dos finlandeses, mesmo com as tensões no Báltico e o conflito na Ucrânia, deseja a manutenção do statu quo. No entanto, Helsínquia como Estocolmo desejam uma "relação especial" com a Aliança, o que será abordado na cimeira de julho.

Neste como noutros pontos, "a dura história europeia, que parecia ter sido ultrapassada", está de volta, segundo a interpretação daquele investigador.

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