"O exemplo de Portugal na covid-19 mostra muito claramente como a situação é frágil"

Entrevistada em Bruxelas, pelo DN e TSF, a comissária europeia da Saúde afirma que a evolução do número de casos em Portugal demonstra como a covid 19 é imprevisível, mesmo em regiões onde a situação parecia controlada. Stelly Kyriakides defende que a retoma das viagens requer cuidados redobrados dado o potencial aumento das infeções por coronavírus. Este texto foi publicado originalmente no dia 3 de julho e faz parte de um lote de trabalhos relacionados com a covid-19 que o DN está a republicar.

Assume-se como uma apaixonada por futebol, mas espera que a saúde pública impere, na hora de decidir sobre a assistência nas bancadas na final da Champions, em Portugal. A comissária europeia da Saúde, Stella Kyriakides. afirma que é preciso ser vigilante com o coronavírus e apela às entidades nacionais para tomarem medidas, sempre que a proteção das pessoas esteja comprometida.

Está a par da evolução do número de infeções por covid-19 em Portugal?
Sim, claro, estou a par da situação em Portugal, como estou a par da situação em todos os Estados-membros, porque tenho atualizações diárias que o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) tem vindo a fazer nos últimos quatro meses. A diminuição das medidas de contenção e a retoma das viagens não pode ser isenta de riscos. E, é claro, sabemos que também há zonas noutros Estados-membros em que se observa um aumento nos surtos locais. Todas as medidas precisam ser tomadas para isolar esses surtos o mais rápido possível, [que é] o que os Estados-membros estão a fazer atualmente.

Existe preocupação na Comissão Europeia com a situação em Portugal?
Penso que o que precisamos entender - que é o que tenho dito desde o início - é que enquanto o vírus estiver aí, ele estará a circular entre nós. E é por isso que tínhamos as diretrizes do roteiro sobre como diminuir as medidas de contenção e as orientações sobre como retomar as viagens, o turismo e a aviação. O importante é que tenhamos esse nível de preparação nos Estados-membros. Então, eles testam, fazem rastreamento de contactos e onde virem surtos localizados são capazes de os conter. Juntamente com os cidadãos, percebendo que a covid-19 anda a circular por aí. E, precisamos continuar vigilantes. Precisamos continuar a fazer distanciamento social, fazer higiene das mãos, porque ainda não superámos isto. Estamos numa fase diferente desta pandemia. Mas ainda não nos livrámos disto.

Então, essa é das lições que pode ser tirada destes novos surtos num país que há tão pouco tempo era considerado um milagre de sucesso na resposta à pandemia de covid-19?

Eu não diria que isto são lições. Penso que o exemplo de Portugal mostra muito claramente como a situação é frágil. E, em regiões mais ou menos inatingidas até agora, estamos a assistir a um aumento no número de casos. A minha responsabilidade como comissária para a Saúde e o meu dever é manter-me realista, olhar para a ciência e assegurar-me que todos percebem que a covid-19 ainda está connosco. Ninguém pode dizer como as próximas semanas e meses vão desenrolar-se. Certamente não estamos onde estávamos em janeiro e fevereiro, quando os casos apareceram pela primeira vez. Mas precisamos estar vigilantes e, quando necessário, tomarmos medidas para proteger os cidadãos.

A primeira explicação das autoridades para o aumento dos números de infeções foi com aumento do número de testes, na lógica de quanto mais testes, mais casos desvendados. Ou seja, por causa do reforço da despistagem, os países são penalizados na sua imagem internacional. Por que razão a União Europeia não dispõe de critérios de teste harmonizados para os Estados-membros?
Emitimos recomendações de diretrizes para testes em março. Mas no número de casos que estamos a verificar nas reuniões do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) - e tivemos uma há menos de uma semana -, esses aumentos devem-se a vários fatores, não apenas a um fator. O que eu quero que fique claro é que estou a realizar reuniões semanais com o ECD, para que discutamos a evolução da situação. É uma situação que está em evolução. Ao mesmo tempo que para a economia é muito importante abrir o turismo e viajar, precisamos de o fazer com cautela. E venho dizendo isso desde o primeiro dia. Então, estamos vendo surtos localizados nos Estados-membros. E, isso era, em certa medida, esperado. A nossa prioridade é garantir que esses surtos permaneçam localizados, que as medidas certas são tomadas para os conter, incluindo testes em larga escala - isto é muito importante -, e um rastreamento de contactos eficiente.

Já mencionou que espera variações no número de casos após o Verão e a reabertura das fronteiras. Pode concretizar? É esperado que tenhamos mais alguns surtos relacionados com o turismo e com a deslocação de pessoas?

Não, não posso prever mais em relação aos números ou às áreas. Mas penso que é muito claro que, com a retoma das viagens, vamos assistir a potenciais aumentos do número de casos. O importante é ter capacidade para tomar medidas. E, claro, quando necessário, re-impor medidas de confinamento e restrições aos ajuntamentos, que é a abordagem correta. Portanto, é algo que precisamos entender e as pessoas precisam entender que o vírus está por aí. Enquanto o vírus circular, veremos surtos localizados. E o importante é fazer contenção. É por isso que estamos a trabalhar em permanência com os Estados-membros para podermos ter essa coordenação.

Em Portugal, tem havido algumas críticas por o país ir receber a fase final da Liga dos Campeões. A Comissão está a acompanhar? Que garantias pode haver de que não aumentará os números? Ainda não há decisão sobre a presença de público, mas mesmo de bancadas vazias, um grande evento como este obriga a deslocação de centenas de pessoas, entre atletas e staff... Que análise faz a Comissão Europeia a esta decisão de Portugal?

Sou fã de futebol. Eu posso entender como as pessoas se sentem ao voltar aos estádios para aplaudirem as suas equipas, especialmente na Liga dos Campeões. E direi isto: precisamos colocar a saúde pública em primeiro lugar. Foi isso que apresentámos na nossa recomendação sobre o que precisamos fazer para nos protegermos a nós mesmos e aos outros da propagação do vírus. Portanto, tenho a certeza de que, quando essa decisão precisar ser tomada, analisarão os critérios científicos e tomarão uma decisão colocando a saúde pública em primeiro lugar.

Está preocupada com a forma como os mais jovens encaram a covid-19? A mensagem está a chegar esta faixa etária?
Penso que vocês jornalistas podem ajudar bastante com isso. Nós também estamos a tentar. Há duas coisas que eu diria aqui. Antes de mais, a vida de todos ficou paralisada. As pessoas tiveram de ficar em casa. As empresas fechadas. Jovens que achavam que estavam na fase das suas vidas de terminar a escola, ir para a universidade, passar o verão a viajar pela Europa... Tudo mudou. Possa entender como os jovens se sentem, que queiram que volte a ser rapidamente como dantes. Mas temos de entender que precisamos aprender a viver com uma nova normalidade, para nos protegermos a nós mesmos e aos outros. E está aqui a dar-me a oportunidade de partilhar esta mensagem, porque que também há muita desinformação. Muita desinformação na covid. A ideia de que não há vírus, que não há perigo, que não precisamos manter distância social. E o que precisamos é de enviar informações precisas para que os jovens - e não apenas eles - possam seguir as orientações que lhes estamos a dar para se manterem a eles e aos outros protegidos. Por essa razão, já tive uma reunião com o Twitter e estamos a trabalhar muito de perto, assim como está a comissária [europeia da Justiça, Vera] Jurová. E, estou a ter uma reunião com o Facebook para discutirmos as informações falsas sobre esta pandemia, que estão a atingir as pessoas e a criar dificuldades nos caminhos a seguir.

Em relação aos tratamentos, a Comissão Europeia prepara-se para autorizar o uso do Remdesivir para tratar os casos mais graves da covid-19. Está preocupada com a atuação da Administração americana, que ordenou a compra de praticamente toda a produção do único medicamento com provas oficialmente confirmadas?

Bem, estou a par da posição dos Estados Unidos, como disse, estamos a avançar muito rapidamente, para acelerar o processo de concessão de uma autorização de mercado, para o Remdesivir, nos próximos dias. E isso acontece porque sabemos que precisamos avançar muito rapidamente, para garantir a disponibilidade de tratamentos, potencialmente eficazes e cientificamente eficazes da covid. Então, tomamos nota da decisão dos Estados Unidos. Mas, também quero partilhar que tive muitas discussões com a Gilead nas últimas semanas, - não apenas agora -, para garantir o acesso máximo ao Remdesivir na União Europeia, e que essas discussões e as negociações estão atualmente em andamento. Portanto, já estamos a negociar com a Gilead.

A resposta sobre uma vacina é aquela que todos queremos ouvir. Já existem algumas a ser testadas em etapas adiantadas. Sei que é uma resposta que envolve algum tipo de futurologia. Mas é uma resposta a uma pergunta que todos colocamos. Na sua melhor expectativa, a que distância estamos de ter uma vacina operacional, segura e eficiente no mercado, pronta a ser utilizada?
O que posso dizer é que estamos a fazer tudo para avançar o mais rápido possível com isto. Ninguém está seguro, até que todos estejam seguros. Esta é a realidade, e é disso que estava falar antes, em termos de surtos localizados. Enquanto Comissão avançámos o mais rápido possível. Lançámos a estratégia europeia para as vacinas. Estamos a usar o instrumento de ajuda de emergência, que tem 2,7 mil milhões para negociar e realizar compras de vacinas, para podermos ajudar as empresas, expandir a capacidade e progredir na investigação e apoiar o desenvolvimento [de vacinas]. Isso beneficiará não apenas a Europa, mas o mundo. Então, estamos a fazer o melhor possível, porque entendemos que precisamos de o fazer para termos cidadãos seguros. Mas não estou em condições de falar em prazos. O que posso dizer é que o meu calendário diz que precisa de ser o mais rápido possível.

Espera que haja algum trabalho em Bruxelas com os Estados membros, para tornar a vacina disponível, com os mesmos critérios para outros europeus? Ou podemos esperar algum tipo de açambarcamento, como o que vimos no caso dos equipamentos de proteção pessoal, com alguns Estados a ficarem sem materiais disponíveis?
É por isso que temos uma estratégia para as vacinas. É por isso que, na estratégia de vacinas, todos os 27 Estados-membros fazem parte do grupo diretor nas negociações com as empresas, para que haja uma ação conjunta nisto. Portanto, há uma ação coordenada e todos os Estados-membros estão nisto juntos.

Olhando para trás, no início de março lembro-me de a escutar no Parlamento a dizer: 'Deixem-me ser absolutamente clara: não se pode continuar como se nada fosse. Estamos perante uma situação excepcional. E, sob estas circunstâncias, todos tem de estar preparados para as próprias responsabilidades'. Considera que todas as entidades têm estado à altura das responsabilidades de que falava?
Tenho acompanhado e gerido a crise da covid-19 desde o início de janeiro. Portanto, entendo perfeitamente que, no início, era mais difícil para os Estados-membros perceberem como esta situação evoluiria. Nunca devemos esquecer que estamos a lidar com uma crise sem precedentes e com uma situação que se desenrola muito rapidamente. Mas tenho tido um ótimo relacionamento a trabalhar com todos os ministros [da Saúde] nos últimos quatro meses. Tivemos mais de vinte e sete chamadas com todos os ministros coordenando e partilhando diretrizes para os testes, para a contenção, em todas as etapas, para que pudéssemos dar o máximo de coordenação possível. Acredito que os Estados-membros estejam plenamente conscientes de quais são os desafios. Houve um grande apoio ao programa da União Europeia para a Saúde que nós propusemos. De todas as crises nasce a oportunidade. E isto, para mim, é uma oportunidade de colocar a saúde no topo da agenda. É por isso que propomos este programa muito ambicioso, com um orçamento de mais de 9 mil milhões de euros, que foi muito bem aceite pelos Estados-membros, pelos ministros da Saúde e pelo Parlamento Europeu. Eu apelei e enviei mensagens desde o início a dizer que não poderíamos continuar como dantes, como se nada fosse. A vida paralisou. As economias pararam. Precisamos avançar. Não queremos ouvir os cidadãos da UE a pensar e a dizer: onde estava a UE durante a crise? É por isso que abrimos este novo capítulo para a política de saúde da União Europeia para obter ajuda, porque precisamos fazer a diferença com um ambicioso programa de saúde.

Acredita que a União Europeia e os seus diferentes Estados estão preparados para a possível segunda vaga ou novos surtos?
Nas próximas duas semanas apresentarei um plano de ação sobre a preparação de curto e longo prazo de que os Estados-membros precisam. Vai abordar a questão do nível de preparação, para que possamos analisar juntos todas as questões nesta nova fase da pandemia e poder partilhar com os Estados-membros o nível de preparação que precisamos ter, caso tenhamos um aumento de casos.

Quer dizer em traços gerais algumas das medidas abordadas nesse plano?
Ainda estamos a trabalhar nisso agora. O trabalho diário na covid-19 não parou. Estamos a avançar sobre o plano de ação, baseando-nos nas evidências científicas que obtemos do ECDC. É por isso que tenho atualizações diárias. Portanto, está na altura de avançar, para poder partilhar o plano com os Estados-membros em julho, para que possamos estar preparados para os próximos meses.

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