Num futebol onde o racional é efémero e acaba sempre espezinhado pelo emocional que arrasta multidões, este é um esclarecimento quase obrigatório nos extremados tempos que correm. Nem todos os que elogiam Cristiano Ronaldo são ronaldetes e nem todos os que dizem mal dele o querem “matar”, uma expressão infeliz do capitão português antes do jogo com a Espanha que acabou por ditar a eliminação de Portugal nos oitavos de final do Mundial2026 e, por arrasto, o adeus do próprio Ronaldo aos palcos mundiais. Correndo esse risco, e de forma consciente, digo que Cristiano Ronaldo é maior do que o título mundial que poderia ter conquistado com Portugal e para Portugal. E é preciso que o próprio perceba isto para não sair de cena como mais um, porque Ronaldo nunca será só mais um, como mostram as multidões de adeptos, a maioria não portugueses, com a camisolas com o número 7 e o nome de Ronaldo nas costas.Imagens que serão eternas, assim como, claro, ficaria na história a conquista do campeonato do mundo e a imagem dele com o troféu Jules Rimet. Mas, olhando para a frente, a sua dimensão é incomparável. Daqui a 50 anos, o título mundial que poderia acontecer e fazer jus ao atleta e a todas as gerações que atravessou seria quase uma mera nota de rodapé, como hoje é o facto de o Uruguai ter sido o primeiro campeão em 1930 ou como já é, em parte, hoje à distância de dez anos, o Euro2016.O que Ronaldo foi, é e vai continuar a ser para o futebol transcende essa conquista coletiva pelo País e em nome do País. Um usbeque disse aos microfones da CNN que se deslocou a Houston para ver o jogo de Ronaldo frente ao seu Usbequistão, confessando mesmo que queria ver golos do português contra a sua seleção. Isso é um exemplo de como o menino Ronaldo, nascido na Ilha da Madeira, e hoje com a respeitosa idade de 41 anos, é maior do que o primeiro troféu mundial que poderia conquistar com sua seleção. Ele mexeu com o mapa do futebol e sacudiu não só o dogma interno sobre Eusébio ser o rei do futebol português como abalou o eixo Brasil-Argentina/Pelé-Maradona e iniciou uma nova discussão com Lionel Messi sobre quem é o melhor da história.Há dias, um jornalista português a trabalhar no Gana, Pedro Cid, contou que estava de férias em Lisboa quando lhe marcaram uma reunião na Nigéria. Tinha o visto expirado e quando ligou para os serviços consulares nigerianos avisaram que teria de esperar 15 dias, mas quando desabafou em bom português, a conversa foi dar a Ronaldo, palavra mágica que desbloqueou um visto em 10 minutos.O triunfo de Portugal sobre a Croácia gerou enorme entusiasmo na Índia, país do críquete que nunca participou num mundial de futebol, com milhares de fãs do jogador a sair à rua em várias cidades indianas para festejarem equipados com as cores portuguesas. Emocionante foi também saber que Hernán Gil, o venezuelano de 44 anos que sobreviveu oito dias soterrado nos escombros de um centro comercial, em Caracas, após o sismo na Venezuela, quando soube que a equipa de socorristas era portuguesa, ainda teve forças para gritar “Ronaldo”, mantendo-se agarrado à esperança de um salvamento com sucesso. Depois soube-se também que o jogador que lhe enviou uma camisola autografada, mas este debate não é sobre o seu lado humano. É sobre a dimensão de uma lenda, Cristiano Ronaldo, que por nascimento é português, mas conquistou uma dimensão universal e eterna como jogador de futebol.Adaptando uma frase do célebre escritor brasileiro Nelson Rodrigues: se Cristiano Ronaldo não ganhou um Mundial, pior para o Mundial.isaura.almeida@dn.pt