A festa já durava há vários dias em Cabo Verde e no largo de Quebra Canela, na cidade da Praia, já se sabia que ia continuar, fosse qual fosse o resultado frente à Argentina, para celebrar a notoriedade conquistada pelo país.Apesar da derrota por 3-2, no prolongamento, a forma como os Tubarões Azuis deixaram a campeã mundial em sentido faz crer à multidão que, daqui em diante, nada será igual..Argentina elimina Cabo Verde mas após duas recuperações dos tubarões azuis e um dos melhores golos do Mundial. “Perdemos, mas a história que Cabo Verde fez fica marcada. Um país que se estreia no Mundial e deixa a campeã a chorar, isso, é algo grande”, disse Yura Lubrano, que antes de o jogo começar tinha chegado a alvitrar que 03 de julho devia ser um novo feriado nacional - quase colado ao Dia da Independência, que se celebra domingo.Centenas juntaram-se num longo aplauso, em frente ao ecrã gigante, no final do jogo que a seleção disputou até ao último apito, tecendo a história de novos ídolos nacionais como Vozinha, guarda-redes da seleção.“Eu sinto orgulho, jogámos sem medo e o mundo inteiro acabou de nos conhecer”, disse Fátima Fortes que já olha para o próximo Mundial (2030) e acredita que a equipa “vai continuar a fazer história” em Espanha, Portugal e Marrocos.“Com certeza, estaremos lá de novo e se jogarmos em Portugal, ninguém nos segura”, disse.A festa mostra que se celebra algo maior que o futebol.“Os Tubarões Azuis mostraram a essência do nosso povo, que faz sementeiras com 1% de chance quando tira o último grão de milho do tambor com esperança que a chuva venha. A partir de agora tudo será diferente”, disse José Nunes.. Afinal, a seleção mostrou que a chave é “acreditar no potencial” do arquipélago e diáspora, acrescentou.Comovido e ao mesmo tempo em festa, Dani Mendes beija o símbolo da Federação Cabo-verdiana de Futebol que traz ao peito.“Nós vamos comemorar, nós somos vencedores, porque esta é uma alegria inexplicável. Independentemente das adversidades da vida, lutamos e este foi o primeiro de muito mundiais. Viva Cabo Verde”, gritou.Música, dança, grupos unidos em abraços com a bandeira pelas costas, comovidos logo quando o hino tocou pela quarta vez no Mundial 2026 - e com a esperança de que não fosse a última.Ninguém arredou pé até ao fim, cada defesa de Vozinha e cada contra-ataque dos Tubarões Azuis festejados com fervor.“Damos graças a Deus, já foi um grande passo para o nosso país e para as nossas crianças, pelo seu futuro”, apontou Silvestre Mendonça, entre a multidão, mas com os netos em mente.O movimento nas escolinhas de futebol da cidade tem crescido nas últimas semanas e vários desses jovens estiveram entre o público de olhos colados no ecrã gigante.“Para um país que está a participar pela primeira vez num Mundial este é um grande momento, um grande feito”, disse Filipe Bernard, brasileiro em Cabo Verde, equipado com camisola da seleção canarinha.Mas hoje o apoio estrangeiro não chegou e, agora, já há quem pense na receção aos Tubarões Azuis.“Acho que Cabo Verde foi longe e quando voltar vai ter muitas pessoas à espera no aeroporto. Eu estou satisfeita com Vozinha e toda a equipa, porque eles deram tudo nestes jogos”, referiu Sofia Silva.“Já ganhámos, estamos a ganhar, bastou ter estado lá”, disse Francisco Silva, que nunca pensou ver um jogo da sua seleção contra a campeã do Mundo, Argentina, juntando as mãos em direção ao céu: “graças a Deus, aleluia”.