A minha alienação, entre futebol e piratas

Vítor Moita Cordeiro

Nasceu em Lisboa em 1978. Contador de histórias, apaixonado por música antiga, etnografia e cinema esquecido. É na política prática, aquela que move o mundo, que encontra os desafios que partilha no jornal. Trabalha no Diário de Notícias desde 22 de agosto de 2023.

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A 19 de junho de 2025 o Mundial de Futebol de 2026 estremecia (não sei se estremecia, mas apetece-me dramatizar) quando se soube que uma pequena ilha das Caraíbas que até pertence ao Reino dos Países Baixos tinha apurado, pela primeira vez na história, a sua seleção nacional para esta magna competição onde equipas com onze homens andam a dar pontapés numa bola (poderia chamar-se chutos e pontapés, mas a modalidade teria de pagar direitos de autor a alguém). É assim que emerge Curaçau do nevoeiro do tempo, depois de ter ficado à frente da Jamaica e de Trindade e Tobago, no Grupo B (não sei o que é que isto significa, mas é um termo técnico que me enche de confiança).

Consta que é um grande feito para um país com cerca de 160 mil habitantes – é a mais pequena nação em população e território a pisar aqueles relvados –, palmeiras, calor e praias com água azul cristalina povoada por criaturas marinhas que encantariam Robert Louis Stevenson nas suas mais ousadas incursões literárias. E é aqui que reside o tesouro.

Não imagino quem é que se sagrará campeão do mundo do desporto rei (pelo menos em Portugal, onde não é conhecido por soccer), mas garanto que Curaçau já ganhou pelas histórias que suscita em quem não percebe nada de futebol.

Nomes como Eloy Room, Jurien Gaari e Roshon van Eijma vão operar o esférico (adoro recorrer a esta palavra enquanto substantivo e não adjetivo) sob a supervisão de Dick Advocaat, mas o que me interessa mais são os cerca de quatro séculos que separam estes heróis nacionais de Curaçau dos seus antepassados, que muito provavelmente pilharam embarcações, aterrorizaram mercadores e viajantes incautos e inspiraram Robert Louis Stevenson a escrever a sua obra monumental intitulada A Ilha do Tesouro, dada ao prelo algures em 1883.

Já toda a gente ouviu falar de Long John Silver e do Capitão Flint, mas interessa-me mais ir às Caraíbas reais, onde o sealord (senhor dos mares) Bartholomew Roberts semeou o terror com mais de 400 navios conquistados com balas de canhões, sabres de abordagem, ou cutlass, em inglês, e quase de certeza mau hálito (mas não o dele).

Aos 37 anos, Roberts sucedeu a Howell Davis como comandante do navio King James e era conhecido por ser extremamente educado, culto e até bonito, apesar de ter trabalhado num navio negreiro, portanto, votado ao tráfico de escravos.

Um dia, depois de muito tempo de serviço, os piratas que operavam ao serviço de Roberts, amotinaram-se e acabaram-lhe com o sofrimento. 

Eis os factos que levaram a tal desfecho. “Quem for encontrado, no navio ou em terra, com o fato sujo ou esfarrapado, será desembarcado e abandonado numa ilha deserta”, decretou o comandante daquela frota apócrifa face aos ingleses, depois de ter decidido outras regras que previam aplicar a pena de morte a quem falasse em terra das operações levadas a cabo a bordo.

Num dos navios de Roberts, o Royal Rover, os marinheiros deixaram de ser denominados como tal, por ordem do comandante, passando a ser tratados por sealords. Deixaram de ser uns ladrões desdentados para assumirem uma elevada condição social, como senhores dos mares. Mas continuariam a ser desdentados.

Bartholomew Roberts era ainda mais exigente consigo próprio do que com os homens que comandava.

Recusava-se a praguejar, não se embriagava, não fumava tabaco ou outras plantas e bebia chá a partir de uma baixela de prata, que mantinha a bordo. Reza a lenda que tinha uma orquestra à sua disposição que lhe tocava Händel, sempre que o comandante o exigia.

Claro que isto constituiu uma barreira cultural entre Roberts e as suas tripulações, que não aceitavam a desfaçatez de ter como guia nos mares inspiradores caribenhos uma pessoa de elevação cultural, ainda que tivesse trabalhado num navio negreiro, que me parece algo imperdoável. Certo dia, mataram-no. Não aguentaram mais aquele modo de vida.

Só me pergunto como é que em geral aceitamos acriticamente o modo de vida dos futebolistas, que são uma espécie de Bartholomew Roberts, não necessariamente na educação, mas no dinheiro que ganham para fazerem o que fazem. Não sugiro nem de perto nem de longe com isto dar-lhes um desfecho como aquele que os sealords deram ao comandante, mas parece-me sensato questionar a indústria por trás do futebol.

Gosto da ideia de haver piratas na Copa.

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