Presidente da ASF insiste em sistema de proteção de catástrofes e avisa para quatro grandes riscos
Gabriel Bernardino, presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), apelou novamente à criação de um sistema nacional de proteção de tempestades como forma de proteção contra as catástrofes cada vez mais frequentes, um dos quatro grandes riscos que o setor está a enfrentar.
O responsável pela entidade reguladora dos seguros foi um dos convidados da Money Conference, uma iniciativa do Diário de Notícias e do Dinheiro Vivo. Na sua participação, Bernardino elencou quatro "grandes transformações" que alimentam a incerteza, um sentimento que diz fazer-se sentir em toda a sociedade dado os riscos crescentes e que interagem de novas formas.
Este sistema, proposto em março ao Governo na sequência dos efeitos do chamado "comboio das tempestades", é visto como importante para combater a crescente vulnerabilidade do país aos efeitos das alterações climáticas e a intempéries cada vez maiores, como incêndios rurais ou novas tempestades.
"Nenhum país consegue enfrentar sozinho catástrofes de grande dimensão recorrendo ao mercado segurador ou apenas aos fundos públicos", afirmou o responsável, defendendo uma "abordagem integrada com base na prevenção, mitigação, transferência de risco e mecanismos de solidariedade" que obrigue a "repensar os mecanismos de proteção existentes".
"O objetivo é aumentar os níveis de proteção da população, reduzir a lacuna de cobertura existente e reforçar a capacidade de recuperação do país", explicou o responsável.
Outro risco elencado foi o dos riscos geopolíticos e financeiros. Apesar de robusto, Portugal tem de se reforçar para o novo "enquadramento internacional" e os novos riscos como as ameaças cibernéticas.
Estes dois riscos, na verdade, espelham outra dinâmica crescente: a interligação entre diferentes formas com novas "capacidades de contágio".
"Aquilo que mais me preocupa não são necessariamente os riscos isolados mas sim a crescente convergência entre fontes de risco que tradicionalmente eram analisadas separadamente", afirmou.
"O desafio central para os supervisores e também para as instituições financeiras é assim cada vez mais compreender os mecanismos de transmissão e amplificação dos choques e não apenas estimar a eventual probabilidade de ocorrência de cada um dos eventos", acrescentou ainda.
Depois, o desenvolvimento tecnológico apresentado pela inteligência artificial é outra das grandes transformações que preocupam o setor, uma transformação que o responsável acredita poder ser "ainda melhor que a da internet nas últimas décadas".
Elogiando a IA enquanto algo que permite "melhorar a experiencia dos clientes e aumentar a eficiência", especialmente em algo que permite melhorar a "deteção de fraude" e o "reforço de cibersegurança".
Porém, Gabriel Bernardino, avisa para questões que vêm com a implementação destas tecnologias, nomeadamente "ligadas à qualidade dos dados, aos enviesamentos algorítmicos, a explicabilidade das decisões e à privacidade".
Para além disso, o que preocupa mais pode estar para vir. A "crescente autonomia" que os modelos de inteligência artificial estão a ganhar e as questões de concentração das tecnologias usadas em países externos preocupam o setor dos seguros, disse o presidente da ASF.
Esta primeira traz preocupações sobre "a soberania digital", afirmou, explicando que é algo que está a ser discutido na Europa. Já quanto à autonomia da IA, Gabriel Bernardino referiu que, à medida que se tornam mais formas de execução e menos ferramentas de assistência,
"A inovação deve avançar mas a responsabilidade tem de continuar a ser humana em última analise", rematou o responsável da autoridade reguladora.
Por fim, Gabriel Bernardino frisou as questões da demografia, especialmente numa altura em que os avanços tecnológicos permitem novos cuidados médicos e, por sua vez, dar mais tempo de vida às pessoas.
O presidente da ASF disse que a maior longevidade vai obrigar o setor a mudar e "transformar profundamente" como este pensa "na proteção financeira". Ao mesmo tempo, o país está "envelhecido", provocando desafios "a nível das pensões, da saúde, dos cuidados continuados e da poupança de longo prazo".
"Uma sociedade mais longeva necessitará de novos mecanismos", insistiu o responsável no seu discurso.
Os quatro temas que partilhei parecem muitos distintos. mas todos tem uma característica comum, todos aumentam a incerteza sobre o futuro e todos reforçam a importância sobre a reflexão.
Por fim, Gabriel Bernardino terminou voltando ao tópico abordado no início, nomeadamente a interligação entre os vários riscos. "Os quatro temas que partilhei parecem muitos distintos mas todos tem uma característica comum, todos aumentam a incerteza sobre o futuro e todos reforçam a importância sobre a reflexão", disse.
"Porque no final a missão do seguro é a mesma. transformar incerteza em confiança, vulnerabilidade em resiliência e risco em proteção", rematou ainda.

