Nuno Vinha (DN, à esq.) no painel composto por Helene Westerlind (Zurich Portugal), Luís Menezes (Grupo Ageas Portugal), Pedro Carvalho (Generali Tranquilidade) e Rogério Campos Henriques (Fidelidade).
Nuno Vinha (DN, à esq.) no painel composto por Helene Westerlind (Zurich Portugal), Luís Menezes (Grupo Ageas Portugal), Pedro Carvalho (Generali Tranquilidade) e Rogério Campos Henriques (Fidelidade).FOTO: Leonardo Negrão

Líderes dos seguros alertam: país arrisca ter "sistema equilibrado com reformados falidos"

Presidentes executivos da Fidelidade, Ageas, Generali Tranquilidade e Zurich exigiram coragem política para reformar pensões, avançar com o Fundo de Catástrofes e conter a escalada de custos na Saúde.
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O encerramento da edição de 2026 da Money Conference, promovida pelo Diário de Notícias e pelo Dinheiro Vivo, ficou esta quinta-feira (8 de outubro) marcado por um diagnóstico cru e objetivo sobre as principais vulnerabilidades estruturais de Portugal.

Sob o tema "O Estado da Nação nos Seguros", os líderes executivos dos quatro maiores grupos seguradores a operar no mercado nacional — Rogério Campos Henriques (Fidelidade), Luís Menezes (Grupo Ageas Portugal), Pedro Carvalho (Generali Tranquilidade) e Helene Westerlind (Zurich Portugal) — juntaram-se num painel moderado pelo diretor-adjunto do DN, Nuno Vinha, para lançar alertas severos sobre o futuro das pensões, a gestão de catástrofes climáticas e a sustentabilidade dos custos na saúde.

A discussão em torno da Segurança Social e do envelhecimento demográfico concentrou grande parte das intervenções. Numa crítica aberta ao imobilismo e ao tabu ideológico instalado no debate público, o CEO da Fidelidade advertiu para as consequências de adiar decisões difíceis: "A discussão sobre a Segurança Social em Portugal está completamente desvirtuada. Cada vez que se fala de Segurança Social, começa-se a dizer que as pensões são sagradas — e são —, mas nós estamos a falar das pensões dos futuros reformados, não é dos atuais".

Para Rogério Campos Henriques, "corremos o risco de ter um sistema equilibrado daqui a 20 anos com reformados falidos", apelando a que a sociedade civil seja "muito mais exigente com o poder político" na construção de consensos transversais.

Na mesma linha, Luís Menezes rejeitou o conformismo instalado, apontando para estudos recentes que indicam taxas de substituição de reforma que poderão cair para metade do último ordenado: "As pensões não são sagradas! O que é sagrado é o sistema de pensões que criámos com pendor redistributivo, mas que, se não for calibrado, não vamos conseguir ter uma sociedade sustentável daqui a 30 ou 40 anos".

Numa referência direta ao adiamento dos problemas pelos ciclos eleitorais, o responsável da Ageas ironizou que, por vezes, "parece que estamos aqui a brincar aos cowboys", avisando que o atual modelo deixará uma fratura social profunda: "Com 50% do último salário como última pensão, daqui a 30 ou 40 anos vamos ter quem tenha tudo e quem não tenha nada".

A perspetiva de empobrecimento das futuras gerações foi igualmente vincada por Helene Westerlind, CEO da Zurich Portugal, que citou projeções que apontam para apenas 38% do último salário líquido para quem tem hoje 40 anos. A gestora sublinhou o atraso estrutural de Portugal na literacia financeira — ocupando a 27.ª posição entre 27 países analisados — e defendeu uma transição institucional com recurso a esquemas automáticos de poupança: "Tal como fizemos na Suécia, a poupança tem de ser posicionada de forma automática no próprio sistema".

Por seu turno, Pedro Carvalho, CEO da Generali Tranquilidade, sustentou que o país tem de evoluir para "um modelo no mínimo híbrido", aliando a vertente redistributiva à capitalização e investimento: "Isto faz-se com mecanismos de poupança que não são forçados, mas que são por defeito, com possibilidade de opting out, e com incentivos fiscais".

O responsável afastou fantasmas ideológicos ao frisar que essa transição não tem de significar uma privatização forçada: "Pode envolver o setor segurador, mas pode não envolver. Pode ser totalmente estatal".

Falta de decisão política trava Fundo de Catástrofes

Outro dos pontos nevrálgicos do debate foi a resposta às alterações climáticas e a urgente concretização de um Fundo Nacional de Catástrofes.

Após um ano de 2026 colocado à prova por tempestades e eventos extremos, o consenso técnico entre as seguradoras e a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) é total, faltando unicamente luz verde do Executivo.

"O que está a faltar neste momento é a decisão política. Há um consenso sobre a necessidade de criarmos um mecanismo desta natureza e já há propostas concretas que o nosso regulador colocou em cima da mesa", afirmou Rogério Campos Henriques, recordando que a experiência trágica recente em Espanha demonstrou a relevância vital de ter fundos mutualizados operacionais.

Helene Westerlind corroborou a urgência, frisando que o setor privado não consegue assumir o ritmo da crise climática de forma isolada: "O setor dos seguros, por si só, não tem capacidade para pagar milhares de milhões por sinistros que estão a ocorrer; não está nesse quadro. A cobertura e a prevenção têm de caminhar de mãos dadas". Pedro Carvalho traçou, por isso, a meta temporal: "2027 devia ser o ano em que o fundo de catástrofes arranca".

Saúde: pressão insustentável exige viragem para a prevenção

A encruzilhada no setor da saúde — que conta já com mais de quatro milhões de portugueses com cobertura privada — fechou a ronda de desafios. Os presidentes executivos alertaram que a combinação entre o envelhecimento da população, a inflação dos atos médicos, os tratamentos de ponta e a explosão da procura de cuidados por faixas etárias cada vez mais jovens está a colocar uma enorme pressão nas margens e nos prémios cobrados às famílias.

"Um tratamento oncológico que custa hoje facilmente dez vezes mais do que custava há poucos anos tem melhor eficácia, mas um custo acrescido", notou Rogério Campos Henriques, questionando: "Como é que a saúde pode ser sustentável com tanta carga de doença?". A resposta das seguradoras passa pela aposta em rastreios precoces, telemedicina e produtos adaptados aos mais velhos. Luís Menezes detalhou a estratégia da Ageas na criação de redes próprias de cuidados (como estomatologia e fisioterapia) e clínicas de proximidade para acompanhar doentes crónicos: "Gerindo melhor o seu risco, sai muito mais barato a qualquer sistema controlar o doente do que ele ter um choque num hospital".

Apesar do impacto dos sinistros em 2026, os líderes dos "Super Quatro", como Nuno Vinha lhes chegou a chamar, na sua introdução, fecharam os trabalhos convictos da solidez e solvência do setor segurador, apontando a inteligência artificial, a proximidade ao cliente e o reforço do papel de parceiros de proteção e longevidade como as grandes prioridades para 2027.

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