Na madrugada de sábado, 03 de janeiro, os Estados Unidos realizaram uma ação militar relâmpago para capturar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, Cilia Flores, e as redes sociais encheram-se rapidamente de imagens da alegada operação, incluindo dos bombardeamentos na capital, Caracas, e noutros pontos do país. Ao início da manhã começaram também a circular várias versões da alegada “primeira foto de Maduro depois de ter sido capturado”.A imagem, da qual surgiram várias versões, mostrava Maduro acompanhado por quatro agentes das forças especiais junto a um avião a jato. Entre as centenas de contas que partilharam algumas dessas imagens estão a conta oficial do Chega em várias redes sociais, incluindo o presidente André Ventura e deputados desse partido, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro, e até órgãos de comunicação social de vários países.. Algumas destas imagens de Maduro apresentavam diferenças entre si e vários pormenores apontavam para a grande probabilidade de terem sido geradas por IA, como cedo apontaram verificadores de factos internacionais. Ao longo da manhã, verificadores de projetos de verificação como a EFE Verifica, Cazadores de Fake News, Fast Check, Newtrale outros chegaram à mesma conclusão.. Como vários apontaram e a Lusa Verifica confirmou, uma das versões mais antigas partilhada por um entusiasta da IA apresentava claramente sinais de origem artificial, nomeadamente a marca d’água invisível SynthID embebida pela ferramenta de IA da Google e que foi possível detetar através de uma análise no Google Gemini, um processo simples que qualquer pessoa pode reproduzir seguindo estes passos.A partir desta foto falsa foram posteriormente geradas outras versões, incluindo um álbum com seis imagens realistas geradas por um especialista em IA, que num primeiro momento não as identificou como criações suas, mas posteriormente as assinalou como sendo “100% geradas com IA”.. Apesar disso, essas fotos também foram amplamente partilhadas nas redes como “imagens oficiais” e circularam também novas versões geradas a partir das criações iniciais com sinais ainda mais evidentes de falsidade, como militares com três mãos.. Além destas, foram também falsificadas imagens de Nicolás Maduro ensanguentado, a ser alegadamente transportado no interior de um avião militar norte-americano ou detido com uniforme militar, neste caso uma manipulação mais simples da foto de um político e empresário detido na Ucrânia em 2022.Nas redes e em alguns media nacionais e internacionais foram também reutilizados vídeos antigos para ilustrar o ataque norte-americano a Caracas, incluindo imagens de arquivo de protestos na Venezuela e noutros países, vídeos de exercícios militares nos EUA e até dos ataques iranianos a Israel, em 2024.A primeira foto oficial de Nicolás Maduro sob detenção norte-americana só foi partilhada a meio da tarde de sábado pelo presidente Donald Trump, na rede social Truth Social e posteriormente na conta da Casa Branca no X, e mostra o presidente venezuelano vendado, algemado e vestido com um fato de treino, alegadamente já a bordo de um navio da marinha dos EUA. .Já neste domingo começaram também a ser partilhadas fotos e vídeos da chegada de Maduro e da mulher a Nova Iorque, local onde será julgado, nas quais surge inicialmente vestido com uma camisola azul com capuz, rodeado de agentes da agência norte-americana antidroga (DEA, na sigla inglesa) e de outras agências. .A análise do Gemini sugere que também estas imagens são falsas. "Embora uma verificação do SynthID não tenha detetado uma marca de água de IA da Google, várias organizações de verificação de factos e análises visuais identificaram indícios significativos de irregularidades quanto à sua autenticidade. Esta fotografia específica não foi divulgada ou verificada por nenhuma agência governamental ou militar oficial", diz.