Cemitério português em França candidato a Património da UNESCO

O cemitério militar português de Richebourg, integrado na candidatura franco-belga dos memoriais da Frente Ocidental da I Guerra Mundial, pode vir a ser classificado como património mundial da UNESCO, na reunião que se inicia domingo, no Bahrein.

O Comité da UNESCO reúne-se até 4 de julho, em Manama, no Bahrein, para escolher os novos locais que vão passar a fazer parte da lista de Património Mundial, após análise das 30 candidaturas existentes, segundo o 'site' da organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

O cemitério militar português de Richebourg, onde estão enterrados cerca de 1.800 soldados portugueses da Grande Guerra de 1914-1918, poderá ser classificado como Património Mundial, quando se assinala o centenário da Batalha de La Lys - a pior derrota militar portuguesa - ao estar integrado na candidatura conjunta "Lugares funerários e memoriais da I Guerra Mundial - Frente Ocidental", apresentada pela Bélgica e pela França.

Vestígios portugueses podem também ser contemplados pela candidatura dos sítios cristãos clandestinos da região de Nagasáqui, no Japão, onde comunidades missionárias ibéricas tiveram um papel determinante, nos séculos XVI e XVII.

Sítios culturais

A maioria das candidaturas (22) diz respeito a sítios culturais, como a paisagem arqueológica de Danevirke e a Catedral de Naumburgo, na Alemanha, o oásis de Al-Ahsa, na Arábia Saudita, as Colónias de Beneficência, da Bélgica e da Holanda, os monumentos da antiga Quanzhou-Zayton, na China, os lugares inuit de caça marítima, da Dinamarca, e o porto tradicional de Khor Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

A Medina de Azahara, em Espanha, o conjunto urbano histórico de Nimes, em França, o conjunto arquitetónico vitoriano e "art déco" de Mumbai, na Índia, a cidade velha de Jacarta, na Indonésia, com as quatro ilhas vizinhas - Onrust, Kelor, Cipir e Bidadari -, o sítio arqueológico de Fars, no Irão, assim como o conjunto industrial de Ivrea e as colinas de Conegliano e Valdobbiadene, em Itália, estão também entre as candidaturas a analisar.

O sítio de Thimlich Ohinga, no Quénia, a antiga cidade de Qalhât, em Omã, os mosteiros budistas da Coreia do Sul, as minas de Rosia Montana, na Roménia e o sítio megalítico de Göbekli Tepe, na Turquia, juntam-se à lista.

Esta contempla ainda paisagens naturais da China (Fanjingshan), Rússia (Vale do Bikin), França (Puys e Limagne), Irão (Arasbaran) e África do Sul (Montes de Barberton Makhonjwa), e três áreas de "caráter misto": o lugar de Pimachiowin Aki (A terra que dá vida), no Canadá, o Parque Nacional de Chiribiquete, na Colômbia, e o vale de Tehuacán-Cuicatlán, no México.

Locais em perigo

A reunião do comité da UNESCO, composto por representantes de 21 países, será dedicada também a examinar o estado de conservação de locais classificados e de outros, tendo sido classificados, foram entretanto considerados "em perigo".

Um dos ameaçados, que pode perder a classificação, é o centro histórico de Shakhrisyabz, no Uzbequistão. Inscrito em 2000, entrou na lista de património em perigo em 2016, devido a projetos de desenvolvimento urbano em grande escala, que alteraram o ordenamento original, o ambiente dos monumentos e os seus estratos arqueológicos, como sublinhou a diretora do Centro de Património Mundial e Património da Humanidade da UNESCO, Mechtild Rössler, na apresentação da agenda da reunião, à imprensa.

A barreira de corais do Belize, a segunda maior do mundo, depois da Austrália, por seu lado, deverá sair da lista do património mundial em perigo, na qual figura desde 2009, graças às medidas entretanto tomadas, incluindo a mais recente, de final de 2017: o abandono da exploração petrolífera no mar.

No Quénia, o lago Turkana poderá, por outro lado, estar "ameaçado", após a construção de uma represa na Etiópia, que teve "um sério impacto", diz a UNESCO.

"Gibe III", a maior barragem hidroelétrica em África, inaugurada pela Etiópia no final de 2016, foi construída a várias centenas de quilómetros ao norte do Omo, afluente etíope do Lago Turkana, fazendo baixar o nível das suas águas e interrompendo as inundações sazonais essenciais ao ciclo reprodutivo dos peixes.

Durante a reunião do Bahrein também deverá ser feito um apelo para o reforço do Fundo do Património, que atualmente está nos níveis de 1991, segundo Mechtild Rössler, que considerou a "situação muito séria".

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

É o que dá prometer nacionalizar tudo o que mexe

A chegada de Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista foi saudada como uma espécie de feliz regresso às origens, aos ideais fundacionais, à verdadeira esquerda. Tanto mais que essa vitória se fez contra as principais figuras do partido, enfrentando o chamado sistema, amparado num discurso profundamente desconfiado da economia de mercado e próximo de experiências socialistas ou comunistas. Nessa narrativa, que se popularizou, Blair representava o abastardamento desses ideais, uma espécie de esquerda vendida, incapaz de resistir aos vis interesses do capitalismo. Já Corbyn, claro, representava a esquerda autêntica, a preocupada com os mais vulneráveis, e por isso capaz de mobilizar toda aquela jovem militância que transvasava para o partido vinda das redes sociais. E à medida que Corbyn foi resistindo aos ataques do chamado baronato do partido, e não o levando ao colapso eleitoral que os barões afiançavam, a narrativa foi ganhando adeptos na opinião publicada e nas redes sociais politizadas, como que confirmando a ideia de que o centro moderado estava morto, enterrado, que o velho socialismo era o novo socialismo, o único capaz de mobilizar a juventude e as massas, o exemplo a seguir. Diga-se que esta ideia de moderação morta e enterrada não se quedou pelos trabalhistas ingleses nem sequer pela esquerda inglesa. Vários partidos socialistas europeus andam com entusiasmos ou ânimos semelhantes (França, Espanha e Portugal são exemplos), como à direita anda muita gente a defender o mesmo (Espanha e Portugal são exemplos também). Mas eis que o colapso eleitoral chegou, e com estrondo. Um resultado ainda pior do que o sofrido por Foot e Kninock, perdendo bastiões que eram seus há décadas. É o que dá defender nacionalizações de tudo e mais alguma coisa e propor um manifesto próprio da esquerda sul-americana. É o que dá confundir indignação com razão, radicalismo com determinação, emoção com inspiração, tudo embalado pelas redes sociais politizadas, dominadas por elites urbanas deslocadas das principais preocupações das pessoas. Mas se o centro não morreu, se a moderação está viva e de boa saúde, como explicar que Boris Johnson, tomado por cá como uma espécie de Trump, como uma direita pouco moderada, tenha tido uma vitória esmagadora? Convém ir além da forma e do estilo e conhecer não só o trajeto executivo de Boris na Câmara de Londres como também o seu manifesto para estas eleições. Conhecendo-o, vejo poucas razões para a direita que desdenha a moderação andar a celebrar esta vitória. Boris funda o seu manifesto numa adesão à economia de mercado e à democracia liberal pouco compatível com os críticos da globalização e da livre circulação, e exalta um cosmopolitismo e um liberalismo social que costumam arrepiar quem acha que isso é marxismo cultural.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Contas certas com prioridades certas

Cada vez mais, ouvimos dizer que o vínculo entre os cidadãos e a vida política é, hoje em dia, menos pleno do que antes. Rui Rio, esta semana, falou até de um "divórcio entre a sociedade e os partidos". Percebe-se o recurso a esta metáfora por parte do PSD, devido ao seu clima interno de discórdia. No entanto, constatar o afastamento não basta e não nos isenta. Há também que refletir sobre o conceito de "democracia de proximidade" de que tanto falamos e do que isso significa. O que é - de facto - uma democracia de proximidade? Em primeiro lugar, é a democracia próxima dos problemas e anseios dos cidadãos. Basta olhar para a esfera pública para perceber que se exige cada vez mais à democracia que seja capaz de resolver problemas reais e estruturais.