Os "heróis invisíveis" que deixam as ruas limpas

Bastariam três dias sem limpar que não se poderia andar na rua, tal a quantidade de lixo que se acumularia. A convicção é de Balbina Pinto, da equipa de higiene urbana da Junta de Freguesia de Arroios.

A segunda-feira é o pior dia, aquele em que os elementos da higiene urbana da Junta de Freguesia de Arroios, centro de Lisboa, se deparam com mais lixo espalhado pelas ruas, seja no chão, nas papeleiras ou junto dos ecopontos. Ao domingo há uma equipa a trabalhar, mas não dá vazão a todo o desperdício colocado fora do sítio, mesmo em período de confinamento. "Nós somos os heróis invisíveis. As pessoas não dão por nós, mas nós é que deixamos as ruas limpinhas. Se não fôssemos nós, como é que isto havia de ser? Era uma lixeira autêntica", resume Rui Silva, 44 anos, enquanto conduz a carrinha no início de mais um turno.

Passam poucos minutos das 8.00, hora a que, ainda no posto, o trabalho foi distribuído por cada um dos 27 elementos de serviço. Cada um pega no seu carrinho de contentores, apetrechado com pá e vassoura e segue para o cantão cuja limpeza lhe foi atribuída. Balbina Pinto, 48 anos, segue para Estefânia Norte. "Se se estiver três ou quatro dias sem fazer limpeza não se consegue passar nestes passeios, que é só lixo, não se consegue mesmo. Começa a cheirar mal, o lixo começa a acumular-se, a espalhar-se pelos passeios, não se consegue mesmo andar", garante. "Ainda hoje, cheguei aqui e as pessoas tinham tirado dos caixotes para fora, tinham andado a ver o que havia e deixaram o lixo todo espalhado no chão", descreve. Falta de civismo? Também há, diz, mas os sem-abrigo que por ali pernoitam são os que mais contribuem para o desperdício no chão. "Vêm procurar se há alguma coisa e tiram os sacos para fora, rasgam e fica o lixo todo espalhado."

Já lá vão dez anos desde que Balbina começou a trabalhar na higiene urbana. Primeiro na Câmara Municipal, depois na Junta de Freguesia de Arroios. "É um trabalho que eu gosto de fazer e é um trabalho que é muito necessário. Se nós não o fizermos não se pode andar nesta cidade. É um trabalho que todos os dias fazemos e todos os dias está igual", realça esta mulher que durante cinco anos trabalhou numa florista. "Estou muito contente com o trabalho que tenho. Gosto muito deste trabalho, que é um trabalho em que ando ao ar livre", assegura, mesmo que agora tenho de lidar com maus odores. "Habituamo-nos ao cheiro, já não se sente o mau cheiro. Nos primeiros meses, sentia-se e custava um bocadinho, especialmente quando as papeleiras tinham aquele lixo mais... carnes já podres, essas coisas assim. Custava um bocadinho, agora já não. Habituamo-nos e já não notamos. As flores é uma coisa mais fechada e isto é mais andar ao ar livre e eu gosto mais de andar em liberdade."

Ver tanto comércio encerrado entristece-a. "A pessoa anda na rua e é só portas fechadas. E uma coisa que é triste é uma pessoa querer uma garrafa de água e não a poder comprar, não se poder beber um café... E uma pessoa querer ir a uma casa de banho e não ter onde ir", lamenta.

Com o passar do tempo, foi conhecendo as pessoas que moram ou trabalham no bairro. "Até amanhã", grita para o interior de uma pastelaria, recebendo de lá um cumprimento como resposta. Segue caminho para varrer mais uns papéis do chão. "Encontra-se muito lixo doméstico. Mas é mais papéis, maços de tabaco, e agora ultimamente é máscaras. É uma coisa sem explicação, que é uma coisa que deveria ser colocada no sítio certo, que é uma coisa prejudicial para a nossa saúde, mas mandam as máscaras de qualquer maneira assim para o chão. Máscaras, luvas...", lamenta. Pelo menos, agora há menos beatas, consequência de haver menos pessoas na rua, fruto do confinamento.

Ganhar vida e peso

Rui Silva e o colega Emanuel Araújo seguem na carrinha a ronda pelos ecopontos subterrâneos da freguesia, cujo despejo é competência da Câmara. Na rua Visconde de Santarém, junto ao Arco do Cego, o lixo acumula-se fora dos contentores. O trabalho deles é recolher o mais volumoso e colocar o resto do desperdício no sítio certo. "As pessoas vão ao ecoponto e não se dão ao trabalho de abrir a tampa. Metem logo ali. Acho que isso é falta de civismo", constata Rui. Tanto ele como o colega trabalham na higiene urbana desde setembro do ano passado. Para trás deixaram, por opção, cerca de 30 anos no ramo da restauração. "A indústria hoteleira é uma profissão desgastante, emocionalmente stressante. As pessoas ganham muitas doenças na indústria hoteleira, nervos... As pessoas nem imaginam o que é estar atrás de um balcão ou à mesa a servir. Porque a gente apanha de tudo, tudo, tudo, tudo", diz Rui. No último estabelecimento em que trabalhou, durante nove anos, chegou a servir Marcelo Rebelo de Sousa, ainda antes de este se tornar presidente, ou António Costa, mas não se arrepende da troca, apesar do corte que o salário levou. "Ganhei vida e peso", ri-se.

Agora chega a casa bem antes de jantar, tem tempo para estar com a mulher e os filhos e goza mais fins de semana em família. "É um balanço positivo. É ou não é, Emanuel?", pergunta ao colega, sentado no banco de trás da carrinha. Este não hesita em concordar. "As pessoas, quando veem o homem do lixo acham que somos coitadinhos...", diz. Mas, garante, também ele está melhor agora do que na restauração, onde "há coisas que não se conseguem engolir".

Ricardo Guilherme, 25 anos, passou por vários trabalhos precários e está há ano e meio na higiene urbana de Arroios. Gosta, apesar de achar que corre alguns riscos. "Estamos a mexer no lixo, não se sabe o que é que se encontra no meio", explica, lembrando o dia em que se deparou com uma seringa. Apesar disso não usa luvas. "Não me dá jeito", desculpa-se.

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