As linhas telefónicas que ajudam quem mais precisa em Oeiras

Com o aparecimento da covid-19, a Câmara de Oeiras criou duas linhas telefónicas para ajudar os munícipes que mais precisam. E uma outra para receber inscrições de voluntários.

O espaço da Câmara de Oeiras onde funcionam desde março as três linhas de apoio e emergência criadas pela autarquia por causa da covid-19 não é uma representação fiel da equipa de pessoas que todos os dias escutam ao telefone desabafos e pedidos de ajuda. Lá estão apenas os funcionários voluntários, todos os outros atendem os telefones das linhas de Emergência Social (915 407 455), de Apoio Psicológico (914 354 326) e de Voluntários (214 420 463/210 977 439) a partir de casa.

"Estas linhas foram criadas pelo município de Oeiras como resposta ao contexto pandémico que vivemos, e que tem fragilizado em termos sociais, económicos e psicológicos muitas famílias, e resultou da necessidade identificada da criação de um meio de contacto direto com os cidadãos mais vulneráveis", explica ao DN Isaltino Morais, o presidente da câmara municipal.

"Quanto à Linha de Emergência Social, numa fase inicial, demos prioridade aos idosos com mais de 65 anos, que devido ao confinamento não deveriam sair à rua, e a pessoas infetadas com covid-19. Atualmente, esta linha destina-se a todos os munícipes que se encontram em situação de vulnerabilidade social", acrescenta o autarca

A mais procurada é a de Emergência Social, que entre 19 de março e 19 de janeiro recebeu 649 chamadas. O pico foi nos primeiros três meses, com cerca de 400 a 500 telefonemas. A maioria dos telefonemas foram feitos por mulheres e a média de idades ronda os 50 anos. "Esta linha muitas vezes tem também a vertente do apoio psicológico, porque as pessoas também se sentem muito desamparadas. A esta linha chegam-nos famílias que tinham a sua vida organizada e que, de repente, se viram numa situação de lay-off ou numa situação de desemprego e estão um bocadinho perdidas porque não sabem a que entidades podem recorrer", conta Ivone Afonso, chefe da divisão de Coesão Social da Câmara de Oeiras, prevendo que com o atual encerramento das escolas o número de chamadas vá aumentar, depois de um período mais tranquilo.

A linha Voluntariado serve para receber inscrições de moradores do concelho de Oeiras que querem ajudar o próximo nesta altura de pandemia. Receberam até 19 de janeiro 546 inscrições, com uma predominância entre os 18 e os 54 anos, de ambos os sexos. No que diz respeito aos voluntários efetivos (os que passaram da inscrição à ação), a média de idades está entre os 25 e os 40 anos. Estas pessoas ajudam na entrega de refeições, na compra de produtos alimentares ou medicamentos para entregar em casa de quem precisa.

Já a Linha de Apoio Psicológico recebeu 254 telefonemas até ao passado dia 19, embora tenha estado inativa entre 1 de julho e 1 de novembro. Mais de metade dos relatos recebidos dizem respeito a situações de ansiedade, depressão e solidão, vindas da sua maioria de mulheres. "Houve pessoas que ligaram mais do que uma vez. Havia a preocupação de os colegas fazerem algum acompanhamento, para que as pessoas não se sentissem tão sozinhas. Agora as pessoas voltaram ao confinamento e já sabem ao que vão, mas naqueles primeiros tempos, em que ninguém sabia muito bem como é que isto ia ser, provocou algum desnorte nas pessoas, nomeadamente naquelas pessoas sozinhas, sem rede de apoio, que se sentiram completamente desamparadas. Esta linha, no fundo, assume-se como uma linha de conforto", declara Ivone Afonso.

Pedidos que não se esquecem

Esta responsável também já passou pelo atendimento de chamadas nas linhas e há pedidos de ajuda que não vai esquecer. "Houve aqui situações, nomeadamente daqueles agregados monoparentais, de irem para lay-off ou ficarem desempregados sem direito a qualquer prestação e depararem-se com a situação de "e agora como é que eu vou pagar as despesas, como é que eu vou dar de comer ao meu filho?". Eu também sou mãe e este tipo de situações também acabam por nos marcar", conta. "Na parte dos idosos tivemos aqui também algumas situações de nos ligarem a chorar dizendo coisas como "agora não vou poder sair de casa, como é que vai ser a minha vida? Vou ficar sem comida, vou ficar sem poder comer?", e mesmo as colegas que estão na linha da frente no acompanhamento de situações sociais acabaram por se comover muito com várias situações", prossegue Ivone Afonso.

"Eu ia um bocadinho com o coração nas mãos quando ia para casa, porque ia para o conforto do meu lar, para a minha família. Era e é um sentido de dever cumprido, de poder fazer a diferença na vida das pessoas, mas percebe-se que aquilo que nós possibilitamos é uma pequena parte no caos em que às vezes a vida daquelas pessoas está", confessa.

Investimentos de 1,4 milhões

Numa primeira fase, trabalharam dez pessoas no atendimento da Linha de Emergência Social. Agora, esse número baixou para metade, com uma retaguarda de mais três pessoas. Na Linha de Apoio Psicológico estão ao telefone três psicólogos e na Linha Voluntários são cinco pessoas. "Estas linhas não têm custos diretos de funcionamento, uma vez que os atendimentos são feitos por recursos humanos da edilidade. No entanto, resultando dos atendimentos a ativação de recursos - nomeadamente, o Fundo de Emergência Social, disponibilização de refeições confecionadas, entre outros - e o apoio imediato das necessidades, como a entrega de produtos alimentares e de medicamentos, este investimento rondará os 1,4 milhões de euros", adianta ao DN o presidente da Câmara de Oeiras. A maior fatia deste investimento (1,07 milhões) está adjudicada ao Fundo de Emergência Social, especificou. Isaltino Morais garante ainda que "estas três linhas ficarão ativas enquanto o atual contexto de pandemia o justificar."

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