O projeto inovador de Cascais para criar "agentes da descarbonização"

O Cascais Smart Pole by Nova SBE arranca com um laboratório vivo para testar soluções inovadoras na área do ambiente. "O grande objetivo é a redução de emissões", diz o responsável Luís Veiga Martins.

Francisco de Almeida Fernandes
Cascais tem vários projetos de sustentabilidade ambiental.© Filipa Bernardo/ Global Imagens

Desde 1980, a temperatura média do planeta subiu cerca de um grau. O valor parece baixo, mas ganha outra dimensão com o aviso dos especialistas - até ao final deste século, o objetivo traçado pelo Acordo de Paris é limitar o aumento a 1,5 graus. Caso contrário, a vida na Terra como a conhecemos mudará significativamente e o ser humano pode não resistir a essa alteração. A missão de mitigar as alterações climáticas levou a que Cascais se tornasse o primeiro município do país a lançar um roteiro para atingir a neutralidade carbónica até 2050, à semelhança do compromisso assumido por Portugal. "No âmbito desse roteiro, que não queremos que seja apenas uma lista de boas intenções, está uma série de medidas relacionadas com a descarbonização", explica ao DN a vereadora Joana Balsemão, responsável pela pasta da sustentabilidade. Uma dessas iniciativas é o Cascais Smart Pole by Nova SBE, um espaço de experimentação de soluções inovadoras que podem vir a contribuir para este objetivo comum.

O projeto - promovido pela Fundação Alfredo de Sousa e desenvolvido pela Nova SBE - será financiado, em cerca de 950 mil euros, pelos EEA Grants, um mecanismo que apoia medidas para reduzir as disparidades económicas e sociais entre países da União Europeia. Luís Veiga Martins, diretor executivo de sustentabilidade da faculdade, diz que o propósito "é que este não seja apenas um laboratório de soluções que nunca vejam a luz do dia, mas antes que se tornem soluções que possam contribuir para o roteiro nacional e municipal". Para lá chegar, foi criada uma rede de parceiros que envolve empresas de diferentes setores que estarão intimamente envolvidas nas várias ideias que serão testadas, mas que também contribuem com financiamento. Este orçamento colocado ao serviço da inovação ambiental será distribuído por recursos humanos, equipamentos e outros custos associados.

Estes laboratórios vivos vão envolver residentes, trabalhadores e estudantes através de uma série de subiniciativas que se vão realizar ao longo de 36 meses. "Há uma dimensão de que gosto muito e que é altamente pioneira, que é o Smart Pole Market. É uma ferramenta através da qual os cidadãos podem trocar créditos de carbono", exemplifica Joana Balsemão. De forma prática, esta será uma plataforma em que será possível acumular créditos de carbono com base em ações positivas para o ambiente, que serão gastos à medida que o utilizador pratique alguma atividade que implique a emissão de gases com efeito de estufa. Por exemplo, se depositar óleo alimentar usado num contentor apropriado, recebe um crédito que pode gastar quando precisar de conduzir um automóvel de combustão. "O nosso objetivo é mostrar que a descarbonização traz vantagens às famílias", diz a vereadora.

A monitorização dos resultados é, pois, fundamental para perceber que soluções estão ou não a funcionar e em que medida, mas também para que seja possível compreender o verdadeiro impacto do Cascais Smart Pole. Estes dados vão incluir áreas como a energia, a água ou a qualidade do ar, que poderão ser consultados por qualquer pessoa a todo o momento. "Se falarmos em impactos esperados, o grande objetivo é a redução de emissões, de consumos energéticos, do aumento da eficiência energética ou ao nível do tratamento das águas residuais", concretiza Luís Veiga Martins, que pretende que os munícipes de Cascais sejam verdadeiros "agentes da descarbonização".

Criar impacto a partir da universidade


O campus universitário da Nova SBE, em Carcavelos, será o epicentro para a inovação em prol da sustentabilidade. É ali que serão trabalhados e experimentados diferentes projetos, desde um sistema de recolha de óleos alimentares usados e a sua transformação em biocombustível a usar nos transportes públicos à implementação de uma comunidade de produção de energia renovável. As ideias são muitas, garante o responsável da faculdade, e a esperança é de que muitas delas possam ser replicadas em todo o concelho depois de testadas e comprovadas. Sobre a importância de a academia integrar a problemática das alterações climáticas na sua ação, Luís Veiga Martins não hesita em lembrar que é ali que se estão "a formar os futuros líderes da sustentabilidade".
A vereadora Joana Balsemão acredita que "a academia ganha muito em ter aplicação real de projetos e conceitos através da testagem de ideias inovadoras", enquanto o município consegue na Nova SBE um parceiro que possa contribuir com estratégias baseadas em ciência. "É uma parceria público-privada para as pessoas e para a comunidade", descreve Veiga Martins.

dnot@dn.pt