Alto do Pina. Na marcha campeã reina o cansaço e uma forte motivação

Após dois anos de ausência, as Marchas Populares voltam a desfilar na Avenida da Liberdade na noite de 12 de junho. No Alto do Pina, entre os atuais campeões, há o desejo de repetir a vitória alcançada em 2019. Teresa Guilherme e Madjer são os padrinhos empenhados.

A Marcha do Alto do Pina está pronta para regressar à Avenida da Liberdade, após dois anos sem Festas de Lisboa, para revalidar o título de campeã que conquistou em 2019. A ansiedade e o cansaço são muitos, até porque o trabalho a sério só começou em fevereiro, depois de a Câmara Municipal anunciar que este ano se iam festejar os Santos Populares, mas apesar de tudo reina a vontade de voltar a vencer.

"Estes dois anos foram muito tristes para todo o bairro. Foi uma tristeza enorme. Há pessoas que marcharam durante 25 anos seguidos e, de repente, tiraram-lhes o amor da vida deles. Foi duro. E neste regresso nota-se que todas as marchas estão com muita vontade", diz Bruno Vidal, diretor artístico da Marcha do Alto do Pina, ao DN. "Este ano há uma responsabilidade para que toda a gente perceba que as marchas fazem falta a Lisboa", sublinha.

E desengane-se quem pensa que, este ano, vai descer a Avenida a marcha que o Alto do Pina tinha prevista para 2020. "Passaram dois anos na história das marchas, na história do mundo e os temas atualizam-se", garante. Mesmo com pouco tempo, Bruno Vidal e a sua equipa criaram um projeto completamente diferente e cujo tema será "Para Sempre Alto do Pina".

"Este ano está a ser muito atípico precisamente por causa dos prazos, pois não sabíamos se ia haver marchas ou não. Em anos normais, começamos a trabalhar no dia 13 de junho, pois acaba uma e começamos logo a trabalhar na outra, o que não aconteceu desta vez. Ninguém sabia se ia haver, por isso ninguém se pôs a trabalhar", refere o coordenador da Marcha do Alto do Pina. "É tudo muito apertado, mas vai ser muito bom!", vaticina.

O regresso das marchas e das Festas de Lisboa foi anunciado pela autarquia a 8 de fevereiro. Foi uma espécie de tiro de partida para as coletividades, como o Ginásio do Alto do Pina, criarem autênticas "marchas contrarrelógio". "Felizmente ou infelizmente é um bocado assim. Mas é como lhe digo, não existem problemas, existem desafios", assume Bruno Vidal. "Quando se soube que havia marchas, eu já tinha umas ideias, claro. Nunca se parte do zero, mas o desenvolvimento coreográfico, da cenografia e figurinos é feito a partir do momento que nos dizem que vai haver espetáculo", conta.

A marcha que o Alto do Pina vai apresentar na noite de Santo António, na Avenida da Liberdade, é nova, mas o grupo de marchantes manteve-se. "Temos uma massa humana muito grande, com muitos marchantes antigos e temos uma grande renovação de marchantes que vêm dos Alto Pininhas. É como se fosse a nossa escola, todos os anos sobem os dois ou três melhores", explica este responsável, adiantando que a música estará mais uma vez a cargo de Nuno Feist, a roupa está nas mãos de Mónica Lafayette, enquanto Américo Grova é o responsável pela cenografia. "A nível coreográfico sou eu e também coordeno os figurinos. Todo o projeto passa por mim", refere Bruno Vidal.

A despedida do bairro antes de partir para a Avenida

Nos últimos dois meses, 50 marchantes - os 48 que vão desfilar e dois suplentes - têm ensaiado todas as noites, durante duas horas, na Escola Básica Patrício Prazeres. A esses ensaios os padrinhos da marcha, a repetente Teresa Guilherme e o novato Madjer [ex-jogador de futebol de praia], também não têm faltado. Afinal, a Marcha do Alto Pina tem a particularidade de integrar os padrinhos na sua coreografia, uma ideia lançada por Bruno Vidal em 2015, o ano da sua estreia nas marchas e logo com uma vitória.

"Os padrinhos têm de embelezar o espetáculo e não distrair as pessoas. Para isso têm que fazer parte deles, senão são duas peças soltas que ali andam. A Teresa, desde sempre, percebeu isso, bem como todos os padrinhos que tenho escolhido. Seja o Bruno Cabrerizo em 2015, o Marco Costa, que foi o meu último padrinho, e agora o Madjer. Todos eles incorporam muito bem este espírito", garante.

Entre o contrarrelógio que está a ser a preparação deste ano e o facto de a primeira apresentação ao público e ao júri estar ali ao virar da esquina, os sentimentos que se vivem entre os elementos da Marcha do Alto do Pina vão da motivação ao cansaço, mas nada que preocupe o coordenador. "O Alto do Pina é uma marcha com uma motivação muito forte. Quando aqui cheguei já tinham sido bicampeões com o Carlos Mendonça, que deixou aqui um espírito e uma mentalidade muito fortes. Já era uma marcha habituada a ganhar, com uma mentalidade vencedora e assim permanece. Está a ser muito trabalhoso, porque não estamos aqui para brincar, estamos aqui para ganhar. Eles estão muito cansados, mas muito motivados. E agora começa a ansiedade, mas há que saber transformar essa ansiedade em força, energia, garra e amor ao bairro e à marcha", assume Bruno Vidal, referindo que o facto de o Alto Pina ser o último a desfilar na Avenida não representa uma ansiedade extra. "O melhor fica para o fim!", atira.

Há, no entanto, uma certeza para o grande dia: ao final da tarde de 12 de junho serão brindados com um banho de multidão no desfile - em jeito de despedida do bairro - que fazem desde a sede do Ginásio do Alto do Pina, na rua Barão de Sabrosa, e a Praça do Chile, onde vão entrar para o autocarro que os levará até à Avenida. "Até me arrepio. É das coisas que mais me apaixonou desde que cheguei ao Alto do Pina, ver aqueles milhares de pessoas a acompanhar-nos até ao autocarro. Mesmo aqueles que não ligam muito...", diz, não escondendo a emoção.

Cinco dias de desfiles

3 de junho

A exibição das Marchas Populares deste ano começa no dia 3 de junho, a partir das 21.00 horas, com a presença da Marcha Infantil "A Voz do Operário", seguida das marchas de Belém, Bairro da Boavista, Castelo, Alto do Pina, Bica Mouraria e Bairro Alto.

Local: Altice Arena

4 de junho

O segundo dia das exibições tem início também às 21.00 e, neste sábado, serão avaliadas pelo júri a Marcha dos Mercados e as representantes de Marvila, Lumiar, Baixa, Olivais, São Vicente, Carnide e Penha de França.

Local: Altice Arena

5 de junho

O terceiro e último dia de exibição das Marchas Populares de Lisboa no Altice Arena contará com a participação da Marcha da Santa Casa e as da Bela Flor-Campolide, Madragoa, Ajuda, Alcântara, Campo de Ourique e Alfama.

Local: Altice Arena

12 de junho

A noite de Santo António é sinónimo de desfile das Marchas Populares na Avenida da Liberdade, que este ano terá como convidada a Marcha Popular de Vale do Açor. O alinhamento do tradicional desfile será o seguinte: Marcha Infantil das Escolas de Lisboa, Marcha Infantil "A Voz do Operário", Marcha dos Mercados, Santa Casa, Mouraria, Castelo, Carnide, Bela Flor-Campolide, Bairro Alto, Bairro da Boavista, Penha de França, Lumiar, Belém, Baixa, Madragoa, Campo de Ourique, Alcântara, Alfama, Ajuda, Marvila, Bica, São Vicente, Olivais e, a encerrar, a Marcha do Alto do Pina.

Local: Avenida da Liberdade

18 de junho

A partir das 17.00 horas, pode assistir-se ao desfile das marchas infantis das escolas de Lisboa, formadas por crianças de vários estabelecimentos de ensino da cidade e que contam com o apoio das Juntas de Freguesia.

Local: Quinta das Conchas

ana.meireles@dn.pt

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